Estudantes do Atendimento Educacional Especializado (AEE) do Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos (Ceeja) Pedro Antonio Vitali, em Colatina, estudaram a estrutura da célula animal numa aula em que o material didático podia ser comido. Na quarta-feira (09), a turma montou um modelo de célula com bolo de chocolate, brigadeiro, laranja, wafer e guloseimas, com cada parte identificada por plaquinhas em palitos de dente. A aula, divulgada pela Sedu, foi montada para incluir um estudante surdo na disciplina de Ciências, com a participação de um intérprete de Libras.
O bolo era a célula; a laranja, o núcleo
A proposta partiu da professora de Biologia Klécia Rizzoli Rossoni, que trocou a figura do livro por um objeto que a turma pudesse pegar na mão. Usando materiais simples e do cotidiano, a correspondência ficou assim:
- bolo de chocolate: a célula
- brigadeiro: o citoplasma
- laranja: o núcleo
- wafer: a membrana plasmática
- diversas guloseimas: as organelas
As estruturas foram identificadas com plaquinhas presas por palitos de dente, de modo que ficava visível o tempo todo qual doce estava fazendo o papel de quê. Em vez de copiar uma legenda no caderno, os estudantes puderam visualizar e manipular as partes da célula.
A aula foi pensada para um estudante surdo
É aí que a atividade deixa de ser apenas uma aula divertida. De acordo com a educadora, o foco principal era estimular o estudante surdo Kaio Francisco Toledo, que assim pôde vivenciar uma experiência multissensorial de aprendizagem: o conteúdo chegava pela imagem e pelo toque, e não só pela explicação falada.
“O modelo comestível tornou os conceitos mais acessíveis ao associar os conteúdos a elementos visuais e táteis, fundamentais para estudantes com deficiência auditiva”, frisou a professora.
O intérprete de Libras entrou desde o planejamento
A professora atribui boa parte do resultado ao trabalho conjunto com o intérprete de Libras, chamado antes de a aula existir e não apenas no dia para traduzir o que já estava pronto.
“A presença e colaboração do intérprete de Libras durante todo o processo foi essencial para garantir a acessibilidade da atividade. Desde o planejamento, o profissional contribuiu com sugestões para potencializar a compreensão do conteúdo por meio de recursos visuais e estratégias adaptadas. Sua atuação foi além da tradução, funcionando como elo entre a linguagem científica e a vivência prática do aluno”, reforçou a docente.
O que a turma saiu sabendo, e por que isso pesa num Ceeja
Klécia Rizzoli Rossoni destacou que a iniciativa promoveu habilidades ligadas ao próprio conteúdo, como identificar as partes da célula, compreender as funções das organelas e relacionar essas estruturas com o funcionamento do corpo humano. Fora do programa da disciplina, a educadora aponta ainda ganhos de criatividade, de trabalho manual e de autonomia dos estudantes.
Um Ceeja atende à EJA, a modalidade voltada a quem não concluiu o ensino fundamental ou médio na idade regular e volta a estudar depois, quase sempre conciliando escola, casa e trabalho. O tempo de aula é curto e cada encontro precisa render. O AEE, por sua vez, é o serviço que acompanha nessas turmas os estudantes com deficiência, com recursos e estratégias adaptados ao que cada um precisa para acompanhar a mesma matéria que os colegas.
Nesse contexto, adaptar a aula não é enfeite: é o que coloca o estudante dentro da disciplina de Ciências, e não ao lado dela.
Colatina vem acumulando aulas fora do quadro
A escola já havia recorrido ao mesmo caminho poucos dias antes. No início do mesmo mês, foi na disciplina de Física que o Ceeja Pedro Antonio Vitali adaptou uma aula, quando, em Colatina, alunos com deficiência visual sentiram o calor na mão: mesma escola, outra turma e outra deficiência, com a mesma ideia de fazer o conteúdo chegar por um sentido que não fosse o texto.
O município também aparece em outras turmas. Cinco dias antes desta aula, alunos de Colatina propuseram tecnologia contra lixo e desperdício, saindo do conteúdo teórico para um problema da cidade. Em março, quando o assunto exigia enxergar o que estava plano no papel, alunos de Colatina construíram modelos tridimensionais.
O histórico é mais antigo. No fim de 2024, o município reuniu esse tipo de produção numa vitrine própria: a 1ª Mostra Valorizando Talentos da Escola revelou o potencial de alunos de Colatina. Antes disso, a mesma lógica já valia para as áreas de humanas, quando estudantes de Colatina discutiram diversidade racial em visita a museu virtual.
São escolas, turmas e disciplinas diferentes, mas o padrão se repete: o conteúdo sai do quadro e vira algo que o estudante monta, mede ou, como no Ceeja Pedro Antonio Vitali, come no fim da aula.
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