A Polícia Civil do Espírito Santo (PCES) homenageia neste sábado (24) os profissionais que já deixaram a corporação, no Dia do Policial Civil Aposentado. A data é uma solenidade de calendário, mas o que ela coloca em evidência é outra coisa: a transformação da carreira policial capixaba ao longo de décadas, contada por quem entrou quando o salário girava em torno de dois salários mínimos e saiu com a instituição completamente diferente.
A data foi instituída pela Lei nº 4.964, no Estado de São Paulo, e simboliza o reconhecimento aos policiais civis que se aposentaram depois de anos de serviço prestado à sociedade. A PCES usa a ocasião para agradecer o trabalho de quem ajudou a construir a história da instituição — pessoas que, mesmo fora da ativa, deixaram marcas em operações, investigações e prisões que atravessaram gerações.
O que a Polícia Civil faz e por que a memória dela está com os aposentados
A Polícia Civil é a polícia de investigação. Enquanto o policiamento fardado ocupa a rua e atende à ocorrência no momento em que ela acontece, o trabalho da Polícia Civil começa depois: é ela que apura a autoria de um crime já cometido, ouve testemunhas, reúne provas e reduz tudo a um inquérito, o documento que sustenta a acusação. As delegacias especializadas existem exatamente por isso — cada tipo de crime exige um método diferente de apuração, e o policial que passa anos numa mesma unidade acumula um repertório que não está escrito em lugar nenhum.
É por essa razão que boa parte do acervo de casos do Espírito Santo está na memória de quem já se aposentou. De episódios históricos, como o de Araceli, em 1973, até investigações mais recentes, como a dos irmãos Kauã e Joaquim, em 2018, foram esses agentes que sustentaram a apuração, muitas vezes sem os recursos que hoje parecem básicos.
Não havia câmeras de segurança em cada esquina nem perícias tão detalhadas. A investigação dependia de campo: bater porta, conversar com vizinho, cruzar informação no papel e voltar ao mesmo endereço quantas vezes fosse preciso. O avanço técnico dos últimos anos não diminui aquele esforço — ao contrário, deixa mais claro o quanto se conseguia com tão pouco.
Do concurso de 1986 à Delegacia de Homicídios
Um dos policiais que viveram essa transição inteira é Floriano Caros Vervloet. Ele prestou concurso em 1986 para o cargo de investigador e assumiu em 1988. Logo depois de entrar, foi designado pelo superintendente a ficar temporariamente na Delegacia de Menores — e o temporário acabou durando até 1994. No mesmo ano passou a atuar na Delegacia de Homicídios, onde permaneceu até se aposentar, em 2018.
Perguntado sobre o momento mais marcante da carreira, ele não escolhe uma operação nem uma prisão de repercussão. Escolhe o dia em que a profissão deixou de ser projeto e virou realidade.
“Acredito que na função policial, praticamente todos os dias eles aparecem, mas posso dizer que para mim foi o dia que recebi minha credencial, pois eu não estava ali por acaso, eu havia escolhido ser policial civil”, disse Vervloet.
A escolha, porém, vinha com um custo concreto no fim do mês e no dia a dia do serviço. Vervloet descreve uma polícia que dependia de improviso para manter as portas abertas, a ponto de a manutenção mais elementar da frota sair do bolso do próprio policial.
“Havia muitas dificuldades na época, sendo a principal delas a questão salarial, que girava em torno de dois salários mínimos e ainda assim eu escolhi essa maravilhosa profissão. A polícia também não tinha muitos recursos, tínhamos que pedir ajuda frequentemente para fazer as delegacias funcionarem, até um simples conserto em um pneu na viatura tínhamos que pegar do nosso bolso ou pedir favor”, relatou o policial.
Esse é o retrato de uma etapa que os policiais mais jovens conhecem apenas de ouvir falar: a delegacia como estrutura precária, sustentada mais pela disposição de quem estava dentro do que pelo orçamento que chegava.
O que melhorou nas décadas seguintes e o que, para ele, piorou
Ao longo dos anos, o quadro material mudou. Salário e estrutura avançaram, prédios foram reformados, viaturas foram renovadas. O balanço que Vervloet faz, no entanto, não é de melhora em linha reta: na visão dele, a relação da sociedade com a polícia se desgastou no mesmo período em que as condições de trabalho ficaram melhores.
“As coisas foram melhorando na questão salarial, depois na questão estrutural, a polícia se transformou com boas viaturas, reformas de prédios, mas também com o passar do tempo, junto a essas melhorias vieram as questões políticas em que a polícia que era respeitada na época, passou a ser enfrentada pela bandidagem e até hostilizada como podemos ver hoje em dia nos telejornais”, acrescentou o policial.
É uma leitura de quem acompanhou os dois extremos: entrou numa instituição sem recursos e respeitada e saiu de outra, mais bem equipada, mas convivendo com hostilidade.
Por que ele decidiu sair antes de ser obrigado
A aposentadoria não veio por cansaço nem por imposição. Veio por cálculo. Vervloet conta que se preparou para o momento e preferiu encerrar a carreira ainda com saúde para viver outra rotina, abrindo espaço para quem estava chegando. Do que ficou para trás, o que ele diz sentir falta não é do serviço, e sim das pessoas com quem dividiu o expediente.
“Na verdade, não sinto falta da rotina, apenas dos amigos, pois penso que na ativa cumpri minhas obrigações da melhor forma possível, e assim que me aposentei passei a ter outras prioridades. Eu me preparei para aposentar, poderia estar até hoje trabalhando, mas fiz aos 53 anos, penso que a vida é feita de ciclos, cumpri o combinado, trabalhei 30 anos em delegacia de ponta sem nunca ter uma falta e nem responder qualquer procedimento, tinha que sair para deixar minha vaga para outro jovem oxigenar a instituição e eu aproveitar meu resto de vida da melhor forma possível enquanto tenho saúde. O que mudou é que hoje posso fazer tudo aquilo que não tive tempo para fazer enquanto estava comprometido com meu trabalho, pois aqueles que me conheceram trabalhando, ou que fizeram parceria comigo podem dizer que eu ‘respirava polícia’, não tinha hora e nem dia, eu estava pronto”, destacou Vervloet.
O recado para quem continua na ativa
O policial aposentado fecha a conversa com um aviso dirigido aos colegas que seguem trabalhando. Não é um discurso sobre coragem: é sobre limite. Ele fala dos que se perderam no caminho e defende que ninguém tente ser mais do que a função exige.
“Ser um policial civil aposentado para mim é uma grande honra, pois muitos colegas ficaram pelo caminho, se iludiram com as facilidades que a função oferece no dia a dia, e acabaram atrás das grades ou simplesmente perderam suas vidas. O conselho que deixo para os colegas na ativa, é que tenham muito cuidado, os tempos são outros, cumpram apenas o seu papel, a sociedade não aceita e nem quer super-heróis, aposentem no seu tempo para aproveitar o tempo que resta junto à família, a vida é muito curta”, completou Vervloet.
A homenagem deste sábado (24) serve, no fim das contas, para lembrar que a Polícia Civil que atende o capixaba hoje foi montada aos poucos, por gente que trabalhou em condições muito piores do que as atuais. O reconhecimento institucional dura um dia. A herança de método, de casos resolvidos e de experiência acumulada segue dentro das delegacias do Espírito Santo, mesmo depois que quem a construiu foi para casa.
Serviço — Comunicação Interna da Polícia Civil do Espírito Santo: (27) 3198-5832 e (27) 3198-5834. Demais contatos: (27) 3636-1536, (27) 99846-1111, (27) 3636-1574 e (27) 99297-8693.
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