No último dia de aula do primeiro semestre de 2024, a quadra e a área externa de uma escola estadual de Barra de São Francisco viraram um mapa-múndi improvisado: cada turma assumiu um país que disputaria a Olimpíada daquele ano e teve de explicar à comunidade como se come, se veste e se dança por lá. A feira cultural em Barra de São Francisco foi atividade pontual e já realizada — o material divulgado pela rede estadual de ensino registra o que aconteceu e não anuncia nova edição.
A unidade é o Centro Estadual de Ensino Fundamental e Médio em Tempo Integral (CEEFMTI) João XXIII, e o evento tinha nome próprio e comprido: Feira Internacional – Olimpíada 2024: Celebrando a Diversidade Global. O que foi exposto ali não era atividade extra nem enfeite de fim de semestre: eram os trabalhos produzidos nas aulas da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, sob coordenação do professor Alan Conrado de Oliveira Neto.
Como funcionou a feira cultural em Barra de São Francisco
A programação teve dois turnos e dois formatos diferentes. Pela manhã, as apresentações aconteceram na quadra poliesportiva, e houve premiação para as turmas que fizeram a melhor representação de seus países. À tarde, o desenho mudou: estandes foram armados na área externa da escola, e cada grupo defendeu oralmente o que havia pesquisado. A programação foi aberta ao público, e moradores puderam circular pelas apresentações.
A distribuição seguiu a regra de um país por turma, com um critério que o texto oficial menciona sem desenvolver: a escalação foi fechada de modo que houvesse representantes de cada continente e de países em situações econômicas bem diferentes entre si. Ou seja, a divisão não se resumiu aos países mais ricos.
Os assuntos também não pararam no cartão-postal. Cada grupo tratou de culinária, trajes típicos, danças, músicas e artesanato, mas igualmente da economia do país que representava e dos legados dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos. Legado, aliás, é palavra que circula muito em ano de Olimpíada e quase nunca vem explicada: trata-se do que permanece na cidade-sede depois que a competição acaba.
Impressora 3D e máquina de corte fizeram estandes e medalhas
Há um detalhe que separa esta feira de uma feira de cartolina. Os estandes e as medalhas entregues na premiação foram produzidos com equipamentos que chegaram à escola pelo programa Escola do Futuro: uma máquina de corte e uma impressora 3D. Segundo o material, parte dos estudantes já tinha intimidade com esses aparelhos, e foi isso que tornou a produção viável dentro do prazo da atividade.
Vale o registro de onde o equipamento apareceu: no meio de um trabalho da área de Humanas, e não numa atividade ligada a tecnologia. Quanto custaram as máquinas, quando chegaram à unidade e quantos estudantes sabem operá-las são informações que o texto não traz.
Escola do Futuro é o nome do programa, não da escola
Aqui cabe desfazer uma confusão que o nome da atividade costuma provocar. Escola do Futuro não é apelido da unidade nem nome de projeto inventado pelos professores da feira: é um programa do Governo do Espírito Santo, executado pela Secretaria da Educação (Sedu), do qual o CEEFMTI João XXIII faz parte. A escola continua sendo o João XXIII; a expressão indica a condição de quem entrou no programa.
O que a iniciativa propõe, em linguagem de leigo: levar tecnologia digital para a rotina da sala de aula, com métodos diferentes do quadro-e-giz, dentro do que a rede chama de Cultura Digital. A Sedu apresenta o programa como parte de um conjunto maior de mudanças, alinhado ao Currículo do Espírito Santo e ao que o material grafa como Base Nacional Curricular Comum (BNCC) — o conjunto de aprendizagens que toda escola do país precisa garantir em cada etapa. O objetivo declarado é formar estudantes capazes de usar as ferramentas digitais com senso crítico e responsabilidade.
A sigla do nome da escola também costuma travar a leitura. CEEFMTI significa Centro Estadual de Ensino Fundamental e Médio em Tempo Integral: é a unidade que atende as duas etapas e mantém os estudantes na escola em jornada ampliada, e não apenas em um turno.
O que os estudantes disseram sobre a feira
O material traz a avaliação de dois estudantes que participaram, Arthur Andrade Lima e Vitória Miranda Vencioneck. Os dois puxam o mesmo fio, e não é o fio da geografia: o que ficou, para eles, foi a convivência.
O projeto da feira de Olimpíadas foi um verdadeiro sucesso. Conseguimos apreciar, conhecer e aprender mais sobre a diversidade cultural. Um ponto muito importante foi a forma como nós, por intermédio da feira, valorizamos as pessoas com deficiências físicas, já que esse é o intuito da Paraolimpíada
A avaliação é do estudante Arthur Lima.
Foi um evento muito importante para a conscientização da inclusão e igualdade, além de buscarmos desenvolver o pilar da convivência entre os alunos, para que se dedicassem ao máximo e se unissem para dar o seu melhor e apresentar um trabalho de excelência. Tenho certeza de que a nossa turma ficou honrada em participar desse projeto e, com ele, aprendeu bastante sobre empatia, união e, principalmente, respeito
O complemento é da estudante Vitória Vencioneck.
Um lado só do relato, e o que ficou de fora
Todo o material sobre a atividade partiu da própria rede estadual de ensino, que é ao mesmo tempo organizadora e divulgadora do resultado. Não há registro da avaliação de quem assistiu de fora, de famílias ou de professores de outras áreas. Ausência de crítica em texto oficial não é o mesmo que consenso.
Faltam, ainda, informações que qualquer leitor interessado procuraria:
- a data exata da feira — o material se limita a situá-la no encerramento do semestre letivo;
- quantas turmas participaram e, portanto, quantos países foram representados;
- quais países entraram na lista e quais turmas levaram a premiação;
- quantas pessoas da comunidade compareceram, já que a programação foi aberta ao público;
- há quanto tempo a escola integra o programa e quantas unidades do Estado estão nele;
- se a feira terá nova edição, porque não existe anúncio de repetição em nenhum trecho.
Também não foi divulgado canal de contato da escola para quem queira se informar sobre atividades abertas seguintes.
Projetos de sala de aula que terminam em evento aberto à comunidade aparecem em outras escolas: mais de um ano depois, em setembro de 2025, a Escola Antônio dos Santos Neves montou uma Gincana Sustentável inspirada em obra literária — iniciativa distinta desta, com outra escola, outro tema e outra data.
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