Uma oficina de desenho com carvão e de pintura com tintas minerais ocupou estudantes do Ensino Fundamental do Centro Estadual de Ensino Fundamental e Médio em Tempo Integral (CEEFMTI) Pastor Oliveira de Araújo, em Vila Velha, numa terça-feira (08) de outubro de 2024. Foi uma atividade de um dia só, e ela aconteceu há quase dois anos — dela restou apenas o material de divulgação da rede estadual daquela semana, que detalha os objetivos da ação com mais cuidado do que descreve o que se passou na sala.
A oficina saiu de uma parceria da escola com o Projeto Letramento Científico, coordenado pelo professor José Paulo Nascimento, e com o Laboratório de Popularização da Ciência, projeto de extensão universitária da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Como responsáveis pela ação, o material nomeia os professores José Paulo Nascimento e Josy Pereira Silva. Nenhum artista, ilustrador ou oficineiro de fora aparece nomeado, e o texto oficial não diz quem, diante da turma, mostrou a técnica do carvão e o preparo das tintas.
Os verbos que a divulgação usa, e os que ela não usa
Sobre os estudantes, o material oficial registra uma única ação: ao final da oficina, eles foram capazes de identificar e explicar a origem e a composição dos materiais artísticos usados. Desenhar e pintar, os dois verbos que dão nome à atividade, aparecem no texto apenas no relato de quem participou — não na descrição do que a escola fez naquele dia. Também não há uma linha sobre o destino dos trabalhos: exposição, mural, painel, portfólio ou publicação não são mencionados nenhuma vez.
O restante do que a divulgação apresenta como conquista são rótulos de objetivo, não atos narrados: promover o letramento científico, incentivar a investigação dos processos de produção dos materiais, estimular a curiosidade científica e o pensamento crítico, desenvolver habilidades de observação, experimentação e análise. Nenhuma pergunta feita à turma, nenhum experimento e nenhum exercício chegam a ser descritos. E a relação com a química e a geologia vem numa lista aberta — o texto diz como a origem e a composição dos pigmentos minerais e os processos físicos do carvão, uma fórmula que dá exemplos e não fecha a enumeração.
Vale a distinção que o material oficial não faz: uma oficina realizada é atividade, não resultado. A afirmação de que os estudantes passaram a identificar e explicar a origem dos materiais não vem acompanhada de nenhum indicador — não há prova, registro, produção avaliada nem número de participantes que permita verificá-la.
Eu achei a oficina muito legal porque nunca tinha desenhado com carvão ou usado tintas feitas de materiais da natureza. Descobri que muita coisa que usamos vem da terra, e isso me fez pensar mais sobre a natureza. A atividade mostrou que a ciência está em todo lugar, não só nos livros
Um estudante do Ensino Fundamental resumiu assim a experiência, ao ser ouvido pela divulgação da rede estadual depois da oficina. É dele o único relato de primeira mão sobre o que aconteceu ali — e é também a única passagem do material em que alguém diz ter desenhado e ter usado as tintas.
Por que o nome do estudante não está nesta matéria
A divulgação da rede estadual publica o nome de quem deu o depoimento. Aqui ele sai, por decisão editorial: com a escola identificada e a etapa de ensino identificada, acrescentar o nome devolve endereço a um adolescente ou a uma criança, e a busca na internet guarda esse par por tempo indeterminado, sem que a pessoa possa desfazê-lo depois. A fala permanece inteira, palavra por palavra, e a atribuição passa a ser pela função que ele exercia ali. Já os professores e o coordenador do projeto seguem nomeados: respondem pela iniciativa como profissionais, no exercício de função pública.
O que o carvão e o pigmento mineral têm de química e de geologia
Carvão vegetal se obtém aquecendo madeira com pouco oxigênio até sobrar quase só carbono. Ele não risca o papel como uma caneta: deposita partículas soltas sobre a superfície, o que permite esfumar com o dedo e apagar quase tudo, e obriga a fixar o desenho no fim, sob pena de o traço se desfazer no manuseio.
Tinta mineral é outra coisa. Uma tinta tem sempre duas partes: o pigmento, um pó colorido que não se dissolve, e o aglutinante, o líquido que gruda esse pó no papel. Quando o pigmento é mineral, ele vem de rocha ou de solo moído, e a cor depende da composição química: compostos de ferro puxam para o ocre, o amarelo e o vermelho, e é por isso que a mesma terra rende cores diferentes conforme a região de onde foi tirada. Daí o encontro com a geologia, que estuda como esses materiais se formam no chão.
Fica explicado também o termo que a divulgação usa sem traduzir: um projeto de extensão universitária é a frente pela qual a universidade leva para fora do campus o que produz em aula e em pesquisa, geralmente com estudantes e professores atendendo escolas, comunidades ou serviços públicos. É essa frente, e não um convênio de rede, que aparece ligada à oficina.
Iniciativa da escola, e não um programa da rede
Nada no material indica coordenação central, verba própria, meta ou calendário comum a outras unidades. O que está descrito é uma ação da própria escola, apoiada por um projeto de extensão de uma universidade pública — e nada sugere que outras escolas do estado tenham repetido o formato naquele mês. Sobre uma nova edição, ali ou em outro lugar, o material simplesmente não diz nada: não promete continuidade nem descarta.
O tema, porém, reaparece no ensino capixaba. Em junho de 2025, oito meses depois, outra escola estadual de Vila Velha levou estudantes a pintar em aquarela as aves do entorno da unidade; era outra escola e outro projeto. E em outubro de 2025, um ano depois da oficina do carvão, uma escola do interior do Espírito Santo pôs estudantes a extrair cor de carvão e de pigmentos de origem vegetal para fabricar tinta — outra turma, outra cidade, outro projeto.
No mesmo mês de outubro de 2024, a rede estadual também levou uma turma de curso técnico a um museu de ciências e a um laboratório público de saúde, em outra iniciativa de aproximar estudantes da prática científica fora da sala de aula.
O que o material oficial não informa
- quantos estudantes participaram e de quais anos do Ensino Fundamental;
- quanto tempo durou a oficina, e se ocupou um turno ou uma aula;
- quais minerais viraram tinta, que cores saíram deles e de onde o material foi tirado;
- que fim levaram os desenhos — não há menção a exposição, mural, portfólio ou publicação;
- como se verificou que a turma passou a identificar e explicar a origem dos materiais;
- quem, entre os professores e a equipe do laboratório universitário, conduziu a prática;
- se houve ou haveria nova edição da oficina.
Direto Notícias Imparcial, Transparente e Direto!

