Hugo Cibien na etapa de Goiânia, com patrocínio da Sesport

Imagem divulgada pelo governo do Estado sobre a participação do piloto capixaba Hugo Cibien na etapa de Goiânia, em julho de 2024

O piloto capixaba Hugo Cibien tinha duas corridas marcadas para o fim de semana de 27 e 28 de julho de 2024, na 4ª Etapa da Stock Series, no Autódromo Internacional de Goiânia Ayrton Senna, em Goiânia. O comunicado que originou esta publicação foi divulgado na véspera, pelo governo do Estado, e nunca foi atualizado: ele descreve no tempo futuro um fim de semana de prova encerrado há dois anos, e não traz o resultado. Quem procura saber em que posição o capixaba terminou em Goiânia não vai encontrar a resposta no material de origem.

Há, porém, um dado dentro desse comunicado que vale mais que a expectativa do piloto e costuma passar despercebido no meio da descrição da pista: quem divulgou o texto é a mesma administração pública que patrocina o piloto. Hugo Cibien conta com patrocínio da Secretaria de Esportes e Lazer (Sesport), por meio da Lei de Incentivo ao Esporte Capixaba (LIEC). Isso não invalida nenhuma informação do material, mas muda a sua natureza — e precisa estar declarado.

Por que um comunicado de governo fala de um piloto

Um piloto de automobilismo é pessoa privada e disputa uma competição comercial. Ele aparece num canal oficial do Estado porque recebe apoio público: o próprio texto informa o patrocínio da Sesport, viabilizado pela LIEC. E o trecho final do comunicado sequer trata da corrida — explica o que é a lei de incentivo e como empresas podem financiar projetos esportivos aprovados.

Essa última parte é uma chamada de captação, dirigida a empresas e não ao leitor comum: orienta quem tiver interesse a consultar os projetos já aprovados e a procurar a secretaria para obter dados dos proponentes. O site oficial mencionado na chamada chegou sem endereço nenhum na cópia que originou este post, e endereço não se inventa. O fato de a chamada existir fica registrado — ajuda a entender que tipo de texto é este —, sem que o convite seja repetido.

De onde sai o dinheiro da Lei de Incentivo ao Esporte Capixaba

Vale entender o mecanismo, porque a palavra patrocínio, dita por uma secretaria, sugere caixa do Estado — e o próprio comunicado descreve outra coisa. A LIEC foi sancionada pelo governador Renato Casagrande e existe para promover, em todo o Espírito Santo, tanto quem compete quanto as entidades que organizam o esporte — atletas, clubes, associações, federações e as próprias competições — com recursos captados junto a empresas instaladas no Estado. Ou seja: quem coloca o dinheiro no projeto é a empresa; a secretaria organiza o mecanismo, aprova os projetos e depois divulga o resultado. Quem anuncia o apoio não é necessariamente quem paga a conta.

A lei prevê duas frentes bem diferentes, segundo o próprio texto. Uma é o esporte que se pratica sem disputa de resultado: o desporto educacional, o de lazer e o de participação, dirigidos ao público em geral. A outra é o esporte de rendimento, voltado a quem compete em alto nível, incluindo paratletas, com foco em melhorar colocações. O comunicado não diz em qual dessas frentes o projeto do piloto foi enquadrado, nem quanto vale o apoio.

A secretaria mantém outras portas de entrada para atletas capixabas além da lei de incentivo, como o edital de apoio cujo resultado preliminar saiu em dezembro de 2024 — processo posterior a esta corrida e independente dela.

O que estava marcado para o sábado e o domingo em Goiânia

A programação das duas corridas da 4ª Etapa da Stock Series 2024 era esta: sábado (27), às 13h50, e domingo (28), a partir das 10 horas. A transmissão anunciada era da Band Sports, do SporTV e de canais da própria categoria na internet. Nada disso presta serviço a quem lê hoje — a informação fica no texto como registro do que foi divulgado, não como convite.

A rodada foi apresentada como a volta do Autódromo Internacional de Goiânia Ayrton Senna ao calendário da Stock Series, que é a categoria de acesso à Stock Car. O comunicado não diz de quando é esse retorno: não há no material o ano da última vez em que a categoria correu ali, nem quantas temporadas a pista ficou fora. É uma afirmação sem a data que a sustentaria, e não cabe preenchê-la de memória.

3.820 metros e uma reta de 1.000: a pista que o piloto elogia

O traçado goiano é descrito no material como um dos mais velozes do automobilismo brasileiro. São 3.820 metros de extensão, vários pontos de ultrapassagem, curvas de alta e de baixa velocidade, o trecho que o texto chama de tradicional S e uma das maiores retas entre os autódromos do país, com 1.000 metros. Reta longa costuma significar mais chance de ultrapassagem numa competição de carros de mesma configuração, porque a diferença tende a vir do piloto e do acerto do carro, e não da potência do motor.

A avaliação do circuito, no comunicado, é do próprio competidor:

O Autódromo de Goiânia é um circuito moderno e é considerado um traçado de extrema segurança, com vários pontos de ultrapassagem, uma grande reta, mesclando curvas de alta e baixa velocidades. A disputa promete ser muito boa pela característica do circuito e pelo fato de a Stock Car ter carros iguais

Quem fala é o piloto Hugo Cibien. Antes disso, ele havia apontado o que considerava o fator de imprevisibilidade do fim de semana:

A grande maioria dos pilotos conhece o circuito, mas ainda não andou em Goiânia de Stock, o que muda tudo

A frase também é dele. As duas declarações são avaliações prévias, feitas antes de qualquer volta cronometrada — e é sobre elas, e não sobre um fato consumado, que o título original desta publicação foi construído.

A etapa anterior: o que o texto conta e onde ele trava

O relato da 3ª etapa, no Autódromo do Velocitta, em Mogi Guaçu (São Paulo), aparece no comunicado numa frase que não se completa. O material diz que Cibien chegou a brigar pelas três primeiras posições com a pista úmida, cita uma relargada já com o traçado mais seco e a entrada do safety car, e conclui que o piloto da W2 ProGP perdeu o pódio nos minutos finais de uma corrida marcada pelo tempo instável, uma das mais movimentadas da temporada 2024. A construção fica sem sujeito: não se sabe, pelo texto, o que exatamente custou o pódio. A falha está na origem — não foi introduzida na cópia — e por isso a lacuna é registrada em vez de remendada.

Também não há, em lugar nenhum do material, a posição em que o piloto terminou aquela etapa, sua pontuação ou sua colocação no campeonato. O que existe é o adjetivo: brigou pelas primeiras posições, perdeu o pódio. Enredo de corrida não é resultado, e o comunicado não oferece o número que permitiria ao leitor medir a temporada do capixaba.

O que veio depois, no acervo do portal

O calendário do piloto não parou em Goiânia. Poucos dias depois desta etapa, em agosto de 2024, ele estreou em outra categoria, a Copa Truck, em Interlagos — episódio distinto e posterior a este. No mês seguinte, em setembro de 2024, houve resultado registrado: ele subiu ao pódio na Copa Truck, em Cascavel, também depois do fim de semana descrito aqui e em competição diferente.

O que o comunicado do governo não informa

Comunicado de assessoria mostra um lado só: não passou por contraditório e não leva assinatura de repórter, e sim da comunicação de um órgão interessado no assunto. A lista do que ele deixa de responder é longa:

  • o valor do patrocínio ao piloto e por quanto tempo ele vale;
  • quais empresas financiaram o projeto aprovado pela lei de incentivo;
  • quais competições o apoio cobre — o texto cita o patrocínio de forma geral, sem vinculá-lo a esta ou a outra categoria do calendário do piloto;
  • o resultado das duas corridas de 27 e 28 de julho de 2024, porque o texto é anterior a elas e nunca foi atualizado;
  • a posição final na etapa anterior e a colocação no campeonato até ali;
  • desde quando a pista estava fora do calendário da categoria, apesar de o retorno ser o argumento do texto;
  • de que município capixaba é o piloto: ele é descrito apenas como capixaba.

Registrar essas ausências é parte de ler comunicado oficial com atenção — sobretudo quando o órgão que divulga a notícia é, pelo próprio texto, parte interessada nela.

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