Um perito criminal da Polícia Científica do Espírito Santo (PCIES), Victor Fonseca da Rocha, foi falar do próprio trabalho a estudantes dos cursos técnicos em Análises Clínicas e Administração da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Professor Pedro Simão, em Alegre. As duas turmas assistiram a uma palestra sobre perícia criminal numa sexta-feira, 04/10/2024, dentro de uma ação batizada de Circuito Jovem Perito Itinerante.
O encontro é de outubro de 2024, e o material oficial não informa nova edição — nem naquela escola, nem em outra unidade. Não há data, inscrição ou etapa seguinte a divulgar: a atividade começou e terminou naquela sexta-feira. O nome dado à ação, Transformando vidas por meio da Ciência, da Justiça e da Educação, é da própria organização escolar, e não uma frase dita por alguém no dia.
Assistir foi o verbo que o relato sustenta
O objetivo declarado no texto oficial era abrir uma discussão sobre o ofício do perito entre as turmas dos dois cursos técnicos e ajudar cada estudante a comparar os próprios interesses com uma profissão possível. Na descrição do que de fato aconteceu, porém, os alunos ocupam uma posição só: a de plateia. O convidado descreveu a própria rotina de trabalho, a professora que organizou a ação falou em seguida, e o material registra que o encontro serviu para tirar dúvidas.
Não há, no texto de origem, uma única linha sobre visita a laboratório, manuseio de equipamento, simulação, oficina ou qualquer tarefa executada pelos estudantes. A avaliação da professora aponta para vincular teoria à prática, e é uma leitura legítima de quem montou o encontro — só que a prática mencionada não é descrita em nenhum trecho. Entre o que a escola se propôs a fazer e o que o relato mostra existe essa distância, e ela precisa ser dita a quem lê.
A maior parte dos crimes investigados no Brasil só é esclarecida por meio da perícia criminal. O trabalho dos peritos fornece provas materiais sobre o crime e sua autoria, sendo indispensável para que a Justiça seja feita
Victor Fonseca da Rocha disse isso diante das duas turmas, ao explicar por que a ciência é usada para esclarecer crimes. Cabe um registro sobre o conteúdo da frase: a afirmação sobre a maior parte dos crimes vem sem número, sem período de referência e sem estudo citado no material — é a leitura do profissional que estava ali, não um dado apresentado aos alunos.
Itinerante está no nome, e o roteiro não está no texto
O nome da ação sugere um circuito que se desloca de um lugar para outro. O material não diz quem o conduz fora da escola, se ele passou por outras unidades de Alegre ou da região, quantas escolas já recebeu, quem custeia o deslocamento do perito nem se a Polícia Científica mantém alguma agenda regular de visitas a escolas. A ação aparece uma vez, num único endereço, e sai de cena.
Há também uma oscilação de nome que vale conhecer: no início do texto oficial a atividade é o Circuito Jovem Perito Itinerante; na fala da professora, ela vira apenas Circuito Jovem. É a mesma ação chamada de dois jeitos dentro do mesmo comunicado.
O Circuito Jovem, ao conectar os alunos com profissionais atuantes no mercado, não apenas ampliou a compreensão sobre o papel da Polícia Científica, mas também inspirou sonhos, mostrando que o futuro pode ser construído por meio da educação, da persistência e do conhecimento científico
Elissandra Tristão, professora da disciplina de Desenvolvimento de Talentos e Aspectos Comportamentais, falou logo depois do convidado, na condição de quem organizou o encontro. Repare que a frase menciona profissionais no plural: o material nomeia um, o perito que esteve na escola.
Três dias antes, outra turma de Análises Clínicas visitou um laboratório
Em 1º de outubro de 2024, três dias antes do encontro em Alegre, uma turma de curso técnico em Análises Clínicas de outra escola estadual percorreu um laboratório público de saúde e um museu de ciências — e ali também o que o material descreve é observação, não prática com equipamento. Turma diferente, escola diferente, município diferente e nenhuma ligação com o dia de Alegre.
Em setembro de 2024, outra escola estadual reuniu convidados de áreas distintas numa feira de profissões para conversar com seus alunos. E em agosto daquele ano a rede estadual já havia realizado a primeira feira regional de profissões e projeto de vida de uma de suas regionais de ensino, com escolas de vários municípios. Os dois casos são anteriores a este, com outros estudantes, e nenhum deles descreve o que ocorreu em Alegre — servem para mostrar que a conversa sobre carreira circulava em mais de uma escola da rede naquele semestre.
Uma palestra sobre perícia criminal sem endereço para o interessado
A lacuna mais cara neste tipo de texto é a de serviço. O encontro foi montado para aproximar os estudantes de uma profissão, e o material não diz uma palavra sobre como se entra nela. Ficaram de fora:
- Como alguém se torna perito criminal. Formação exigida, área de graduação, forma de ingresso e existência de concurso não aparecem. Quem saiu daquela sala interessado não encontra, no texto, o passo seguinte.
- Quantos estudantes participaram. Não há número de presentes, série nem turma. Os dois cursos técnicos são citados sem que se diga se as turmas assistiram juntas.
- Se houve alguma coisa além da fala. O relato descreve palestra e dúvidas esclarecidas, e não menciona demonstração, visita, equipamento levado à escola ou atividade posterior em sala.
- Quem está por trás do circuito. Não se informa qual órgão ou setor conduz a ação, com que frequência ela ocorre e como uma escola pode pedir para recebê-la.
- Se haverá outra edição. O material não afirma que a ação continua nem que se encerrou. Sobre o depois, ele apenas se cala.
- O que os alunos acharam. As duas vozes divulgadas são a do convidado e a de quem organizou. Nenhum estudante é ouvido, e o texto de origem tampouco traz o nome de qualquer um deles.
Um relato escrito por quem promoveu o encontro
O texto que deu origem a esta página é comunicação institucional da rede estadual de ensino: descreve a atividade pelo ponto de vista de quem a organizou e a avalia em termos positivos. As duas pessoas citadas respondem pela iniciativa como profissionais — o perito, pela função que exerce; a professora, pela disciplina que leciona e pela organização do dia —, e por isso aparecem nomeadas. Não há avaliação independente da atividade nem indicador de resultado: palestra realizada é atividade cumprida, não efeito medido. Se algum estudante mudou de rumo profissional depois daquela sexta-feira, nada no material permite afirmar.
Direto Notícias Imparcial, Transparente e Direto!

