Imagem que ilustra reportagem sobre a Operação Cosud, de reforço de policiamento no Espírito Santo

Operação Cosud: mais de 4 mil agentes no ES até 17 de novembro

A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp) deflagrou na quarta-feira (13) a segunda edição da Operação Cosud, um reforço de policiamento montado em conjunto com forças de segurança de outros estados do Sul e do Sudeste. No Espírito Santo, quatro corporações entraram no esforço, somando, segundo o comunicado oficial, mais de quatro mil agentes de segurança. A ação nasceu com data marcada para acabar: 17 de novembro.

O material oficial que deu origem a esta publicação é do dia da deflagração: ele descreve o que estava programado, e não o que foi feito. Não há nele uma prisão contabilizada, um mandado cumprido, um veículo recuperado nem qualquer apreensão — os verbos estão no futuro, e a própria Sesp avisa que os resultados seriam divulgados apenas ao término. O balanço prometido não integra este material.

Mais de quatro mil agentes mede efetivo empregado, não efeito obtido

Esse é o único número de escala do comunicado, e o que ele conta é gente colocada em serviço. Não conta crime evitado, pessoa presa, arma recolhida ou ordem judicial cumprida. São grandezas de naturezas diferentes: uma descreve quanto se investiu de pessoal na operação; a outra, que o texto oficial não traz, descreveria o que a operação produziu.

A forma exata da frase também importa. O comunicado escreve mais quatro mil agentes — expressão que marca um mínimo e deixa o teto em aberto. O total exato de pessoas empregadas não aparece em nenhum ponto, e não há como transformar esse mínimo em número fechado sem fazer conta que a Sesp não fez.

Há ainda três dúvidas de unidade que o texto não resolve. Primeira: o comunicado não diz se os mais de quatro mil correspondem ao efetivo de cada dia ou ao conjunto dos dias de operação — e a diferença entre as duas leituras é enorme. Segunda: não há distribuição por corporação, de modo que não se sabe quanto cada uma das quatro colocou em campo. Terceira: o número é só do Espírito Santo; para os demais estados envolvidos, o texto não informa efetivo nenhum, nem apresenta um total da operação inteira.

A Operação Cosud herdou o nome de um consórcio de estados

A sigla não é a de uma força-tarefa nem a de um programa policial. Segundo a Sesp, a operação é coordenada no âmbito do Consórcio de Integração Sul e Sudeste (Cosud), e os estados que a nota lista como integrantes são Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Ou seja: a operação é interestadual, não uma iniciativa capixaba isolada, e leva o nome do arranjo político que a coordena.

É a segunda edição — informação que o comunicado registra de passagem e que traz consigo uma lacuna grande: o texto não diz quando ocorreu a primeira, quanto tempo ela durou, quantos agentes empregou nem que resultado alcançou. Sem esse ponto de comparação, o leitor não tem como avaliar se a mobilização anunciada agora é maior, menor ou igual à anterior.

O que estava programado para acontecer nas ruas

O planejamento da Operação Cosud previa reforço de policiamento ostensivo, aquele que atua à vista de todos, com prioridade declarada para as divisas estaduais. Durante os dias de operação, informa a Sesp, as polícias atuariam de forma coordenada, compartilhando recursos, conhecimento técnico e informações, com pontos de bloqueio, abordagens, averiguação de suspeitos e cumprimento de mandados de prisão e de busca e apreensão.

A relação termina em entre outros, e essa expressão avisa que a lista está aberta: o comunicado apresenta exemplos do que estava previsto, não o catálogo completo das atividades.

Vale separar o que cada um desses procedimentos significa, porque costumam ser lidos como se fossem a mesma coisa:

  • Ponto de bloqueio e abordagem são procedimentos de checagem em via pública. Ser abordado não é ser acusado de nada, e não gera registro de crime por si só.
  • Averiguação de suspeitos é a verificação da situação de uma pessoa perante os sistemas policiais. Também não é prisão, e pode terminar sem providência alguma.
  • Mandado de prisão é ordem expedida por um juízo antes da operação. A força policial que o cumpre executa decisão tomada em outro lugar; não é ela que decide prender.
  • Mandado de busca e apreensão é ordem sobre coisas e lugares: autoriza entrar e recolher objetos. Ele não autoriza, por si mesmo, prender ninguém.

O que o comunicado deixa de fora é justamente o que serviria a quem circula pelo Estado naqueles dias: não diz em quais divisas, em quais rodovias, em quais municípios ou em que horários os bloqueios seriam montados. Quem precisasse viajar não tinha, pelo texto oficial, como se planejar.

A avaliação do secretário e o que ela apresenta

Ao anunciar a operação, o secretário defendeu que a atuação coordenada entre estados é resposta à circulação de grupos criminosos pelas divisas:

“Uma realidade que não podemos ignorar é que as organizações criminosas se espalham pelos estados e isso é resultado da combinação de diversos fatores. Atuar de forma conjunta e coordenada permite que os estados construam uma polícia eficaz de combate à criminalidade”

A declaração é de Leonardo Damasceno, secretário de Estado da Segurança Pública e Defesa Social. Ela apresenta um diagnóstico e um método, e é assim que deve ser lida: nenhum indicador acompanha a afirmação — o comunicado não traz série histórica, comparação entre anos, dado de criminalidade nas divisas nem resultado da edição anterior que permitisse medir a eficácia mencionada.

De quem é a operação, no Espírito Santo

Quatro corporações são nomeadas na parte capixaba da Operação Cosud: Polícia Militar do Espírito Santo (PMES), Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), Polícia Penal do Espírito Santo (PPES) e Polícia Rodoviária Federal (PRF). Todas são instituições públicas — três trazem no nome o vínculo com o Estado e uma é federal. Não há, na composição descrita, nenhuma entidade privada.

Quem assina o comunicado é a Sesp, e a coordenação, pelo próprio texto, está no nível do consórcio de estados. O material não informa quem comanda a operação em campo no Espírito Santo, nem como as quatro corporações dividem entre si as áreas e as tarefas.

A aproximação entre polícias de unidades diferentes da federação também acontece fora de operações. Em maio de 2025, meses depois desta edição da Cosud, o Espírito Santo recebeu policiais civis de todo o País para um curso básico de investigação de homicídios — episódio posterior a este e de outra natureza, de formação e não de policiamento.

E arranjos que organizam a segurança capixaba a partir de fora do Estado não começaram aqui: em 2023, o MJSP divulgou a lista dos municípios prioritários do Pronasci no Espírito Santo, iniciativa anterior a esta e de origem federal, com desenho e objetivos próprios.

Perguntas que o comunicado de lançamento deixou sem responder

  • Se os mais de quatro mil agentes correspondem ao efetivo diário ou ao somatório dos dias.
  • Quantos agentes cada uma das quatro corporações empregou.
  • Qual o efetivo dos demais estados e qual o total da operação entre os integrantes do consórcio.
  • Em quais divisas, rodovias e municípios os pontos de bloqueio seriam montados.
  • Quando ocorreu a primeira edição da Operação Cosud e o que ela alcançou.
  • Qual o custo da mobilização e quem o financia.
  • Se houve algum canal para o cidadão consultar pontos de bloqueio ou desvios.
  • Quais critérios orientariam abordagens e averiguações.
  • O balanço final, que a Sesp anunciou para o encerramento e que não acompanha este comunicado.

Uma ressalva de método fecha a leitura: tudo o que está acima vem de um comunicado do órgão que executa a própria operação. É a versão de quem age, divulgada antes de qualquer resultado — e um texto sem contestação registrada não é o mesmo que um texto confirmado por terceiros.

Como informar a polícia e quando ligar para o 190

Entre as atividades previstas estava o cumprimento de mandados de prisão, ou seja, a localização de pessoas procuradas pela Justiça. Informação sobre o paradeiro dessas pessoas é exatamente o tipo de relato que o 181, o Disque-Denúncia, recebe sem identificar quem liga. Quando o problema está acontecendo naquele instante e alguém corre risco, o número muda: é o 190. O comunicado da Sesp não divulgou telefone, aplicativo ou endereço eletrônico específico da operação.

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