Pesquisa do café capixaba: 8 projetos e repasse pendente

A pesquisa do café capixaba ganhou oito projetos aprovados em duas chamadas do Consórcio Pesquisa Café, que tem a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Café) na coordenação. Os oito pertencem ao Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) e somam R$ 3,4 milhões previstos. O que existe até aqui é aprovação, não dinheiro em caixa: pelo próprio material oficial, de outubro de 2024, o pagamento depende da assinatura de Instrumentos de Repasse com a Embrapa Café — assinatura que, na data do anúncio, ainda não tinha acontecido.

Aprovado na chamada, sem a assinatura que libera o valor

O anúncio oficial usa um verbo forte e diz que a aprovação garante os R$ 3,4 milhões. O último parágrafo do mesmo anúncio enfraquece o verbo: o dinheiro viria do Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé) e dependia, para sair, de um documento ainda não assinado — os Instrumentos de Repasse, a firmar entre o instituto e a Embrapa Café, com previsão de ocorrer ainda naquele ano. O material não fala em empenho nem em contrato assinado — fala em proposta selecionada e em um repasse a formalizar.

A distinção não é burocracia. Numa etapa, o financiador escolheu o que pretende bancar; na outra, o dinheiro passa a ter dono, prazo e prestação de contas. O texto divulgado registra a primeira e projeta a segunda para um futuro sem data. Não há, no material, dia de assinatura, cronograma de desembolso nem prazo de execução dos oito projetos — e ele tampouco volta depois para dizer se a formalização saiu.

De onde sai o dinheiro e quem o entrega

A origem declarada é o Funcafé, e os trabalhos correriam dentro do Programa Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento do Café. Quem assina o repasse do outro lado é a Embrapa Café, a mesma instituição que coordena o consórcio, lançou as duas chamadas e selecionou as propostas. A cadeia descrita é essa: o dinheiro é de um fundo do setor cafeeiro, passa pela coordenação nacional do consórcio e chega ao instituto estadual por um instrumento assinado entre as duas partes.

O que o material silencia sobre essa cadeia é grande. Ele não explica de onde vêm os recursos do Funcafé, quem decide a distribuição entre estados e instituições, nem se existe contrapartida estadual. E não informa quanto cabe a cada um dos oito projetos: a cifra de R$ 3,4 milhões aparece uma única vez no corpo do texto, sempre como total, nunca repartida. Dividir o valor por oito produziria um número que ninguém declarou — e cada projeto tem escopo, duração e equipe diferentes.

O que os R$ 3,4 milhões da pesquisa do café capixaba contam

Contam recurso previsto para trabalho científico, e nada além disso. Não são crédito rural, não são custeio de lavoura, não são repasse ao produtor. Nenhuma linha do anúncio menciona pagamento, desconto, insumo ou benefício direto a quem planta café.

Os outros números pedem a mesma leitura. Oito projetos aprovados não são oito projetos em andamento: a execução começaria depois da assinatura. E a lista de temas da segunda chamada é apresentada como exemplo, não como relação fechada — tolerância à seca, produtividade do conilon, variabilidade genética das espécies comerciais e mecanização em lavouras são os assuntos citados, e o texto deixa a porta aberta para outros. A fala do coordenador de cafeicultura do Incaper, Fabiano Tristão, também abre a lista em vez de fechá-la, ao apontar a mitigação de estresses abióticos — a seca é o exemplo que o próprio material dá — como um entre os temas tratados.

1.123 acessos em quatro fazendas: o que é um banco de germoplasma

A chamada Nº 21/2024 tratou da segurança dos bancos ativos de germoplasma de café do Brasil e foi dirigida às instituições do consórcio que mantêm esses bancos, os BAGs. O material os define como coleções de plantas que guardam material genético estratégico do café e permitem troca de tecnologia e pesquisa de melhoramento, para conservar e ampliar a diversidade genética dos cafés brasileiros.

São quatro as Fazendas Experimentais do instituto que abrigam bancos de café, e nelas estão 1.123 acessos, ou genótipos, já conservados, caracterizados e avaliados. Esses 1.123 não são variedades prontas para plantar: o próprio texto diz que estão disponibilizados para pesquisas. São material de trabalho de melhoramento, matéria-prima dos cruzamentos que podem, mais adiante, virar uma cultivar recomendada. Dos dois projetos aprovados nessa chamada, um tem como objetivo reestruturar e ampliar os bancos do instituto. O anúncio não informa em quais municípios ficam as quatro fazendas.

Isso contribuirá para a seleção e melhoramento de novas cultivares mais produtivas, resistentes a doenças e adaptadas às condições climáticas e de solo do Estado

A projeção é de Fabiano Tristão, coordenador de cafeicultura do Incaper, sobre o trabalho com o banco de germoplasma. Está em tempo futuro, e o material não estima quando esse resultado apareceria.

As duas chamadas e os oito projetos aprovados

A chamada Nº 22/2024, voltada a pesquisa, desenvolvimento e inovação na cafeicultura, selecionou seis propostas do instituto. Com as duas da chamada Nº 21/2024, chega-se aos oito projetos divulgados. Sobre o conteúdo delas, o coordenador de cafeicultura destaca a frente de avaliação de cultivares:

Também abarcam a avaliação agronômica e recomendação de novas cultivares de alto potencial produtivo e qualidade de bebida, fortalecendo o Espírito Santo como referência em qualidade e inovação no setor cafeeiro

A avaliação é de Fabiano Tristão. Esta é a relação divulgada pelo Incaper:

Chamada Embrapa/Consórcio Pesquisa Café Nº 21/2024 – Segurança dos Bancos Ativos de Germoplasma de café do Brasil

  • Estratégias para Conservação e Uso dos Bancos de Germoplasma de Coffea spp. na Embrapa. Proponente: Rodrigo Barros Rocha
  • Reestruturação, ampliação e caracterização do banco de genes de Coffea spp. do Incaper. Proponente: João Felipe de Brites Senra

Chamada Embrapa/Consórcio Pesquisa Café Nº 22/2024 – Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação na Cafeicultura

  • Estratégias para mitigação de estresses abióticos e melhoria da produtividade de Coffea canephora no Espírito Santo. Proponente: Sara Dousseau Arantes
  • Avaliação agronômica de clones de Coffea canephora visando à recomendação de uma nova cultivar, tolerante à seca e com alto potencial produtivo e qualidade de bebida, para o Estado do Espírito Santo. Proponente: Sheila Cristina Prucoli Posse
  • Ampliar a variabilidade genética nos programas de melhoramento das principais espécies comerciais de café com foco nas diferentes regiões produtoras do Brasil. Proponente: Marcone Comério
  • Tecnologias para intensificação da mecanização em lavouras de Coffea canephora em distintas condições de relevo. Proponente: Abraão Carlos Verdin Filho
  • Desempenho agronômico e respostas de clones híbridos (Conilon × Robusta) a agentes bióticos em diferentes ambientes do Bioma Mata Atlântica. Proponente: Marcelo Curitiba Espíndula
  • Avaliação de clones elite de Coffea canephora na região Sudeste e Nordeste do Brasil. Proponente: Alexsandro Lara Teixeira

Um detalhe da própria lista pede atenção de quem lê. Ela é apresentada como a relação de projetos aprovados pelo Incaper, mas o primeiro item situa a conservação e o uso dos bancos de germoplasma na Embrapa, e três dos oito descrevem alcance nacional ou de outras regiões produtoras. O material não informa a instituição de origem de cada proponente, o que impede saber quanto do dinheiro fica com equipes do instituto capixaba.

O que muda para quem tem lavoura, e o que ainda não muda

Nada, por enquanto, do lado do produtor. As duas chamadas foram dirigidas a instituições de pesquisa integrantes do consórcio, não a cafeicultores: não há inscrição, cadastro, prazo ou edital aberto a quem planta. O anúncio trata de financiamento de pesquisa, e o caminho até a lavoura passa por etapas que ele não descreve.

Extensão rural é parte do nome do instituto e do serviço que ele presta, mas o texto divulgado não diz por qual canal, escritório local ou programa as tecnologias chegariam ao campo, nem em que prazo uma cultivar avaliada nesses projetos poderia ser recomendada para plantio. Também não há telefone, endereço eletrônico ou página de acompanhamento das propostas. Para o cafeicultor que lê a notícia hoje, o valor da informação é de contexto — quais linhas de pesquisa o setor decidiu bancar — e não de serviço imediato.

Quem anuncia o avanço é quem seria avaliado por ele

O documento que originou esta notícia é do próprio instituto que teve os projetos aprovados, distribuído pelo Governo do Espírito Santo. Isso não desqualifica o conteúdo, mas define o alcance dele. Antonio Elias Souza da Silva, que dirige o Incaper, tratou a aprovação como avanço estratégico da instituição e como marco de sustentabilidade para o café capixaba, e disse que as propostas seguem o Planejamento Estratégico da Agricultura Capixaba, o Pedeag 4 — plano que o material cita sem explicar o que é. As duas avaliações publicadas, a do diretor-geral e a do coordenador, vêm da mesma casa.

Não há no material um cafeicultor, uma cooperativa, uma entidade do setor ou um pesquisador de fora comentando as escolhas. Também não aparece indicador de resultado: nenhuma cultivar entregue, nenhum ganho de produtividade medido, nenhum balanço de ciclos anteriores de pesquisa financiados pelo mesmo fundo. Todos os efeitos citados estão no tempo futuro. É o padrão do gênero, e quem lê precisa saber disso ao pesar o anúncio — quem eventualmente discordaria não foi chamado a falar.

Lacunas do material oficial

  • quanto vai para cada um dos oito projetos e por quanto tempo cada um dura;
  • a data em que os Instrumentos de Repasse seriam assinados, e se chegaram a ser;
  • a instituição a que pertence cada proponente da lista;
  • em que municípios estão as quatro Fazendas Experimentais com bancos de germoplasma;
  • a origem dos recursos do Funcafé e quem define a divisão entre instituições;
  • quando e por qual caminho as tecnologias chegariam à lavoura;
  • o que os ciclos anteriores de pesquisa em café entregaram ao produtor capixaba;
  • a relação entre conilon, Coffea canephora e Robusta, termos que o texto usa lado a lado sem definir.

Vale entender o pano de fundo dessas escolhas de pesquisa no retrato que o Estado já havia apresentado sobre a força da cafeicultura sustentável capixaba, em agosto de 2024, dois meses antes destas aprovações.

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