Novos voos para o Espírito Santo ainda não têm rota nem data — Direto Notícias

Novos voos para o Espírito Santo ainda não têm rota nem data

A Secretaria do Turismo (Setur) recebeu na quinta-feira (31) executivos da concessionária que administra o Aeroporto de Vitória para tratar de um objetivo antigo do setor capixaba: colocar mais aviões e mais visitantes dentro do Espírito Santo. Do encontro saíram uma apresentação, um diagnóstico e o compromisso de montar um grupo de trabalho. Não saiu nenhum voo novo, nenhuma rota, nenhuma companhia aérea e nenhuma data. Quem procura por novos voos para o Espírito Santo não encontra, no material divulgado pela Setur, uma única ligação aérea confirmada.

O que aconteceu na reunião — e o que não aconteceu

O que existe, até aqui, é uma conversa entre poder público e iniciativa privada em torno de um plano de longo prazo para o turismo do Estado. A Setur foi representada pelo secretário de Estado do Turismo, Philipe Lemos, por subsecretários e por gerentes da pasta. O Sebrae mandou um representante. A empresa privada na mesa é a Zurich Airport Brasil, administradora do Aeroporto de Vitória.

A distinção importa porque o vocabulário do anúncio sugere mais do que o texto sustenta. Reunião não é contrato. O material não menciona documento assinado, termo de cooperação, memorando ou qualquer instrumento formal firmado no encontro. O verbo que a própria Setur usa para o grupo de trabalho está no futuro: ele será formado — ou seja, na data da divulgação ainda não existia.

Novos voos para o Espírito Santo: o que segue em aberto

A ampliação da malha aérea aparece no material como intenção declarada, e apenas isso. Nenhum dos elementos que transformam intenção em passagem à venda foi informado:

  • qual rota seria criada, e ligando o Aeroporto de Vitória a que cidade;
  • qual empresa aérea operaria o trecho;
  • quantos voos existem hoje e quantos se pretende ter;
  • a partir de quando;
  • quanto custa e quem paga.

Nada disso é detalhe menor. Rota aérea nova depende de decisão comercial de companhia aérea, de disponibilidade de aeronave e de demanda comprovada — e esse conjunto de decisões não é anunciado por secretaria de turismo. Enquanto não houver operadora e data, o que existe é planejamento.

A prospecção que mostrou interesse em quatro regiões

A concessionária levou à mesa o resultado de um levantamento feito junto a operadores de turismo — as empresas que montam e revendem pacotes. Segundo a Setur, o levantamento apontou apetite comercial por quatro recortes do território capixaba: as Montanhas Capixabas, a Região Metropolitana, a Região dos Imigrantes e o Caparaó.

O material não diz quantos operadores foram consultados, quando a consulta ocorreu, de onde são essas empresas nem como o interesse foi medido. Sem essas informações, o resultado não pode ser lido como pesquisa de mercado com metodologia conhecida; é o que a empresa apresentou ao Estado naquela reunião.

O alvo declarado é fazer com que esses destinos apareçam nos canais de venda e dentro de pacotes fechados. Na prática, é a diferença entre um lugar bonito e um lugar que alguém consegue comprar: sem estar na prateleira da agência ou do site de viagem, o destino depende do visitante que já o conhece.

23 segmentos e 12 receptivos: os números e o que eles não dizem

O Sebrae chegou ao encontro com um diagnóstico sobre a oferta turística capixaba. Dele saíram dois números, que ficam registrados exatamente como a Setur os divulgou: 23 segmentos e 12 receptivos considerados prontos para comercialização imediata.

Vale traduzir o termo. Receptivo, no jargão do turismo, é a operação que atende o visitante já no destino: transporte a partir do aeroporto, guia, passeio, roteiro montado localmente. É a peça que falta quando um lugar tem atrativo mas não tem quem organize a visita.

Um alerta de leitura: o material não lista nominalmente nenhum dos 23 segmentos nem nenhum dos 12 receptivos. Também não informa quem os avaliou, sob qual critério, nem o que significa estar pronto para comercialização imediata. Os números foram divulgados sem a lista que os sustenta.

Os quatro atrativos que a Setur colocou na frente

O texto oficial destaca quatro experiências como prioritárias:

  • a Rota do Lagarto, em Pedra Azul;
  • a observação de baleias, em Vitória;
  • o Pico da Bandeira, no Caparaó;
  • o Grande Buda de Ibiraçu.

Aqui também é preciso separar o que foi dito do que se pode deduzir: a divulgação não afirma que esses quatro estejam entre os 12 receptivos citados pelo Sebrae, nem explica por que foram escolhidos entre os demais atrativos do Estado. São, no material, atrativos priorizados — sem critério publicado.

O grupo de trabalho ainda será montado

A continuidade prometida tem forma definida no papel e nenhuma no calendário. Setur, concessionária e Sebrae devem constituir um Grupo de Trabalho com duas atribuições: procurar novas fontes de financiamento e estruturar a promoção dos atrativos capixabas.

Não há prazo para a instalação desse grupo, nem número de integrantes, nem indicação de quem o coordena, nem periodicidade de reunião. Sobre o financiamento, a divulgação não identifica quais seriam as fontes buscadas, se envolvem dinheiro público, privado ou os dois, nem qualquer valor.

A avaliação do secretário

Essa parceria entre a Setur, a Zurich e o Sebrae é essencial para ampliarmos a visibilidade do Espírito Santo como um destino de referência. O turismo é uma importante fonte de desenvolvimento e estamos comprometidos em criar experiências únicas para os nossos visitantes. Queremos que o Espírito Santo esteja entre as principais escolhas de destinos no Brasil

A declaração é do secretário de Estado do Turismo, Philipe Lemos, e foi a única fala divulgada no material.

Um lado só da mesa aparece no texto

Como é comum em divulgação oficial, o material traz apenas a versão de quem convocou o encontro. Não há manifestação de nenhuma empresa aérea, de operadores de turismo consultados no levantamento, de representantes do setor hoteleiro das quatro regiões citadas ou de gestores dos municípios onde estão os atrativos priorizados. A ausência de contraponto no texto não significa que não exista divergência — significa que ela não foi ouvida ali.

O que ainda falta ser informado

Reunidas, estas são as lacunas que impedem o leitor de saber o que muda na prática:

  • rota, companhia aérea, frequência e data de qualquer voo novo;
  • meta numérica de crescimento de voos ou de passageiros;
  • a lista dos 23 segmentos e dos 12 receptivos;
  • quantos operadores participaram da prospecção e quando ela foi feita;
  • data de instalação, composição e coordenação do Grupo de Trabalho;
  • as fontes de financiamento cogitadas e qualquer valor envolvido;
  • se algum documento foi assinado no encontro;
  • canal para que empresários de turismo interessados procurem a Setur ou o Sebrae.

Até que essas respostas venham, o balanço honesto é este: o Espírito Santo ganhou um plano de trabalho, não uma passagem aérea nova. É informação relevante para quem vive de turismo no Estado e acompanha as decisões que antecedem a chegada de voos — mas não é, ainda, algo que o viajante consiga comprar.

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