Gemini sobe a 21,5% e ChatGPT cai a 64,5% no mercado de IA

Em janeiro de 2025, o ChatGPT respondia por 86,7% do mercado global de inteligência artificial generativa. Doze meses depois, a fatia estava em 64,5%. No mesmo intervalo, o Gemini, do Google, subiu de 5,7% para 21,5% — mais de 20 pontos percentuais trocaram de lado em um ano. Antes de tratar isso como veredito, vale olhar de onde vêm os quatro percentuais e o que, exatamente, eles medem.

Quem mediu, o que foi medido e em que período

Os números são atribuídos à Similarweb, empresa que acompanha tráfego na internet. A comparação usa dois pontos no tempo: janeiro de 2025 e o mesmo mês doze meses depois. E o dado bruto citado ao lado dos percentuais é de visitantes, não de contratos nem de assinaturas: somente em dezembro, o ChatGPT teve 5,5 bilhões de visitantes, contra 1,7 bilhão do Gemini.

Ou seja, em volume a liderança seguia folgada com o ChatGPT. O que mudou depressa foi a velocidade: no recorte mensal de dezembro, o tráfego do Gemini cresceu 28% sobre o mês anterior, enquanto o do ChatGPT caiu 5,6%. Participação de mercado é uma divisão — ela sobe tanto quando um lado cresce quanto quando o outro encolhe, e aqui as duas coisas aconteceram ao mesmo tempo.

O que esses percentuais não conseguem enxergar

Nenhuma medição de audiência descreve um mercado inteiro, e essa não é exceção. Quatro limites ficam sem resposta no material que divulgou os dados:

  • Não é receita nem base de clientes. Visitante não é usuário único, e usuário único não é quem paga. Fatia de audiência e fatia de faturamento podem andar em direções diferentes.
  • Global não vira recorte por país. Não há número separado do Brasil, nem de qualquer outro mercado, o que impede afirmar que a mesma curva vale por aqui.
  • Uso dentro de outros programas é o ponto cego. Não está explicado se pedir um resumo dentro do Gmail ou acionar o assistente no Android entra na conta, ou se apenas o acesso ao site é contabilizado. A diferença mexe no tamanho do Gemini — e mexe para os dois lados.
  • Um ano é pouco para tendência. Dois lançamentos concentrados em dois meses puxaram boa parte da variação, o que é diferente de um deslocamento estável de preferência.

Nada disso invalida o movimento, grande demais para ser ruído. Serve para ler o número pelo que ele é: uma medida de audiência na web, de uma empresa só, em janela de doze meses, sem abertura por região.

Novembro e dezembro: os dois lançamentos que mudaram a curva

Em 18 de novembro de 2025, o Google lançou o Gemini 3. Em 16 de dezembro, veio o Gemini 3 Flash, apresentado como capaz de entregar inteligência de ponta por menos de um quarto do preço do Gemini 3 Pro, mais rápido que o Gemini 2.5 Pro e superando esse modelo anterior nos principais testes de comparação.

O segundo anúncio é o que aperta o concorrente onde dói. Com uma opção mais barata e boa o suficiente, a OpenAI passa a escolher entre baixar preços, comprimindo a própria margem, ou aceitar que parte de quem desenvolve aplicações migre para a alternativa de menor custo.

Isso não é ruído. Esta é a evidência mais clara de que o Google não está apenas participando, mas também está capturando participação de mercado.

A leitura é de Sam Badawi, presidente-executivo da Solid Finance.

Arquitetura e distribuição pesam juntas

Há uma diferença técnica por trás da comparação. O ChatGPT funciona como um coordenador: aciona um modelo especializado para gerar imagem, outro para analisar dados, outro para buscar na web, e costura os resultados. O Gemini foi construído desde o início para processar texto, imagem, áudio e vídeo ao mesmo tempo, num raciocínio único. Na prática, isso reduz o atrito quando o pedido mistura formatos — comparar um trecho de vídeo com uma tabela de um documento, por exemplo.

Só que técnica não explica tudo. Se explicasse, o Claude, da Anthropic, considerado por muitos desenvolvedores superior em raciocínio e em programação, teria participação bem maior. A vantagem decisiva do Google é onde a ferramenta está: Busca, Android, Chrome, Gmail, Docs, Sheets e Meet. Ninguém precisa abrir um endereço novo para usar o Gemini — ele aparece dentro do que a pessoa já tinha aberto. O ChatGPT é destino; o concorrente virou infraestrutura ambiente.

O código vermelho da OpenAI e os três pontos frágeis

Em dezembro, Sam Altman declarou “código vermelho” e pausou projetos de monetização — inclusive publicidade e assistentes de compras com IA — para concentrar recursos na experiência principal do ChatGPT. Em memorando interno, disse que a empresa estava “em um momento crítico para o ChatGPT” e precisava responder rapidamente. Em público, adotou tom mais leve: o Gemini 3 “não teve o impacto que temíamos”, mas “identificou algumas fraquezas em nossa estratégia de oferta de produtos.”

As fragilidades estruturais apontadas são três:

  • Dependência de tráfego direto. É preciso que a pessoa decida ir até o ChatGPT. Quando a novidade passa, esse tipo de acesso tende a cair.
  • Ausência de ecossistema próprio. A OpenAI não tem navegador, sistema operacional, suíte de produtividade nem mecanismo de busca, e depende de parcerias — como a que mantém com a Microsoft — em que não controla a experiência inteira.
  • Estrutura de custos. Rodar modelos de ponta é caro e exige monetizar rápido. O Google pode sustentar o Gemini com o que ganha em Busca e em anúncios, tratando a IA como vantagem de longo prazo em vez de centro de lucro imediato.

Diante disso, são três as saídas plausíveis para a empresa, não excludentes entre si. A primeira é a especialização vertical: focar em uso empresarial de alto valor, com integrações corporativas e soluções sob medida, deixando a disputa de massa. A segunda é a corrida técnica: lançar o GPT-5 com capacidades tão superiores que forcem a reversão — aposta arriscada, porque exige manter a dianteira indefinidamente. A terceira é a consolidação: aprofundar a parceria com a Microsoft e usar a distribuição de Windows, Office e Azure para competir em pé de igualdade.

O histórico do setor ajuda a dimensionar o momento. A Microsoft vendeu tablets antes do iPad; o Google fez relógios inteligentes antes do Apple Watch; a Netscape comercializou navegador antes do Internet Explorer e do Chrome. Criar a categoria e vencer o mercado são coisas diferentes, e a segunda costuma exigir distribuição, integração e fôlego para bancar a fase de crescimento.

O que muda para quem usa essas ferramentas no trabalho

Para quem já apoia rotina, atendimento ou produção de conteúdo nessas plataformas, três consequências práticas saltam dos números:

  • Evite depender de um fornecedor só. Preço, limite de uso e qualidade estão mudando em intervalos de semanas; deixar processos amarrados a uma única ferramenta transforma decisão comercial alheia em problema interno.
  • Integração vale tanto quanto desempenho. O modelo que ganha em teste isolado pode render menos no dia a dia se obrigar a sair do programa em que o trabalho acontece.
  • Compare custo por tarefa, não por assinatura. A chegada de versões mais baratas e boas o bastante tende a puxar preços para baixo em todo o setor, e quem revisa contrato com frequência captura essa queda.

O próximo ponto de checagem é a medição seguinte: se a distância entre os 64,5% e os 21,5% continuar encolhendo no mesmo ritmo ao longo de 2026, deixa de ser reação a lançamento e passa a ser mudança de hábito.

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