Urucum, açafrão, espinafre, carvão e terra saíram do quintal e da cozinha para virar tinta dentro do laboratório de uma escola pública de Afonso Cláudio, no Espírito Santo. Entre 29 de setembro e 07 de outubro, o Centro Estadual de Ensino Fundamental e Médio em Tempo Integral (CEEFMTI) Afonso Cláudio desenvolveu o projeto Cores que Contam Histórias – Pigmentos Naturais e Culturas Africanas, que reuniu as disciplinas de Química, Filosofia e Projeto de Vida em uma mesma atividade.
A condução foi das professoras Lucimar Ramos e Sandra Lima. Ao longo desses nove dias, os estudantes passaram por três etapas encadeadas: uma roda de conversa sobre identidade e diversidade cultural, uma oficina de Química para extrair os pigmentos e, por último, a pintura feita com as tintas que eles próprios produziram.
O que é um pigmento natural
Pigmento é a substância que dá cor a uma tinta. Ele é natural quando vem direto de uma planta, de um mineral ou de outro material encontrado na natureza, sem passar por fabricação industrial da cor. Sozinho, porém, o pigmento é apenas pó colorido: para virar tinta, precisa de um segundo componente, o aglutinante, que mantém as partículas em suspensão e faz a cor aderir à superfície. É essa combinação — matéria colorida mais material que a fixa — que separa um punhado de terra de uma tinta utilizável.
Cada material levado ao laboratório da escola responde por uma faixa de cor diferente. A semente do urucum concentra tons de vermelho e laranja e é o mesmo corante usado há muito tempo na culinária brasileira. O açafrão fica no campo do amarelo. O espinafre entrega o verde da clorofila, o mesmo composto que dá cor às folhas. O carvão produz o preto. E a terra varia entre amarelo, vermelho e marrom conforme a quantidade de óxido de ferro que carrega — é por isso que o barro muda de cor de uma região para outra.
Antes do tubo de tinta, a cor vinha do chão
A lista de materiais do projeto não é uma curiosidade escolar: é praticamente o inventário das tintas mais antigas de que se tem registro. As pinturas rupestres preservadas em paredes de caverna foram feitas com carvão e com terras ricas em óxido de ferro, os mesmos dois materiais que os estudantes manipularam em Afonso Cláudio. Povos africanos e indígenas construíram repertórios inteiros de pintura corporal e de objetos a partir de sementes, raízes, argilas e cinzas.
Durante quase toda a história da arte, obter uma cor foi um trabalho manual e caro: moer mineral, ferver planta, filtrar, misturar com óleo, resina ou água. Foi só a partir do século XIX que a indústria química passou a fabricar corantes sintéticos em larga escala, barateando a cor e afastando a sala de aula da origem dela. Projetos como o da escola capixaba fazem o caminho de volta.
Três etapas: conversa, laboratório e pintura
A primeira etapa foi uma roda de conversa sobre identidade, diversidade cultural e respeito às diferenças, com discussão sobre as simbologias presentes nas pinturas corporais africanas — o desenho no corpo como marca de grupo, de passagem e de história, não como enfeite.
Na segunda, veio a oficina de Química, em que os estudantes extraíram os pigmentos naturais de urucum, açafrão, espinafre, carvão e terra. É aí que entram os conteúdos formais da disciplina: misturas, reações químicas e sustentabilidade deixam de ser definição de apostila e passam a ter resultado visível na bancada.
Na terceira, as tintas produzidas foram usadas na pintura cultural, com imagens inspiradas nas culturas africanas. As produções finais foram expostas no próprio laboratório.
O que as professoras observaram
Sandra Lima relatou mudança na participação da turma:
Notei maior interesse dos alunos nas aulas de Ciências e Filosofia. Eles participaram ativamente das experiências e criaram produções com cores e texturas únicas, demonstrando criatividade e compreensão dos conteúdos científicos e culturais.
A observação é da professora Sandra Lima.
Lucimar Ramos apontou o efeito sobre a convivência e sobre o próprio espaço da escola:
O projeto estimulou o trabalho em equipe, o diálogo e a cooperação, fortalecendo o sentimento de pertencimento. Ver as produções expostas e valorizadas tornou o espaço do laboratório mais dinâmico, criativo e acolhedor.
A avaliação é da professora Lucimar Ramos.
Por que um projeto assim entra no currículo
O estudo de história e cultura afro-brasileira e indígena é obrigatório na educação básica brasileira por determinação legal, e não depende da boa vontade de cada escola. A questão prática que sobra para as equipes pedagógicas é como fazer isso sem transformar o tema em data comemorativa isolada — e a saída mais comum é justamente amarrá-lo a conteúdo de outras disciplinas, como ocorreu aqui.
O formato de tempo integral ajuda: com jornada ampliada, a escola tem horário para atividades que não cabem no tempo de uma aula comum, e o componente Projeto de Vida, voltado às escolhas de futuro do estudante, funciona como ponto de encontro entre as áreas. No caso do CEEFMTI Afonso Cláudio, o mesmo material serviu a três frentes ao mesmo tempo: cultura, conteúdo científico e produção artística.
A leitura de quem participou
Entre os estudantes, o registro foi o de ter descoberto que a cor tem origem:
Gostei muito de aprender sobre os pigmentos naturais, como o carvão, o açafrão e o urucum. Descobrimos que é possível fazer tintas com elementos da natureza, como faziam os povos africanos e indígenas. Foi uma mistura de ciência e arte, e de respeito à cultura e à natureza.
O relato é de uma estudante que participou do projeto.
Direto Notícias Imparcial, Transparente e Direto!

