O balanço de um ano do Pacto EJA no Espírito Santo é de agosto de 2025, e quem chega a esta página está um ano adiante dele. Naquela semana, o Fórum de Partilha juntou no auditório do Cefope formadores, professores, gestores e gente das instituições parceiras para apresentar o que o programa alcançou no território capixaba em doze meses. O nome completo dele é Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualidade da Educação. O que o texto oficial lista, do primeiro ao último item, são reuniões, articulações e encontros formativos. Nenhuma linha informa quantas pessoas se matricularam na Educação de Jovens e Adultos (EJA) no período, quantas concluíram uma etapa e quantas deixaram de estudar no caminho.
O texto começa falando de um pacto que não é este
A divulgação abre com uma frase sobre o Pacto pela Aprendizagem no Espírito Santo, o Paes, descrito ali como a iniciativa que busca fortalecer a aprendizagem da Educação Infantil aos anos finais do Ensino Fundamental — ou seja, o percurso de crianças e pré-adolescentes na idade prevista para cada etapa.
Todo o resto do texto trata de outra coisa: o Pacto EJA, voltado a jovens, pessoas adultas e pessoas idosas que ficaram para trás nesse mesmo percurso. São dois programas com nomes parecidos, públicos opostos e nenhuma ligação declarada entre si no material. A abertura não explica por que está ali, e quem lê corrido sai com a impressão de que os números seguintes pertencem ao primeiro programa. Não pertencem.
O que o balanço do Pacto EJA no Espírito Santo mede — e o que ele não mede
Quatro quantidades aparecem no texto oficial. Vale ler o substantivo colado em cada uma antes de repeti-la, porque nenhuma delas conta estudante:
- cerca de 300 representantes presentes nas reuniões ampliadas realizadas nas Regionais. São presenças em reunião, e o cerca de arredonda para os dois lados;
- mais de 75 instituições públicas e privadas representadas nessas mesmas reuniões;
- 50 municípios também representados — e aqui há uma ambiguidade que o material não desfaz: o mais de escrito antes de 75 pode alcançar também os 50, ou parar nas instituições. Nas duas leituras o número serve como mínimo, nunca como total apurado;
- mais de 10 reuniões da Governança do Pacto EJA ao longo do ano.
São medidas de atividade do próprio programa: gente reunida, entidade convidada, encontro realizado. Não há matrícula, não há vaga, não há conclusão, não há certificação e não há evasão em nenhuma linha do balanço. O material também não informa quantos municípios existem na rede capixaba, então não é possível saber que parcela do estado esses 50 representam — e chegar a esse percentual por conta própria seria produzir um dado que ninguém divulgou.
Falta ainda a informação mais banal de um aniversário de programa: quanto ele custou. Um ano inteiro de execução é apresentado sem orçamento, sem repasse, sem convênio e sem uma única cifra.
Vaga ofertada, matrícula e conclusão são três coisas diferentes
Essa distinção é o serviço central de qualquer balanço de educação, e é justamente onde o texto oficial não entra. Vale fixá-la, porque ela muda o tamanho do que se está lendo:
- vaga ofertada é a cadeira que a rede se dispôs a abrir. Ela pode ficar vazia o ano inteiro;
- matrícula é a vaga ocupada por alguém que se inscreveu. Uma mesma pessoa pode gerar mais de uma matrícula ao longo do tempo, e uma matrícula feita em fevereiro não garante presença em novembro;
- conclusão é quem terminou a etapa e saiu com a certificação na mão — o único desses três números que diz se a política funcionou.
O balanço do primeiro ano não traz nenhum dos três. Como o texto oficial não os distingue, também não há como saber se as ações listadas produziram alguma matrícula nova.
A lista de ações descreve o meio do caminho, não a chegada
O material apresenta as ações do ano com a fórmula entre elas, destacam-se — o que significa que a relação é parcial, escolhida por quem divulga, e que outras ações podem existir sem constar. Foi divulgado o seguinte:
- formação dos Círculos de Cultura, articulada com a Rede Estadual e com as Redes Municipais;
- um encontro de articulação que sentou à mesa Ministério Público, Fórum EJA, Defensoria Pública Estadual e Federal e UNDIME;
- encontros ampliados em todas as Regionais, que somaram cerca de 300 representantes vindos de mais de 75 instituições públicas e privadas e de 50 municípios;
- Círculos de Cultura em torno de temáticas próprias: o lugar da EJA na Rede Estadual de Ensino do Estado do Espírito Santo; mulheres na EJA; pesquisa participante na EJA;
- mais de 10 encontros da Governança do Pacto EJA;
- participação em Círculos de Cultura ao lado das Redes Municipais e de escolas;
- conversas com Secretarias Municipais de Educação a respeito de ofertar a EJA em Itaguaçu, Alto Rio Novo e Piúma;
- tratativas com a Associação Quilombola sobre levar a modalidade às comunidades quilombolas capixabas;
- encontros com equipamentos públicos e com secretarias municipais de Assistência Social a respeito de ofertar a EJA nos CREAS, no Centro POP e no Núcleo Sol Nascente — em Colatina, Vila Velha e Serra.
Repare no que os três últimos itens de fato descrevem. O material os registra como articulação e reunião para a oferta — e isso não é a mesma coisa que oferta existindo. Em Itaguaçu, em Alto Rio Novo e em Piúma, o que o balanço registra é a conversa com a secretaria municipal; o texto não afirma que há turma aberta, não diz quando abriria, não informa escola e não menciona matrícula realizada. O mesmo vale para as comunidades quilombolas e para os equipamentos de assistência social de Colatina, Vila Velha e Serra. Quem mora nesses municípios não deve tratar a lista como aviso de vaga disponível.
Formação de professor, material distribuído e turma articulada são insumo — aquilo que a política coloca dentro do sistema. Indicador de resultado é o que sai do outro lado: gente aprovada, gente certificada, gente que voltou à escola e ficou. O primeiro tipo o balanço tem de sobra; o segundo não aparece.
Os quatro objetivos vieram sem número, sem prazo e sem ponto de partida
O texto oficial reproduz os objetivos do Pacto, e eles ajudam a entender por que o aniversário não vira prestação de contas:
- I — superar o analfabetismo de jovens, adultos e idosos;
- II — elevar a escolaridade de jovens, adultos e idosos;
- III — ampliar a oferta de matrículas da EJA nos sistemas públicos de ensino, inclusive entre os estudantes privados de liberdade;
- IV — ampliar a oferta da EJA integrada à educação profissional.
Três deles usam os verbos superar e ampliar, que só significam alguma coisa quando acompanhados de quanto e até quando. Nenhum traz meta numérica, percentual, prazo ou linha de base — o retrato do dia em que o programa começou, contra o qual o resultado seria comparado. Sem essa régua, o primeiro ano não tem como ser medido nem por quem o executa. O material tampouco informa a data em que o Pacto foi lançado no estado.
O objetivo III é o único que nomeia um público específico. Sobre esse recorte, duas semanas depois deste balanço foi anunciada uma parceria para fortalecer a educação de pessoas privadas de liberdade no Espírito Santo — fato de setembro de 2025, independente deste evento e sem relação declarada com ele.
A única fala do material define o programa; não o mede
Uma pessoa fala no texto oficial, e é na abertura do encontro:
“O Pacto é um movimento que nasce nos territórios, reafirma a educação pública como direito fundamental e fortalece a inclusão de jovens, adultos e idosos em nosso Estado e em todo o Brasil.”
Quem diz isso é a gerente da EJA/Sedu, Mariane Berger, ao abrir o Fórum de Partilha.
Há aí uma informação que a prosa do balanço não dá: a caracterização do Pacto como movimento que nasce nos territórios, e não como acordo assinado de cima para baixo — a fala é explícita em dizer que ele é mais que um arranjo institucional. Vale registrar que essa é a única definição de origem do programa em todo o material, e que ela convive com o nome oficial, que o apresenta como pacto nacional. A fala não traz número, prazo nem resultado, e não deve ser lida como balanço.
Duas pesquisadoras estavam na sala, e o texto não reproduz uma palavra delas
O encontro contou com a participação da professora Edna Castro de Oliveira, do Núcleo da Educação de Jovens e Adultos da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), e da professora Ana Lúcia Sanches, diretora de Políticas de Alfabetização e Educação de Jovens e Adultos da Secadi/Mec. A segunda, segundo o material, tratou do contexto de ação do Pacto EJA, das ações já realizadas e das que estão por vir — sem que o texto diga quais são essas próximas ações.
Aí está o ponto que interessa a quem lê: as duas vieram de fora da gestão estadual da modalidade, participaram do evento e nenhuma frase de nenhuma das duas foi reproduzida. O texto também menciona trocas de experiências entre profissionais das redes municipais e estadual, que teriam evidenciado avanços, desafios e próximos passos em cada território — e não conta um único desses desafios. Sobrou, no papel, a voz da própria gerência que executa o programa. O material cita ainda Consed, Undime e Fórum EJA-ES como parceiros a fortalecer, mas nenhum deles avalia coisa alguma no texto.
Não se trata de supor discordância onde não há registro dela. Trata-se do inverso: o material fecha o primeiro ano de uma política pública sem trazer o que pensam a universidade, a rede municipal, o corpo docente e, principalmente, quem senta na carteira. Como a EJA é feita em boa parte por quem estuda depois de um dia de trabalho, essa é a avaliação que mais faria falta.
As perguntas de quem quer estudar, e o que o texto responde a elas
Um balanço de programa educacional é lido por duas plateias diferentes: quem administra a rede e quem quer voltar à escola. Para a segunda, este material praticamente não fala. Ficaram sem resposta:
- quem pode se matricular — o texto não informa idade mínima, escolaridade exigida nem qualquer critério de entrada na modalidade;
- onde — não há lista de escolas, endereço, mapa ou relação de municípios com turma em funcionamento, nem mesmo para os três citados na lista de articulações;
- quando — não há período de matrícula, prazo, calendário letivo nem informação sobre entrada ao longo do ano;
- com o quê — nenhum documento é listado, e o texto não diz o que acontece com quem não tem histórico escolar em mãos;
- em que horário — não há uma linha sobre turno noturno, aula presencial, formato a distância ou carga horária;
- a quem perguntar — nenhum telefone, site, formulário ou endereço de atendimento ao público foi divulgado no material.
Essas lacunas não se preenchem aqui por dedução. O que existe fora do balanço é o registro do que o portal já publicou sobre a modalidade: em julho de 2025, três semanas antes deste aniversário, a Sedu levou a divulgação da EJA às praças com o Chamadão EJA, em ação de rua cujas datas já passaram. E, em maio de 2025, uma turma de EJA montou uma Feira de Ciências numa escola de Guarapari — episódio anterior a este balanço e sem ligação com ele, que mostra a modalidade funcionando na sala de aula, que é exatamente o que a lista de reuniões não alcança.
O que sobra depois que a data do aniversário passa
Passado o marco de agosto de 2025, o que continua de pé neste material é o desenho do programa, não a agenda. O Pacto EJA é apresentado como articulação entre a rede estadual, as redes municipais e instituições de fora da educação — órgãos de justiça, assistência social e representação de comunidades quilombolas —, com uma instância própria de condução, chamada no texto de Governança do Pacto EJA, e com os Círculos de Cultura como formato de formação e de escuta.
Esse desenho diz a quem chega agora que a EJA capixaba não depende de um único órgão e que a porta de entrada pode estar num equipamento de assistência social, numa comunidade quilombola ou numa unidade prisional, e não só na escola. O que o balanço de um ano do Pacto EJA no Espírito Santo não permite dizer é quantas pessoas atravessaram alguma dessas portas.
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