EJA na APAC de Cachoeiro tratou de profissões e racismo

A EJA na APAC de Cachoeiro de Itapemirim levou uma turma a um Círculo de Cultura sobre profissões e desigualdade racial. São estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) atendidos numa Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC), todos matriculados no Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos (CEEJA) do município. O encontro foi conduzido pela professora de Língua Portuguesa Rosangela Andrade Dias Ramos, e o tema anunciado foi Profissões e Desigualdade Racial: Vamos falar sobre isso?. O material oficial apresenta a atividade como inspirada no método dialógico de Paulo Freire.

A divulgação é de 4 de junho de 2025 e o texto não diz em que dia a atividade aconteceu. Mais de um ano depois, o que se lê é o registro de um encontro isolado: não há informação sobre repetição, sobre continuidade no calendário da turma ou sobre qualquer desdobramento posterior. Essa turma aparece no material uma única vez, sem antes e sem depois.

Um Círculo de Cultura pressupõe fala; o relato descreve escuta

Vale separar os verbos do texto oficial, porque eles não distribuem a ação por igual. A professora conduziu. Profissionais convidados de diferentes áreas relataram trajetórias e estratégias de superação. Aos estudantes o texto atribui dois verbos: participaram e compartilharam vivências e expectativas. Depois disso, o material fala em escuta ativa e em ampliação de perspectivas.

O que sobra é assimétrico. Do que os convidados contaram, o texto dá a natureza: histórias de superação profissional. Do que os estudantes compartilharam, não há um único exemplo — nem um tema levantado por eles, nem uma pergunta, nem um assunto que tenha saído da turma. O único ato descrito com conteúdo pertence a quem veio de fora.

Isso importa por causa do nome escolhido para a atividade. O próprio texto invoca o método dialógico de Paulo Freire, e um Círculo de Cultura, nessa tradição, se define pelo que os participantes dizem e produzem, não pelo que ouvem. O material não descreve o método que invoca: não diz como o círculo foi organizado, quem falou em que ordem, se os temas partiram dos estudantes ou se já vinham prontos. Palavras como conscientização crítica, diálogo reflexivo e protagonismo aparecem como rótulo do encontro; nenhuma delas vem acompanhada de um ato praticado por um estudante. A distância entre o método anunciado e a cena narrada fica registrada aqui, sem que este texto afirme qual das duas descreve melhor o que houve.

O tema era desigualdade racial, e ninguém aparece descrito por cor

A atividade tratou de desigualdade racial no mercado de trabalho. O material fala em barreiras estruturais à inserção social e econômica da população negra e em desafios enfrentados por diferentes grupos étnicos. Em nenhum momento, porém, ele descreve a cor ou a origem de qualquer pessoa que estava na sala.

Os convidados são identificados apenas por serem de diferentes áreas, critério de profissão e não de origem. Nenhum é nomeado, e o texto não informa quantos eram. Sobre a composição da turma, também nada. Um encontro sobre o lugar da população negra no mercado de trabalho pode ter tido aí pessoas falando da própria experiência, e o material não permite afirmar nem descartar isso. Vale registrar a lacuna do jeito que ela é, sem transformá-la em juízo sobre a atividade.

O município já tinha sido cenário de uma iniciativa da rede estadual voltada a escolha profissional: em agosto de 2024, quase um ano antes, foi realizada a primeira feira regional de profissões e projeto de vida de Cachoeiro de Itapemirim, episódio anterior a este, com outro público e em escolas comuns da rede.

As siglas estão no texto; o arranjo entre elas, não

O material escreve as duas siglas por extenso e para por aí. Ele não explica o que é uma APAC, quem a mantém, que tipo de estabelecimento é, quantas pessoas atende, nem como uma escola estadual passou a ter turma dentro dela. Sem isso, o leitor não tem como situar o que leu — e este texto não vai preencher a lacuna com explicação que a fonte não deu.

Sobre quem são os estudantes, o texto oficial é econômico, e convém não ir além dele. O material não informa a idade de ninguém. O que ele diz é que são estudantes da EJA, privados de liberdade, atendidos por uma associação cujo nome, escrito por extenso no próprio texto, se refere a condenados. Não há ali um único indício de adolescente, de apreensão ou de medida socioeducativa: são pessoas adultas frequentando escola, e é assim que esta matéria as trata, nem como caso de recuperação nem como exemplo de coisa alguma.

Não é a primeira vez que a escolarização de pessoas privadas de liberdade em Cachoeiro de Itapemirim aparece no noticiário do município. Em novembro de 2024, sete meses antes, uma horta virou sala de aula da EJA numa unidade prisional da cidade — episódio anterior a este, noutro tipo de estabelecimento e com outra escola de referência; nenhum material liga um caso ao outro.

A EJA na APAC tem matrícula e etapa; o resto o texto não descreve

Esta é a pergunta que decide o valor da notícia, e a que o material quase responde. Existem dois indicadores de que se trata de escolarização regular, e os dois vêm do próprio texto: os estudantes estão matriculados num centro estadual de EJA, e um dos participantes é identificado pela etapa em que está, o 6º ano do segundo segmento do Ensino Fundamental, nomenclatura corrente da modalidade. Matrícula e etapa não são detalhe: são o que separa ensino de ocupação do tempo.

Daí para frente, o texto silencia. Ele não informa a carga horária das aulas, não diz se as horas do Círculo de Cultura entram nessa carga, não menciona certificação ao fim da etapa e não trata da hipótese mais concreta para quem estuda ali: se e como o estudo prossegue depois do cumprimento da pena. Também não há indicador nenhum de resultado — quantos concluíram etapa, quantos foram aprovados, quantos seguiram matriculados no ano seguinte. Atividade realizada é atividade realizada; não é resultado, e o material não apresenta um.

Para dimensionar, dois registros de calendário ajudam sem substituir a informação que falta. Em fevereiro de 2025, quatro meses antes deste encontro, saiu o balanço do início do ano letivo nas turmas do sistema prisional. E em agosto de 2025, dois meses e meio depois — portanto posterior a esta atividade —, um balanço estadual da EJA completou um ano sem divulgar número de matrículas. São episódios independentes deste, citados porque medem a mesma política pela qual esta turma existe.

Quem divulgou a atividade administra a escola

Uma informação de contexto que o texto não traz sobre si mesmo: ele saiu no canal oficial do órgão estadual de educação, e o CEEJA é, pelo próprio nome, um centro estadual. Ou seja, a rede está descrevendo uma atividade da própria rede, conduzida por uma profissional dela. Isso não invalida nada do que foi informado, mas explica por que o texto avalia a iniciativa em vez de a examinar.

A avaliação pedagógica que o material reproduz é esta:

A ressocialização dos estudantes privados de liberdade por meio da educação e da qualificação profissional prepara-os para o mercado de trabalho, possibilitando um novo olhar de esperança e valorização para si mesmos, como pessoas e cidadãos no meio social

Rosangela Andrade Dias Ramos comentou isso no mesmo texto em que a atividade conduzida por ela foi divulgada. A frase é a premissa do encontro, não uma medição dele: nada no material acompanha essa expectativa com dado de emprego, de renda ou de continuidade dos estudos depois da pena.

Ninguém de fora dessa rede é ouvido. A associação que mantém a APAC não fala; nenhum dos profissionais convidados é nomeado ou citado; e dos estudantes o material traz um único depoimento. Um comunicado escrito por quem executa a ação é, por natureza, a versão de quem a executa, e não há no texto uma segunda voz que a confronte.

O que esta matéria deixou de fora sobre os estudantes

Nenhum estudante aparece aqui identificado: sem nome, sem iniciais, sem idade, sem descrição pessoal. Também não se trata da razão pela qual cada um está ali, do tempo de pena nem da situação de cada caso. A escolha é editorial e vale a pena explicá-la: pessoa privada de liberdade não escolheu ser notícia, e um registro que a amarre a essa condição segue acessível quando a pena já terminou há tempo. O interesse público está em existir escola funcionando ali, e isso o texto informa por inteiro.

Pelo mesmo critério, o depoimento de estudante que o material reproduz, identificado ali por iniciais e pela etapa escolar, não é reproduzido nesta matéria: ele trata da situação pessoal de quem fala, e não da atividade escolar, que é o assunto. Já o nome da professora que conduziu o encontro permanece, porque profissionais respondem pelo que assinam, e a etapa escolar fica porque, sozinha, não aponta pessoa alguma.

Quantos estudantes, quantos convidados, quantas horas: o comunicado não conta

A relação abaixo reúne o que faltaria para dizer se essa turma é oferta permanente ou atividade avulsa. Ela não esgota o assunto:

  • Quantos estudantes participaram e de que etapas — o texto identifica a etapa de um só participante.
  • Quantos profissionais foram convidados, de que áreas e como foram escolhidos.
  • Em que dia o encontro ocorreu e quanto tempo durou.
  • Se as horas contam na carga horária escolar e se a atividade integra alguma disciplina.
  • Se há certificação ao fim da etapa e se ela permite prosseguir nos estudos fora dali.
  • Se o Círculo de Cultura se repetiu depois de junho de 2025, ou se foi ação única.
  • Quem mantém a turma dentro da APAC: quantos professores, com que frequência, sob qual arranjo entre a escola e a associação.
  • Como o efeito foi medido: ampliação de perspectivas é o que se afirma, sem avaliação de nenhum tipo por trás.

Falta ainda o mais básico para quem lê e quer o mesmo: por onde se matricula. Não há no texto um telefone, um e-mail, um endereço de atendimento nem o nome de um setor responsável. Para um familiar que queira saber se existe vaga, ou para quem esteja em outra unidade e queira estudar, o único caminho que o material deixa à vista é procurar o centro estadual de EJA nomeado nele.

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