O Projeto Soldado Cidadão (PSC), programa federal de curso profissionalizante para militares, entregou certificado a 25 militares que concluíram o curso de Agente Público de Proteção e Defesa Civil. A entrega dos documentos ocorreu no dia 20, em Goiânia (GO), ao fim de quatro semanas de capacitação, com aulas operacionalizadas pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de Goiás (Senai-GO). O anúncio é de dezembro de 2024 e trata de uma turma que já se encerrou — sobre turma seguinte, o texto oficial nada diz.
Quatro semanas de aula, e o pedaço da grade que ficou de fora
Entre os assuntos do programa de aulas, o anúncio cita a gestão de riscos e desastres em defesa civil. Houve também exercício prático, e a operação de drones aparece como exemplo do que a turma pôs em uso fora da sala.
Duas ressalvas de leitura. A primeira está na própria formulação do material: ele apresenta os assuntos como amostra, e não como relação encerrada. Quem lê recebe parte do conteúdo, nunca a grade completa do curso. A segunda é o que não aparece em lugar nenhum: carga horária em horas, critério de avaliação, frequência exigida e quem assina o documento entregue aos 25.
Certificar é entregar um papel — e o que esse papel vale não foi dito
Certificar descreve um ato, não um resultado: alguém recebeu um documento numa cerimônia. O que veio antes desse ato o material descreve — houve curso, com duração, conteúdo e instituição executora. O que vem depois dele, não.
A nota não informa para que serve o certificado fora do quartel. Não diz se ele é reconhecido como formação técnica, se pontua em concurso, se habilita a alguma função em órgão de proteção e defesa civil ou se tem qualquer efeito de registro profissional. É a lacuna central deste anúncio, porque é exatamente a resposta que interessaria a quem lê — e ela não pode ser preenchida por suposição de quem escreve.
A mesma ressalva vale para o objetivo declarado. O projeto existe, segundo o texto, para qualificar jovens voluntários do Serviço Militar visando o ingresso no mercado de trabalho, e a avaliação do secretário fala em ganho para a sociedade. Nenhum número acompanha essa promessa: não há quantos egressos foram contratados, em que funções, com que remuneração ou em quanto tempo. O que o material mede é atividade — turma, curso, cerimônia. Resultado, em nenhum momento.
25, 278 mil, dez áreas: o que cada número está contando
Cada cifra do anúncio pesa uma grandeza diferente. Lidas em bloco, elas enganam; separadas, dizem o seguinte:
- 25 — militares formados nesta turma. Quantos começaram, o texto não informa — e sem o número de matriculados fica impossível saber se alguém desistiu no meio.
- Cerca de 278 mil — jovens beneficiados pelo projeto ao longo de todo o período. O cerca de é aproximação declarada pela própria fonte, e não fica dito se a conta soma pessoas ou passagens por curso: quem fez dois cursos pode estar contado duas vezes.
- Cerca de dez áreas — o leque de cursos profissionalizantes do projeto, também aproximado e sem a relação das áreas.
- 2004 — ano de lançamento do projeto.
- Dia 20 — data da cerimônia de encerramento. O texto traz o dia sem o mês.
Quem são os 25 e por onde se entra num curso profissionalizante para militares
O perfil da turma não é identificado. O material não diz se são militares em plena atividade, se estão próximos do desligamento ou se já haviam retornado à vida civil, e também não informa de que unidades ou de que estados vieram. A pista mais forte está na fala do secretário, que descreve jovens de passagem temporária pelas Forças Armadas — a leitura possível é a de um programa de transição para a vida civil, mas o texto não a declara com essas palavras.
Caminho de entrada, tampouco. Quem quisesse participar não encontra ali edital, prazo, formulário, unidade a procurar nem critério de seleção. O anúncio relata uma formatura; ele não abre uma porta.
Sobre esse ponto há material posterior no próprio portal: um ano depois, em dezembro de 2025, outra turma do mesmo projeto formou 60 militares em eletricista de rede de distribuição, e naquele caso os critérios usados para escolher os alunos foram divulgados. É outro curso, em outra área e em outra data — serve de comparação, não de regra para a turma de Goiânia.
Quem executa, quem paga e o nome que sumiu da primeira frase
O texto apresenta o PSC como iniciativa em parceria com o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) e registra que o projeto tem o apoio dos Comandos das Forças Armadas. A execução das aulas coube ao Senai-GO.
O papel de cada parte, porém, não é descrito. Não se sabe quem custeou a turma, quem definiu o conteúdo, quem contratou a instituição de ensino nem quem responde pela emissão do certificado — e nenhum valor é informado.
Há ainda um defeito no texto publicado desde 2024: a frase de abertura chega incompleta, na forma iniciativa do em parceria com, com o nome do órgão responsável faltando no meio. O que sobrou não permite recuperá-lo sem adivinhação, e por isso ele não foi reposto aqui.
As duas falas que o anúncio traz
Para o secretário de Pessoal, Saúde, Desporto e Projetos Sociais (Sepesd), Idervânio da Silva Costa, o proveito do curso é duplo — de quem o faz e de quem recebe essa pessoa de volta:
Esses jovens militares que passam, temporariamente, pelas Forças Armadas, retornam à sociedade com uma qualificação e uma capacidade muito melhor do que ao ingressarem. Essa força de trabalho com pessoas jovens, em idade plena de participar do processo produtivo e com a qualificação oferecida, só traz ganho para a nossa sociedade
Costa falava do efeito do programa sobre quem serve por tempo determinado, e não apresentou nenhum indicador de emprego para sustentar a conclusão.
Um dos 25 militares certificados resumiu o que leva do curso, pensando na saída da farda:
Este curso foi de grande valia, na área profissional e também na área pessoal, pois vamos aplicar esse conhecimento, posteriormente, no mercado de trabalho
Repare em quem fala: os dois estão dentro do programa — um o dirige, o outro o cursou. Falta no material a única avaliação capaz de dizer se o certificado abre porta, que é a de quem contrata do lado de fora.
Por que o militar que deu o depoimento não aparece nomeado aqui
A nota oficial traz o nome dele; este texto, não. Receber certificado numa cerimônia coletiva não é ato dirigido a uma pessoa: os 25 concluíram o mesmo curso e o depoimento é relato de participante, não decisão de órgão sobre um indivíduo. Fixar o nome de um jovem em transição para a vida civil num registro permanente e pesquisável não acrescenta nada a quem lê. O depoimento entrou íntegro, palavra por palavra, e quem o disse aparece pela função: um dos 25 certificados. O secretário responde pelo cargo que ocupa e continua nomeado.
Continuidade: o texto oficial não trata do assunto
Quem procurar um curso profissionalizante para militares a partir deste anúncio não encontrará calendário, número de vagas nem previsão de nova turma do curso de Agente Público de Proteção e Defesa Civil. Convém não ler nisso um encerramento: o material simplesmente não toca no tema, e não afirmar não é o mesmo que negar.
Do lado do que veio depois, o portal registrou um acordo federal assinado em janeiro de 2026 para reunir qualificação, encaminhamento a vagas e microcrédito para quem está deixando o serviço militar — etapa posterior a esta formatura e, quando foi anunciada, ainda sem inscrição aberta.
O endereço que o anúncio de 2024 indicava, por sua vez, resistiu: a página de apresentação do Projeto Soldado Cidadão segue no ar e aberta a qualquer visitante, sem exigir cadastro. É o único canal que o material oferece a quem quiser saber mais sobre o programa.
Direto Notícias Imparcial, Transparente e Direto!


