O prazo para as escolas se candidatarem ao programa Cinema em Toda Parte terminou em 04 de agosto de 2024 — quem chega a este texto agora está diante de um registro, não de um aviso de inscrição aberta. Naquele momento, a Secretaria da Educação (Sedu) e a Secretaria da Cultura (Secult) procuravam escolas da Rede Pública Estadual de Ensino instaladas em municípios capixabas com até 30 mil habitantes para disputar dez lugares em um projeto de formação em audiovisual. O que estava em jogo eram dez oficinas de cinema, a montagem de um núcleo de audiovisual por cidade atendida e um kit de equipamentos para cada núcleo.
Quem podia se inscrever no Cinema em Toda Parte
Quem preenchia o formulário era a unidade escolar, e não o estudante. A escola aprovada é que assumiria, no próprio prédio, três tarefas seguidas: divulgar o projeto, receber as inscrições dos alunos e fazer a seleção de quem participaria das formações. O aluno, portanto, só entrava na história depois de a escola dele ter entrado primeiro.
Do lado dos estudantes, a nota oficial delimita o público por idade: de 14 a 25 anos, matriculados na rede estadual, com interesse em produção audiovisual e sem exigência de experiência anterior na área. Há ainda um recorte declarado de prioridade — jovens em vulnerabilidade social matriculados nas escolas contempladas.
São dez vagas, uma por município. E é justamente no ponto seguinte que o material oficial para: ele informa que a escolha das escolas sairia de uma chamada pública organizada pela Sedu, em parceria com a Secult e com o Instituto Brasil de Cultura e Arte (IBCA), mas não descreve um único critério. Não há pontuação, não há regra de desempate, não há exigência de estrutura mínima, não há prazo de resultado e não se sabe quem julgava as candidaturas.
O endereço do formulário ainda abre; o formulário, não
Dois endereços faziam parte do anúncio, e hoje eles estão em situações diferentes.
O primeiro é o do formulário de inscrição das escolas. O endereço encurtado continua respondendo: ele redireciona para a página do formulário, que carrega normalmente e traz o nome do projeto no topo. O que essa página informa é que o questionário não recebe mais respostas e foi fechado de forma automática. Ou seja, o que venceu ali foi o prazo, não o link.
O segundo é o das regras do chamamento. No texto que circulou, o leitor era mandado clicar para conferi-las — e o endereço nunca veio junto. Ele não foi divulgado, e continua indisponível. O documento que traria os critérios de seleção é exatamente o que não se pode consultar, o que fecha o círculo aberto no parágrafo anterior: quem quisesse saber por que uma escola passou e outra não, não tinha onde procurar.
Duas secretarias no mesmo anúncio, e nenhuma divisão de tarefas
A nota descreve o arranjo em uma linha: o projeto é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo pela Sedu, em parceria com a Secult e com apoio institucional do IBCA. Mais adiante, ao tratar da escolha das escolas, ela põe os três lado a lado outra vez — a chamada pública seria organizada pela Sedu em parceria com Secult e IBCA, e os três orientariam as escolas em todas as fases de inscrição e seleção dos alunos.
Fora isso, o material não reparte nada. Não diz o que cabe à pasta da Educação e o que cabe à da Cultura; não informa quem contrata e paga os monitores; não esclarece quem compra os equipamentos nem de quem eles passam a ser; não indica quem responde se alguma etapa não sair do papel. A lei é citada como origem do dinheiro e o texto não traz um único valor — nem o custo do programa, nem o de uma oficina, nem o de um kit.
O que a escola selecionada teria pela frente
Esta é a parte mais concreta do anúncio, e vale enumerá-la:
- Carga horária mínima de 47 horas por oficina, distribuídas em 4 horas por dia.
- Turma de no mínimo dez e no máximo 25 alunos.
- Quem dá a aula: monitores e oficineiros, que passariam eles próprios por uma formação antes de o programa começar.
- Como o trabalho se organiza: grupos com funções de roteiro, direção, produção e edição, mais uma equipe de making of.
- O conteúdo: roteiro, pesquisa, estilos cinematográficos, tipos de narrativa, estrutura de cenas, enquadramento, foco, profundidade, luz, captação de som, decupagem do material gravado e edição.
- O resultado: cada oficina daria origem a um filme escrito, produzido, dirigido e finalizado pelos próprios alunos, com exibição gratuita para a comunidade ao fim do projeto.
- O kit de equipamentos: fone de ouvido, microfone, câmera, tripé profissional, HD externo, cartão SDXC de 64 Gb, computador de trabalho e gravador digital.
O fecho previsto era uma mostra aberta ao público, com as dez produções e debates com quem as fez, no Parque Cultural Casa do Governador. O local está no anúncio; a data, não — a nota diz apenas que seria definida depois.
O projeto é uma oportunidade de levar formação audiovisual para as escolas do interior do Espírito Santo. Os estudantes terão a oportunidade de produzir seu próprio curta, exercitando o seu olhar para o mundo e sua comunidade por meio do cinema. Com a doação dos kits, as escolas terão oportunidade de dar sequência à utilização do audiovisual como uma ferramenta pedagógica singular
A fala é do secretário de Estado da Cultura, Fabricio Noronha. Repare numa diferença de palavra que muda o alcance da promessa: a descrição do programa fala em entrega de um kit por núcleo, enquanto o secretário fala em doação. Doar transfere a propriedade; entregar, sozinho, não diz de quem a coisa é. O material não resolve a dúvida.
O que ficaria de pé depois de a caravana passar
O anúncio define o Cinema em Toda Parte como uma caravana de formação e difusão audiovisual — e caravana, por definição, segue viagem. O que ele apresenta como duradouro são os dez núcleos, um em cada município atendido, instalados nas escolas ou em centros culturais e pensados como espaço permanente de formação, criação, produção, discussão, acervo e exibição de filmes.
Sobre a sustentação desses núcleos depois da última oficina, porém, não há uma linha: quem os mantém abertos, quem cuida da manutenção dos equipamentos, quem coordena a programação, se há verba prevista para os anos seguintes. E o secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo, ao ligar a formação à educação em tempo integral e ao potencial das escolas, também não esclarece em que horário as oficinas entrariam na rotina escolar.
Vale ser exato quanto ao alcance deste material: ele é o anúncio do chamamento e se encerra na data do prazo. Não informa quais escolas foram escolhidas, se as dez oficinas ocorreram, se os filmes foram exibidos, se a mostra final aconteceu no parque nem se houve uma segunda rodada do programa em 2025 ou depois. O silêncio a respeito não equivale a resposta negativa — o texto oficial simplesmente termina antes dessas etapas.
Sete perguntas que o anúncio deixou em aberto
- Quais critérios separaram as dez escolas aprovadas das demais, e quem os aplicou?
- Quantas escolas e quantos municípios disputaram as vagas?
- Quanto custa o programa, e quanto dele sai da lei apontada como origem dos recursos?
- Quem contrata, paga e forma os monitores e oficineiros?
- Depois da última aula, o equipamento é de quem — da escola, da rede ou de quem executa o projeto?
- Em que data ocorreria a mostra final, e ela chegou a ocorrer?
- Havia previsão de nova turma no ano seguinte, ou o núcleo ficaria por conta da escola?
Uma observação sobre a procedência de tudo isso: o anúncio foi escrito pelas próprias pastas que assinam o programa, e as duas únicas vozes que aparecem são as de seus secretários. Não há avaliação de fora, não há escola, professor, estudante ou profissional do setor audiovisual falando, e não há custo submetido a exame de ninguém. Peça de divulgação raramente traz quem discorda — o que não autoriza concluir que não haja quem discorde.
Cinema na escola apareceu na rede estadual por outros caminhos
Meses depois de este chamamento se encerrar, em novembro de 2024, alunos de uma escola estadual apresentaram um trabalho em vídeo sobre o antigo cinema da cidade onde estudam. Em dezembro do mesmo ano, outra turma da rede produziu curtas-metragens gravados e editados no celular, dentro das aulas de Arte. Os dois episódios são posteriores a este anúncio e nenhum dos dois textos afirma qualquer vínculo com o programa descrito aqui — o que eles mostram é que o audiovisual entrou na sala de aula capixaba por mais de uma porta, incluindo a que não depende de edital nem de kit.
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