Imagem que acompanha a notícia sobre o projeto Mentoria do Bem, de mentoria profissional a estudantes do ensino médio

Mentoria do Bem: um encontro na escola e uma parceria sem papel

O projeto Mentoria do Bem começou com um único encontro, em uma única escola. Estudantes da 2ª e da 3ª série do ensino médio do Centro Estadual de Ensino Fundamental e Médio em Tempo Integral (CEEFMTI) Pastor Oliveira de Araújo, em Vila Velha, conversaram com profissionais que atuam em gestão, compliance, tecnologia e marketing na quarta-feira (04), em setembro de 2024. É esse encontro, e só ele, que já aconteceu: a chegada do projeto às demais escolas aparece na nota oficial em tempo futuro.

A iniciativa foi divulgada pela Secretaria da Educação (Sedu), que se apresenta em colaboração com o Movimento Empresarial Espírito Santo em Ação e em parceria com o Instituto UNIMED. A proposta declarada é levar adolescentes do último ciclo da educação básica para dentro do ambiente corporativo antes de decidirem que rumo profissional seguir.

Parceria não é contrato: o estágio real do projeto Mentoria do Bem

A palavra parceria carrega muita coisa em texto oficial e quase sempre esconde o essencial: qual documento sustenta o arranjo. A nota da Sedu não menciona contrato, convênio, termo de cooperação, acordo assinado, portaria nem publicação em diário oficial. Não há data de assinatura e não há prazo de vigência.

Também não há cifra alguma no material — nem valor pago pela rede estadual, nem aporte das empresas, nem estimativa do custo dos encontros. Sem instrumento e sem valor, o que está documentado é uma atividade realizada e uma intenção de continuar: a secretaria afirma que o projeto segue nos meses seguintes, em encontros presenciais ou pela internet, e que o arranjo passará a envolver as unidades certificadas como Escolas do Futuro em 2023 e parte das empresas que sustentam o movimento empresarial. Passará — verbo no futuro, no próprio texto oficial.

Quem é o parceiro privado da secretaria — e o que o material não conta

Aqui está a lacuna central desta notícia. O parceiro não é um órgão público, uma universidade nem uma fundação de pesquisa: pela descrição da própria nota, é um movimento empresarial, isto é, uma entidade privada sustentada por empresas mantenedoras. É o texto oficial que usa esse termo, ao anunciar quem participará das próximas etapas.

O que a nota não diz é justamente o que permitiria ao leitor avaliar o acordo: nenhuma empresa mantenedora é nomeada. Não se informa quantas são, quem dirige a entidade, como ela se financia, desde quando existe, nem que critério define quais mantenedoras entram nas escolas. Quando empresários passam a ocupar espaço dentro de salas de aula da rede pública, saber quem são não é curiosidade — é a informação que permite enxergar interesse, e ela não foi divulgada.

Há ainda um ponto que o material aproxima sem afirmar. O Instituto UNIMED aparece como parceiro do primeiro encontro, e o Espírito Santo em Ação aparece como colaborador do projeto. Em momento algum a nota diz que um é mantenedor do outro. Quem lê os dois nomes lado a lado pode fazer essa ligação sozinho, mas ela não está escrita no texto oficial.

O que cada lado entrega no Mentoria do Bem

Do lado privado, o que está descrito são horas de conversa com mão de obra qualificada: profissionais de quatro áreas atuando como mentores, em encontros que continuam nos meses seguintes, presenciais ou on-line. Uma dessas áreas merece tradução, porque o material usa o termo sem explicar: compliance é a frente que cuida do cumprimento das regras internas e da legislação dentro de uma empresa. As outras três são gestão, tecnologia e marketing.

Um detalhe do texto oficial fica solto. A nota chama os mentores apenas de profissionais da empresa, no singular, sem dizer de qual empresa se trata. O único parceiro nomeado no encontro é o Instituto UNIMED, mas essa atribuição não é feita de forma expressa em nenhum trecho.

Do lado público, a nota não descreve contrapartida alguma. O que se sabe é que a atividade ocorreu dentro da própria unidade de ensino, com estudantes da rede estadual — ou seja, a rede entra com espaço escolar e com acesso a adolescentes. Quanto tempo de aula o projeto ocupa, se há professor acompanhando as conversas, se a participação é obrigatória ou optativa e se as famílias autorizam a presença dos filhos são pontos que o material não trata.

Quantas escolas, quantos estudantes e quem faz a escolha

A escola de Vila Velha é uma das 15 que integram o Programa Escola do Futuro, informa a secretaria. Mas as próximas etapas foram anunciadas com outro recorte: as unidades certificadas em 2023. A nota não diz quantas são essas, não diz se coincidem com as 15 e não explica o que uma escola precisa cumprir para obter tal certificação.

Sobre estudantes, o material não traz um único número: nem quantos participaram do primeiro encontro, nem quantos devem ser alcançados até o fim. Tampouco informa quem escolhe as escolas, quem escolhe os estudantes dentro de cada turma e quem escolhe as empresas que enviarão mentores. E o próprio texto avisa que a lista de mantenedoras não fecha, ao falar em algumas delas — não em todas.

Existe avaliação de resultado? O material não diz

A nota promete desenvolvimento de pensamento crítico, criatividade, responsabilidade, iniciativa, cooperação e trabalho em equipe. Não há indicador, meta, relatório, pesquisa nem prazo de balanço que permita verificar se algo disso acontece — e não se prevê quem faria essa medição.

A rede estadual não é estranha a indicadores. Três semanas antes deste primeiro encontro, o ensino médio do Espírito Santo teve resultado divulgado no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Um projeto que se propõe a preparar estudantes do ensino médio poderia ser lido contra uma medida desse tipo; para isso, precisaria estar amarrado a alguma.

A avaliação vem da própria secretaria

A única voz do material é a de um assessor da secretaria, responsável pelo programa em que as escolas estão inscritas:

“A parceria cria a possibilidade de favorecer o desenvolvimento de domínios cognitivos, como o pensamento crítico e a criatividade, domínios intrapessoais, como a responsabilidade e a iniciativa, e domínios interpessoais, como cooperação e trabalho em equipe, que fazem parte dos objetivos do Programa.”

A avaliação é do assessor do Programa Escola do Futuro na Sedu, Allan Schroefer. O trecho seguinte da mesma declaração, que celebra a conexão com o mercado de trabalho e a preparação para desafios futuros, não acrescenta informação verificável e por isso não foi reproduzido aqui.

Um lado só: quem não foi ouvido

Este texto nasce de uma nota da própria secretaria sobre um acordo com o setor privado, e traz apenas a versão de quem o celebrou. Não há fala de professores da escola envolvida, nem da direção da unidade, nem de representação sindical da categoria, nem de estudantes, famílias ou conselho escolar. Também não há manifestação de quem faz oposição ao governo estadual.

Chama atenção que a própria entidade privada não fale: o movimento empresarial é citado como parceiro, mas ninguém em nome dele assina uma linha do material. Ausência de crítica em texto oficial não equivale a consenso — é apenas ausência, e ela precisa ser dita.

Vale ainda o registro do gênero do texto: é comunicação institucional, publicada em série. Dois dias depois desta nota, a mesma secretaria divulgou a visita de uma equipe de Minas Gerais para conhecer ações da Busca Ativa Escolar desenvolvidas no Espírito Santo.

O que a nota oficial não informa

  • Qual documento formaliza a parceria, quando foi assinado e por quanto tempo vale.
  • Qualquer valor envolvido — repasse, custeio, doação ou contrapartida.
  • Quais e quantas são as empresas mantenedoras do movimento empresarial, e quem dirige a entidade.
  • Quantos estudantes participaram do primeiro encontro e quantos serão alcançados.
  • Quantas escolas foram certificadas em 2023 e se são as mesmas 15 do programa.
  • Quem define as escolas, os estudantes e as empresas participantes.
  • Se há conteúdo previamente definido para as mentorias e quem o aprova.
  • Se existe avaliação de resultado, com qual indicador e feita por quem.
  • Se o projeto ocupa tempo de aula e se a participação é obrigatória.

Nada disso está no material divulgado, e nenhum desses pontos foi presumido aqui. Enquanto não vierem, o que existe é um encontro realizado em Vila Velha e uma parceria anunciada sem papel à vista.

Sobre Redação

Portal Direto Noticias - Imparcial, Transparente e Direto | https://diretonoticias.com.br | Notícias de Guarapari, ES e Brasil. Ative as notificações ao entrar e torne-se um seguidor. Caso prefira receber notícias por email, inscreva-se em nossa Newsletter, ou em nossas redes:

Veja Também

Imagem ilustrativa relacionada a Dia Mundial do Biquíni

Dia Mundial do Biquíni: a história da peça lançada em 1946

5 de julho é o Dia Mundial do Biquíni, que lembra o lançamento da peça por Louis Réard em Paris, em 1946.

Your Mastodon Instance
Share to...