Horta em unidade prisional de Cachoeiro é sala de aula da EJA

Uma horta em unidade prisional de Cachoeiro de Itapemirim funciona como sala de aula para estudantes adultos matriculados na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Numa quarta-feira (13), a turma assistiu a uma palestra sobre o ciclo das plantas e depois foi ao canteiro pôr a mão na terra, dentro do projeto de educação ambiental Cultivando o Conhecimento: Horta Solidária no Sistema Prisional como Ferramenta Pedagógica para trabalhar a Educação Ambiental.

A atividade já aconteceu e o projeto estava em curso quando foi divulgado, em 16 de novembro de 2024. A nota da Sedu não nomeia o mês do encontro e descreve um dia de aula dentro de um ciclo que ia até o fim do ano letivo de 2024 — não um balanço, nem um resultado final. Também não há informação sobre a continuidade do projeto depois daquele ano.

Como é a aula numa horta em unidade prisional

O encontro teve duas partes. A primeira, expositiva, tratou de como uma planta se desenvolve, de cultivo com menos desperdício e de alimentação. A segunda levou a turma ao canteiro que existe dentro da unidade, para aplicar na prática o que tinha sido explicado. Segundo o material, o que se trabalha ali inclui:

  • preparo e cuidado do solo;
  • planejamento do que plantar e em que ordem;
  • acompanhamento das plantas até o fim do ciclo.

A avaliação pedagógica que a nota traz é da pedagoga Rayana Rigo:

Essa vivência prática fortaleceu o aprendizado ao possibilitar uma conexão direta com a terra e a natureza, ensinando a importância de cada etapa de crescimento e de práticas de cultivo conscientes

A escola é da rede estadual, e não uma estrutura à parte

Os estudantes têm como escola de referência a Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Professora Inah Werneck, também em Cachoeiro de Itapemirim. Isso é mais relevante do que parece: a matrícula está numa escola comum da rede, que leva professores e projetos até onde o estudante está. Estudar em privação de liberdade não é prêmio nem etapa de mérito — é a escola cumprindo a mesma função que cumpre fora dos muros.

Não é a primeira ação dessa escola na unidade. Em agosto de 2024, três meses antes, a mesma instituição tinha levado jogos educativos e brincadeiras à unidade prisional de Cachoeiro de Itapemirim, em episódio distinto deste e sem relação declarada com a horta.

Um registro necessário sobre a unidade: a nota oficial situa a atividade no Centro de Detenção Provisória de Cachoeiro de Itapemirim, enquanto versões publicadas a partir dela apontaram a Penitenciária Regional de Cachoeiro de Itapemirim. São nomes de unidades diferentes. Esta matéria adota o que consta da nota oficial e mantém o registro da divergência, em vez de escolher em silêncio.

Por que nenhum estudante é identificado aqui

Nenhum estudante aparece nesta matéria com nome, iniciais, idade, turma ou qualquer detalhe que permita reconhecê-lo. Também não se descreve o motivo pelo qual cada um está na unidade, nem a situação de cada caso. Não é falha de apuração: é escolha editorial. O fato de interesse público é que existe escola funcionando ali; o resto não acrescenta serviço a ninguém e expõe pessoas por tempo indeterminado, já que texto na internet não vence.

Vale o mesmo cuidado com a palavra. A nota chama os estudantes de internos, rótulo que vem da unidade e não da pessoa. Aqui eles são estudantes, ou pessoas privadas de liberdade. O termo aparece nas falas reproduzidas porque citação vai literal, sem edição por dentro.

O próprio nome da unidade citada na nota indica custódia provisória, ou seja, pessoas detidas antes de uma decisão definitiva sobre o caso. A nota não detalha a situação processual de nenhum estudante — e esta matéria também não.

O que a nota afirma sobre trabalho, e o que ela não sustenta

O material associa o projeto a mais chances no mercado de trabalho, sobretudo no setor agrícola, e ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais e éticas. É afirmação da administração que promove a iniciativa, apresentada sem acompanhamento: não há dado sobre quantos estudantes concluíram etapas, nem sobre o que acontece com eles depois. A segunda fala da pedagoga vai na mesma direção:

O projeto vai além da atividade de plantio, integrando teoria e prática e proporcionando uma experiência única para os internos. Eles não só aprendem técnicas agrícolas, mas também desenvolvem habilidades, como paciência, responsabilidade e trabalho em equipe

A avaliação é da pedagoga Rayana Rigo, única voz ouvida no material. Não há fala de estudante, de professor da turma nem de quem administra a unidade — e ausência de crítica num comunicado oficial não é sinal de consenso.

Meses depois, já em junho de 2025, o mesmo público voltou ao noticiário do município: estudantes de Cachoeiro de Itapemirim em privação de liberdade discutiram profissões e racismo num círculo de cultura. É atividade posterior e independente desta, citada aqui porque continua o mesmo assunto: o que a escola oferece a quem estuda dentro de uma unidade.

O que a nota oficial não informa

Boa parte do que permitiria avaliar a horta em unidade prisional como política de ensino, e não como episódio isolado, ficou de fora do material:

  • Quantos estudantes participam do projeto, e quantas turmas da EJA estão envolvidas.
  • O que é feito com o que se colhe — se abastece a própria unidade, se é doado ou se tem outro destino.
  • Se as horas na horta entram na carga horária escolar e se existe qualquer contrapartida pela atividade.
  • Quem cuida da horta fora das aulas, e quem fornece sementes, mudas e ferramentas.
  • Quem dá as aulas práticas: a nota traz apenas a fala da pedagoga, sem nomear o professor responsável pela turma.
  • Como os resultados foram medidos, já que o texto afirma ganhos de aprendizagem e de comportamento sem apresentar avaliação.
  • A data completa do encontro, identificado apenas como uma quarta-feira (13).

Quem procura informação sobre a oferta de ensino da rede estadual em Cachoeiro de Itapemirim tem como porta de entrada a própria escola de referência. A nota não divulga telefone, e-mail nem endereço de atendimento ao público para tratar do projeto, e não indica a quem o cidadão deve se dirigir.

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