Este texto registra uma aula prática encerrada em 8 de maio de 2025, e já vai para o segundo ano de calendário desde então — quem chegar aqui hoje lê um relato de atividade concluída, não um convite para nada. Alunos do curso técnico em Agronegócio integrado ao Ensino Médio da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Graça Aranha, em Santa Maria de Jetibá, passaram o primeiro semestre de 2025 inventando alimentos a partir de matéria-prima da região e de sobras de cozinha. O trabalho terminou numa quinta-feira, dia 08, com apresentação e degustação dentro da própria escola.
O projeto não é dos alunos, mas os produtos são
Vale separar duas coisas que o comunicado mistura, porque elas têm autores diferentes.
O projeto não é dos estudantes. Ele aparece com nome próprio — Desenvolvimento de Produtos no Agronegócio com Foco em Sustentabilidade e Inovação — e é apresentado numa construção que apaga quem o desenhou: a iniciativa foi desenvolvida nas disciplinas de Planejamento da Produção Rural e Administração da Empresa Agroindustrial. Sem sujeito. Quem teve a ideia, quem escreveu o plano, quem decidiu que o semestre inteiro seria gasto nisso: o material não diz, e a única pessoa apontada como responsável pela condução é a professora Luciene Laurett.
Os produtos, sim, são creditados aos alunos, e sem rodeio gramatical: o comunicado escreve que estão entre os produtos elaborados pelos alunos, com o agente na frase. As duas falas de estudantes que o texto reproduz apontam para o mesmo lado: ao descrever o que saiu pronto, elas dizem produzimos e chamamos, no plural de quem assina; ao descrever o trabalho manual, passam para o singular. Não é o caso, aqui, de um processo pronto que a turma apenas tenha acompanhado: eles escolheram o que fazer, formularam, deram nome ao que fizeram e serviram o resultado.
O que o comunicado descreve como percurso, porém, é uma simulação, e ele próprio usa essa palavra. A proposta era que os estudantes percorressem todas as etapas do desenvolvimento de um produto — da concepção da ideia à criação de logomarcas, à etiquetagem e à produção de vídeos institucionais —, simulando o funcionamento de uma pequena agroindústria. Simular uma agroindústria e operar uma são coisas distintas, e é a primeira que está escrita.
O que saiu da cozinha: bolo de sobra, iogurte e suco de gengibre
O comunicado abre a lista com entre os produtos, expressão que recorta e não fecha — logo, o que vem a seguir são exemplos, e o texto oficial nunca informa o conjunto completo nem quantos itens a turma produziu ao todo. Do que ele nomeia:
- Bake Pop — bolo no palito feito com sobras de bolo, criado justamente para não jogar fora o que sobrava;
- brownie artesanal;
- iogurte de morango;
- sucos com ingredientes da região, entre eles o de gengibre, batizado pela turma de Raízes Pomeranas, e a cereja de chuchu.
O reaproveitamento não é retórica de release neste caso: é a descrição do Bake Pop, que existe porque havia sobra de bolo. É o único ponto do material em que a palavra sustentabilidade encosta num gesto concreto — nos demais, ela aparece como objetivo declarado.
Nada disso estava à venda, e o material não menciona registro sanitário
Este é o ponto em que um leitor pode se enganar sozinho, e convém ser direto. O comunicado fala em foco no mercado, em habilidades empreendedoras e em agregar valor à produção agrícola local. Nada disso significa que exista produto para comprar.
O único destino que o texto oficial dá aos alimentos é a degustação na escola, no dia da apresentação. Não há preço, não há ponto de venda, não há encomenda, não há autorização sanitária mencionada, não há informação sobre onde e em que condições a produção foi feita, nem se algum dos produtos foi provado por alguém de fora da escola. Logomarca e etiqueta existem porque eram etapas do exercício — o material não afirma que tenham sido registradas em lugar nenhum. Quem procurar por Raízes Pomeranas ou pelo Bake Pop para comprar não vai encontrar nada com base neste texto, e não é falha de leitura: o produto escolar termina na bancada da aula.
O superlativo sobre o Espírito Santo vem sem ano, sem volume e sem origem
Ao explicar a escolha dos ingredientes, o comunicado afirma que o gengibre e a cereja de chuchu são culturas nas quais o Espírito Santo se destaca como maior produtor nacional. A afirmação é do texto oficial e vai reproduzida como ele a fez, mas ela chega sem nenhuma das informações que permitiriam conferi-la: não há ano de referência, não há volume colhido, não há levantamento citado e não se diz se a liderança é de uma das duas coisas ou das duas.
Há ainda um detalhe de vocabulário que o próprio material deixa em aberto. Ele classifica a cereja de chuchu como cultura, ao lado do gengibre — enquanto a fala da estudante reproduzida adiante descreve a cereja de chuchu como algo que se faz, e não como algo que se colhe. O comunicado não concilia as duas leituras, e este texto também não escolhe por ele.
A professora fala em ideias práticas; os alunos falam da bancada
A professora responsável pela condução do projeto avaliou assim o semestre:
“Foi muito gratificante ver os alunos se envolvendo de forma tão ativa e criativa. Eles conseguiram transformar conhecimentos técnicos em ideias práticas, com foco no mercado e na sustentabilidade. Esse tipo de experiência é essencial para a formação de futuros empreendedores conscientes”
Luciene Laurett falava no encerramento da atividade, ao balanço do que tinha visto em sala. Repare que a frase dela para no ponto certo: fala em ideias práticas, não em produto colocado no mercado.
Do lado dos estudantes, um aluno da 2ª série do Ensino Médio contou como o suco ganhou nome:
“Foi desafiador escolher o que produzir e depois escolher o nome do produto. O suco de gengibre que produzimos chamamos de ‘Raízes Pomeranas’, considerando a oferta do produto na região e fazendo menção à nossa cultura.”
É a fala mais informativa do material inteiro, porque explica uma decisão de marca: o nome junta o que a região oferece com a herança cultural do município. Uma colega da mesma série, ao descrever a bancada, acrescentou o que ninguém mais conta sobre o trabalho manual:
“Fazer a cereja de chuchu foi divertido. Eu mesma nunca tinha comido! Deu trabalho e ficou gostoso, nem parecia que era chuchu.”
Dois nomes completos no comunicado, nenhum aqui — e o da professora ficou
O comunicado oficial identifica os dois com nome completo e série. Esta matéria não reproduz nenhum dos dois, e a atribuição passou a ser pela função — um aluno da 2ª série, uma colega da mesma série.
A razão é a natureza do que eles fizeram. Não houve eleição, convocação por lista, medalha nominal nem qualquer ato em que uma instituição tenha atribuído um resultado a uma pessoa: o que existe são dois depoimentos sobre um trabalho que o próprio comunicado descreve como coletivo, feito pela turma dentro de duas disciplinas. Nesse cenário, publicar dois nomes seria repartir crédito onde a fonte não repartiu — e colar nome completo, série e escola de um adolescente num resultado de busca que responde por ele durante anos, muito depois de o gengibre ter acabado.
Com a professora o critério é outro, e por isso o nome dela ficou: ela é a profissional apontada como responsável pela condução do projeto, e conduzir um projeto é trabalho de adulto contratado para isso — quem assina esse trabalho responde publicamente por ele.
Um semestre inteiro sem um único indicador de aprendizagem
O produto existe — isso é resultado material, e é mais do que a maioria dos comunicados escolares tem para mostrar. Mas resultado material não é medida de aprendizado, e o texto oficial não traz nenhuma.
Ele lista o que a atividade pretendia despertar — habilidades empreendedoras, criatividade, trabalho em equipe, comunicação, planejamento estratégico, competências socioemocionais — e nenhum desses itens vem acompanhado de avaliação, nota, rubrica, comparação com outra turma ou qualquer coisa que dê para conferir. Empreendedorismo, protagonismo e inovação, no material, são rótulos aplicados ao final; o que o corpo do texto descreve de concreto é outra coisa, e mais interessante: escolheram uma matéria-prima, formularam uma receita, deram nome ao produto, desenharam a marca, imprimiram etiqueta, gravaram vídeo e serviram o resultado a quem estava na escola naquele dia.
Vale também dizer de onde vem o texto: é comunicação institucional da rede estadual sobre uma atividade da própria rede. Ninguém de fora da escola avalia o projeto. Não há um professor das outras disciplinas do curso, não há a direção, não há um produtor de gengibre ou de chuchu do município — que poderia dizer se um suco assim teria comprador —, não há nenhum órgão de vigilância sanitária explicando o que separa uma produção de aula de uma produção que pode ser vendida, e não há nenhum estudante além dos dois que o comunicado escolheu ouvir.
Ninguém informou quem pagou o gengibre
- quantos estudantes participaram e em quantos grupos a turma se dividiu — o texto não dá nenhum número de pessoas;
- quem pagou o material: gengibre, chuchu, morango, leite, chocolate, embalagem, etiqueta impressa. Não há verba, doação, rateio nem custo informado;
- onde os alimentos foram preparados — cozinha da escola, laboratório, casa de alguém — e sob que orientação de manipulação;
- se houve mostra, feira ou avaliação externa: o material fala apenas em apresentação e degustação na escola, e não menciona inscrição, banca, categoria, colocação nem prêmio. Não é o mesmo que dizer que não houve — sobre isso o comunicado simplesmente cala;
- quais são os outros produtos que a expressão entre os produtos deixa de fora;
- se o projeto terá nova edição no semestre ou no ano seguinte, e se as receitas ficaram registradas em algum lugar;
- que fim levaram os vídeos institucionais que os estudantes produziram — não há endereço, canal nem menção a exibição fora da escola.
Duas disciplinas do curso técnico em Agronegócio, um semestre, uma professora
Pelo que o comunicado descreve, isto não é política pública de rede chegando à unidade. Não há nome de programa, portaria, meta, verba, material comum, formação de professores nem calendário compartilhado com outras escolas. O que há são duas disciplinas do curso técnico em Agronegócio daquela escola, um semestre e uma professora conduzindo — o desenho é da unidade, e a distinção importa porque muda quem responde por continuar ou encerrar a experiência no ano seguinte.
A EEEFM Graça Aranha, aliás, aparece com regularidade fora da rotina de sala. Três meses antes desta degustação, em fevereiro de 2025, alunos do mesmo curso técnico ocuparam cadeiras numa conferência ambiental do município, e uma estudante saiu de lá eleita delegada para a etapa estadual. Cerca de seis meses antes, em novembro de 2024, a mesma escola já havia reunido estudantes de outro curso técnico numa roda de conversa construída a partir de livros de finanças pessoais. Nenhum dos dois materiais menciona o outro, e nenhum deles cita programa que os encomende.
Fora do município, o formato tem parentes. Também em novembro de 2024, do outro lado do Estado, uma turma da Serra saiu a campo ouvir moradores do próprio bairro e entregou um aplicativo que juntava, na mesma tela, os serviços da vizinhança e um caminho para avisar sobre lixo largado em lugar errado — outra escola, outra área técnica, e a mesma ausência que aparece aqui: nada no material oficial diz o que aconteceu com o trabalho depois do dia da apresentação.
O que fica de 8 de maio de 2025 é isto, sem adjetivo: uma turma de curso técnico transformou gengibre, chuchu, morango e sobra de bolo em produtos com nome, rótulo e vídeo, serviu tudo aos colegas e encerrou o semestre. Se algum desses produtos saiu da escola, o comunicado oficial não conta — e ninguém publicou nada depois que conte.
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