Alunos da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) José Damasceno Filho pesquisaram, escreveram o roteiro, filmaram e editaram um vídeo sobre o Cine Alba, o cinema desativado de Baixo Guandu. O material ficou pronto e foi mostrado no dia 29 de outubro. Ou seja: quando a divulgação oficial da rede estadual saiu, a apresentação já tinha acontecido e o vídeo já circulava. O professor de Língua Portuguesa que descreve o projeto afirma que a produção chegou às redes sociais — mas o texto oficial não diz em qual delas, não traz endereço e não indica onde assistir hoje.
Cinco etapas, todas creditadas à turma
Há diferença grande entre partir de um material já pronto e fabricar o próprio. Neste caso, a turma fabricou. A comunicação oficial enumera cinco tarefas, todas nas mãos dos alunos: levantar dados, escolher o que entraria no vídeo, montar o roteiro do documentário, gravar as imagens e fechar a edição. Nenhuma delas aparece creditada a outra pessoa.
O formato anunciado é um vlog documentário, expressão que junta dois gêneros diferentes. O vlog é o vídeo conduzido por quem grava, que aparece falando e guia o assunto; o documentário trata de fato real e costuma se apoiar em pesquisa e depoimento. O texto oficial usa os dois nomes colados e não explica qual dos dois predomina no resultado — se há narração dos estudantes em cena, se o corte é de entrevistas ou se o vídeo mistura os dois recursos.
A finalidade declarada é escolar antes de ser artística: desenvolver habilidades de comunicação audiovisual já trabalhadas em sala, mais o que a nota chama de habilidades técnicas e colaborativas. Junto disso aparece um segundo objetivo, esse ligado à cidade — mostrar o olhar dos estudantes sobre o prédio e valorizar o patrimônio cultural do município.
A atividade incentivou nos alunos uma consciência crítica. A produção foi compartilhada nas redes sociais, ampliando o alcance da narrativa e consolidando o protagonismo dos estudantes na preservação da memória de Baixo Guandu
A frase é do professor de Língua Portuguesa Bruno Henrique Castro. Ele é quem fala do começo ao fim da divulgação — e cabe reparar num detalhe: um texto construído em torno do protagonismo dos alunos não reproduz uma linha sequer dita por um deles.
O Cine Alba, em Baixo Guandu, e o pouco que a nota conta sobre ele
Sobre o cinema em si, o material oficial é curto. Diz que o Cine Alba é um espaço marcante da cidade e que encerrou as atividades após um princípio de incêndio. A expressão descreve fogo ainda no começo, contido antes de tomar proporção maior — e é só isso que o texto informa. Repare que ele encadeia os dois fatos em sequência de tempo, com o após: não afirma, em nenhum momento, que o incêndio tenha sido a causa do fechamento definitivo.
O que fica de fora é justamente o que um leitor de Baixo Guandu procuraria: em que ano o fogo aconteceu, qual foi a extensão dos danos, há quanto tempo as portas estão fechadas, de quem é o imóvel hoje e se ele tem alguma proteção formal como patrimônio. O texto usa a palavra patrimônio para descrever o valor do prédio para a cidade, o que é diferente de dizer que existe ato de tombamento. Nada disso é explicado.
A visita ao prédio fechado e as entrevistas com quem frequentava
A etapa que separa esse trabalho de uma pesquisa de internet foi a ida ao local. Os estudantes entraram no espaço desativado e, de lá, saíram com imagens e com depoimentos de gente que frequentava a sala de cinema no tempo em que ela funcionava.
A visita não apenas permitiu que os alunos se conectassem com a história do local, mas também ofereceu um ambiente para capturar imagens e realizar entrevistas com antigos frequentadores
Quem fala novamente é Bruno Henrique Castro. O material não informa quantas pessoas foram entrevistadas, se elas aparecem no vídeo final, quem abriu o imóvel fechado para a turma entrar nem se as imagens de quem deu depoimento foram liberadas por escrito para uso público.
Apresentaram, sim; mas exposição em que espaço?
O texto oficial usa um verbo só: os alunos apresentaram o vídeo no dia 29 de outubro. Ele não descreve mostra, feira, festival nem sessão aberta. Não diz se a exibição ficou dentro do prédio da escola ou saiu dele, se havia plateia além das turmas, se o trabalho valeu nota, se passou por julgamento de alguém de fora ou se disputou prêmio. Nada disso é negado — simplesmente não é informado, e uma coisa não é a outra.
Continuidade também não aparece em lugar nenhum. Nova edição, ampliação para outras turmas, exibição futura aberta à cidade, prazo de qualquer natureza: nenhum desses itens é anunciado. O que ficou registrado é uma atividade encerrada.
Por que aqui não há nome de aluno
Nenhum aluno é identificado na comunicação oficial, e esta reportagem tampouco identificaria. A prática é fixa na educação básica: o estudante é descrito pela função — a turma, a etapa, o curso —, nunca pelo nome próprio, mesmo quando tudo o que se conta é elogio. O motivo é aritmético. Junte nome, unidade escolar, ano e município e o conjunto passa a apontar um indivíduo específico dentro de um grupo de poucas dezenas de pessoas, num registro que os buscadores guardam por tempo indeterminado.
Há uma situação em que a decisão se inverte: quando o nome para de ser mero exemplo e passa a ser a própria informação — alguém eleito para representar o município, alguém premiado nominalmente numa disputa aberta. Não é o que se apresenta aqui, porque o material trata o vídeo como resultado coletivo, sem destacar autoria individual e sem mencionar prêmio. Já o professor segue identificado: ele assina a iniciativa na condição de profissional.
O que a divulgação oficial não informa
- O tamanho da turma. Quantos alunos entraram na produção, e em que ano ou série estudam — a nota diz somente alunos da escola.
- Quem orientou o trabalho. O professor de Língua Portuguesa é quem descreve o projeto, mas em nenhum trecho o material afirma que a condução foi dele, e tampouco diz se outros docentes ou outras disciplinas entraram.
- Onde assistir. A publicação em redes sociais é afirmada, sem nome de perfil, sem plataforma e sem endereço.
- O calendário. Em quantas semanas ou meses a produção foi tocada, e qual a duração do vídeo pronto.
- Em que espaço ocorreu a apresentação do dia 29 de outubro, e diante de quem.
- A história do cinema: ano do incêndio, ano do fechamento, situação atual do prédio.
- Se a experiência se repete em outra turma ou em outro ano letivo.
Uma palavra sobre a procedência do relato: ele partiu da própria rede estadual, a respeito de uma escola que pertence a ela. Quem divulga e quem é divulgado estão, portanto, do mesmo lado do balcão. O texto não traz julgamento de fora, não ouve responsável por aluno e não registra voz que discorde — e silêncio crítico dentro de peça de divulgação não deve ser lido como aprovação geral.
Sair da sala de aula em Baixo Guandu, e cinema como matéria escolar
A ida ao prédio do Cine Alba não foi a primeira atividade fora da sala registrada com alunos do município naquele período: um mês antes, em outubro de 2024, estudantes de Baixo Guandu visitaram um laboratório de referência. São iniciativas distintas, sem relação declarada entre elas no material de nenhuma das duas.
Já a presença do audiovisual como material de trabalho escolar vinha ganhando espaço na rede estadual: em julho de 2024, quatro meses antes de esse vídeo ser apresentado, houve chamamento de escolas para um programa estadual de cinema. O texto sobre o Cine Alba não menciona esse programa e não afirma que a escola de Baixo Guandu participe dele — a aproximação aqui é de contexto, não de vínculo.
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