Realidade virtual em escola de São Mateus reúne duas redes

Cerca de 40 estudantes do Ensino Fundamental da Escola Municipal de Ensino Fundamental Tempo Integral (EMEFTI) Valério Coser levantaram do papel uma tartaruga-verde com caneta 3D e desceram ao fundo do mar por dentro de um óculos, sem sair da escola que os recebeu. A atividade de realidade virtual em escola de São Mateus aconteceu no Centro Estadual de Ensino Fundamental e Médio em Tempo Integral (CEEFMTI) Marita Motta Santos e juntou, numa oficina só, duas redes de ensino que funcionam com orçamento, calendário e chefia separados.

A oficina já ocorreu e o material oficial não diz em que dia. A única referência de tempo que a Sedu divulgou é que foi na última semana — o comunicado saiu em 25 de maio de 2025 e não fecha o calendário. Não há anúncio de nova edição nem de porta de entrada para outras escolas municipais interessadas.

Realidade virtual em escola de São Mateus: o que os visitantes fizeram

A oficina se chamou Pequenos Exploradores e teve tema marítimo. Os visitantes desenharam o contorno de uma tartaruga-verde com a caneta 3D, aparelho que solta um filamento derretido e o endurece no ar, permitindo levantar do papel uma figura em três dimensões. Depois vieram os óculos de realidade virtual, com uma imersão guiada no fundo do mar.

Convém não misturar os papéis, porque a nota oficial também não os mistura. Conduzir a atividade é mérito que ela atribui aos alunos da própria unidade estadual, aqueles a quem chama de protagonistas, com orientação da equipe do Programa Escola do Futuro. Para os visitantes da rede municipal sobram os verbos de quem usa: contornaram, exploraram, vivenciaram. Construir equipamento ou programar a imersão não aparece atribuído a ninguém, e quem produziu o conteúdo digital exibido nos óculos segue sem dono no material.

A professora Flaviane Lopes falava da proposta da eletiva que acompanha na rede municipal quando resumiu a atividade assim:

Foi uma experiência perfeita, pois dialoga com a nossa proposta de mostrar como a tecnologia pode expandir o nosso conhecimento. Os alunos adoraram a caneta 3D, o espaço maker e o óculos de realidade virtual, que foi uma verdadeira aventura.

O espaço maker que ela cita aparece uma única vez no material, dentro dessa fala, e não é descrito em nenhum trecho. Óculos de realidade virtual em sala de aula, porém, não são novidade isolada na rede estadual: em fevereiro de 2025, uma escola estadual de Aracruz usou os mesmos óculos para revisar conteúdo de Ciências — outra unidade de ensino, outra turma e nenhuma relação com o que ocorreu em São Mateus.

O que é o Programa Escola do Futuro, segundo o próprio material

O programa chegou ao CEEFMTI Marita Motta Santos em 2024. A diretora da unidade, Bruna Bonomo, descreve a finalidade em duas frentes: ampliar a infraestrutura tecnológica e estimular metodologias pedagógicas que a rede considera inovadoras. Foi ela quem apresentou a oficina como resultado do trabalho dos próprios alunos:

A oficina foi planejada e executada com a participação ativa dos estudantes protagonistas, que atuaram desde o início no acolhimento dos visitantes até o suporte às atividades. Vivenciamos os quatro pilares da educação de forma integrada, com muito aprendizado e encantamento

Os tais quatro pilares da educação não são enumerados em lugar nenhum do comunicado. O leitor sai da nota sem saber quais são, e nenhum documento, autor ou norma é apontado como origem da expressão.

Outra sigla que passa sem tradução é PCI, o cargo de Professora Coordenadora de Inovação ocupado na unidade por Pollyanna Barcelos. É a função que a rede estadual prepara para conduzir a entrada de novas metodologias dentro de cada escola do programa, e que já tinha sido tema de uma formação inicial promovida pela rede em fevereiro de 2025, três meses antes desta visita. Barcelos ligou a oficina a uma agenda ambiental maior:

As atividades foram um verdadeiro mergulho em práticas educacionais inovadoras. Se usada com intencionalidade, a tecnologia pode ser uma grande aliada na defesa da vida marinha e na construção de uma consciência oceânica, como propõem a ONU e a UNESCO.

A menção à ONU e à UNESCO está dentro da fala dela, como comparação. O comunicado não afirma que a oficina integre programa, década temática ou calendário oficial dessas organizações, e não dá elementos para concluir isso.

A mesma eletiva aparece nas duas redes, e ninguém explica

Num ponto, a nota da Sedu se embaraça sozinha. No segundo parágrafo, a eletiva Conectados com o Futuro é apresentada como sendo dos estudantes protagonistas da unidade estadual, orientados pela equipe do Programa Escola do Futuro. Mais adiante, Flaviane Lopes surge como responsável pela eletiva Conectados com o Futuro na rede municipal.

São duas atribuições diferentes para o mesmo nome, no mesmo texto. O comunicado não diz se é uma eletiva só, compartilhada pelas duas redes; se são duas disciplinas homônimas; ou se houve engano em uma das menções. Como isso decide quem, afinal, conduziu a oficina, as duas versões ficam registradas exatamente como a nota as publicou, sem que este texto opte por nenhuma delas.

Sem data, sem custo e sem repetição prevista

O texto oficial é curto e resolve o essencial da cena, mas deixa de fora o que um leitor de São Mateus perguntaria primeiro:

  • a data exata da visita, que a nota resume a um vago na última semana;
  • quantos óculos e quantas canetas 3D a escola tem, e quanto custaram;
  • de onde veio o dinheiro dos equipamentos: recurso estadual, emenda, convênio ou doação;
  • se outras escolas municipais podem pedir uma visita como essa, a quem e por qual canal;
  • quantas unidades da rede estadual em São Mateus já entraram no Programa Escola do Futuro;
  • a série ou a faixa etária dos cerca de 40 visitantes;
  • se a oficina terá continuidade em sala de aula, nas duas escolas, depois do dia da visita.

Sobre esse número: o comunicado escreve cerca de 40, o que é estimativa e não lista de presença. Total fechado de participantes não aparece em nenhum trecho.

Um elogio à política, sem um único indicador

O superintendente regional de Educação de São Mateus, Judson Coswosk, celebrou a iniciativa e creditou à consolidação de políticas públicas como o Tempo Integral impactos positivos nos territórios da região. É a leitura do próprio órgão que divulga a atividade, e ela vem desacompanhada: o material não apresenta nota, frequência, matrícula, avaliação de aprendizagem ou qualquer outro dado que permita verificar o efeito descrito.

O comunicado também não ouve ninguém de fora da rede estadual. Falta a direção da EMEFTI Valério Coser, que levou a turma; falta qualquer um dos cerca de 40 estudantes visitantes; falta pesquisador, entidade de professores ou representação de famílias que avalie o uso desse tipo de equipamento na educação básica. Quem quiser saber se a experiência rendeu aprendizagem, e não só encantamento, não encontra resposta no que foi publicado.

A mesma escola já tinha trocado o caderno pela tela

Esta não foi a primeira vez que a unidade estadual trocou o caderno pela tela: um jogo eletrônico usado como ferramenta pedagógica em aula de história afro-brasileira, em dezembro de 2024 — foi na mesma escola, mas em dezembro de 2024, com turma e finalidade próprias, sem relação com a visita de maio.

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