Curso técnico em Multimídia levou ex-aluno a longa capixaba

O curso técnico em Multimídia de uma escola estadual de Vila Velha formou o rapaz que entrou para a equipe de fotografia de Prédio Vazio, suspense gravado em Guarapari pelo cineasta capixaba Rodrigo Aragão. Bryan Adams Andrade Santos, de 22 anos, foi escalado como segundo assistente de fotografia antes mesmo de terminar o curso na EEEFM Luiz Manoel Vellozo. O longa-metragem estreou em todo o país em 12 de junho e, no dia em que a nota oficial saiu, ocupava salas da Grande Vitória. Esse comunicado é de 18 de junho de 2025: a informação de que o filme estava em cartaz descreve aquela semana e nada além dela, porque a nota nunca disse até quando a temporada iria.

Quem assina o filme é o cineasta; o ex-aluno entrou pela fotografia

Dirigir um longa, escrever o roteiro e produzi-lo são atos de autoria; entrar para a equipe numa função técnica é outra coisa, e foi essa a de Bryan: o material oficial diz que ele foi selecionado para integrar a equipe, na função de segundo assistente de fotografia. A obra que subiu às telas é assinada por Rodrigo Aragão. Não há, no comunicado, filme de escola, curta produzido em sala de aula nem exibição escolar — o que houve foi um profissional recém-formado numa produção comercial de longa-metragem.

O enredo, segundo a mesma nota, acompanha uma jovem chamada Luna atrás da mãe, que some em pleno Carnaval. A gravação foi feita em Guarapari, e esse é o dado que mais interessa a quem mora no município: a cidade serviu de locação para um longa que depois circulou pelos cinemas da região metropolitana.

A função aparece pelo nome, e o material não conta o que ela faz

Segundo assistente de fotografia é como a nota nomeia o trabalho de Bryan, e é só isso que ela nomeia. O texto oficial não descreve as tarefas do posto, não diz quantas pessoas havia na equipe de fotografia, não informa por quanto tempo ele ficou na produção e não esclarece se o trabalho foi remunerado, se veio por contrato ou se entrou como estágio do curso. Também não conta quem o escolheu — se partiu da escola, de um teste, de indicação ou de currículo enviado.

Depois desse primeiro trabalho, ainda de acordo com o comunicado, ele participou da produção de outros três filmes. O material não nomeia nenhum dos três, não informa se estrearam, não diz onde poderiam ser vistos e não registra que função ele exerceu em cada um. Fica-se sabendo a quantidade e mais nada.

A coordenadora do curso técnico em Multimídia conta o aluno que quase parou

A parte mais desenvolvida do comunicado não é o filme: é o percurso escolar. A nota descreve dificuldades pessoais, autoestima baixa e desânimo durante os anos de escola, longos deslocamentos diários até a unidade e a vontade, chegada a existir, de largar a escola no meio. O ponto de inflexão, ainda conforme o texto, veio do contato com as matérias práticas do curso — captação de imagens, edição de vídeo e fotografia.

O Bryan é um excelente profissional, mas foi um estudante que demorou para descobrir seu talento. Por causa de questões pessoais e sociais, ele não acreditava que poderia mudar a sua realidade com a educação. A escola para ele era um obstáculo, pois o impossibilitava de encontrar um emprego formal, por causa do horário das aulas

Quem descreveu esse período foi a coordenadora do curso de Multimídia, Nathália Esteves da Silva Gomes, ao comentar a passagem do ex-aluno pela unidade. Ela emendou uma segunda frase, esta sobre a própria história:

Por várias vezes ele pensou em desistir, mas sei que a educação o salvou. Como professora e ex-estudante de escola pública, fico orgulhosa em ver a mudança que a educação proporcionou

A mesma escola apareceu no noticiário sete semanas antes, quando encerrou, em abril de 2025, um projeto que cruzou ciências da natureza com saberes indígenas. Nada tem a ver com o filme: é o que a mesma unidade andava fazendo fora da grade comum dois meses antes desta estreia.

Ensino Médio Integrado ao Técnico: o que o nome do curso descreve

A modalidade que Bryan cursou tem nome comprido, e o nome já diz o arranjo: o ensino médio e a formação técnica são feitos juntos, na mesma escola e no mesmo período de escolarização. No caso dele, a habilitação era em Multimídia, com as matérias práticas que a nota lista. O que o material não traz é o resto do que interessa a quem pensa em seguir o mesmo caminho: quantas vagas o curso oferece, se há processo seletivo, quando ele abre, qual a duração, em que ano Bryan concluiu e quantos concluintes seguiram trabalhando na área.

O curso de Multimídia me ajudou muito a descobrir e desenvolver meu interesse por fotografia e edição de vídeo, que foram as áreas que mais gostei durante os meus estudos. Além de aprender na teoria, consegui colocar em prática tudo que aprendi na escola, quando trabalhei como segundo assistente de fotografia no meu primeiro filme. Foi uma experiência incrível e me fez ver como o que aprendi no curso realmente fez a diferença

Bryan Adams Andrade Santos disse isso ao falar da formação que teve na rede estadual — e a frase confirma, pela boca dele, que Prédio Vazio foi seu primeiro trabalho em cinema.

O cartaz que a nota descreve é o de junho de 2025, e ela não dá data de saída

Sobre o lugar em que o filme podia ser visto, o comunicado oferece uma única linha: cinemas da Grande Vitória. Não há relação de salas, não há horário de sessão, não há preço de ingresso, não há classificação indicativa e não há data final de cartaz. Também não se informa se houve exibição em Guarapari, a cidade onde o longa foi rodado, nem se a obra iria para alguma plataforma de streaming depois do circuito. Quem lê hoje precisa saber disso antes de se planejar: o texto oficial descreve uma semana específica de junho de 2025 e não sustenta nenhuma informação sobre cartaz atual.

A distância entre produzir e assistir já apareceu em outros registros da rede estadual. Em setembro de 2024, estudantes de outra escola estadual terminaram uma minissérie cujo anúncio oficial também não disse onde ela poderia ser vista — outro grupo, outra cidade, outro ano. Em dezembro do mesmo ano, uma turma de Vitória gravou curtas usando o celular como câmera, em projeto já concluído àquela altura.

Contratação, dinheiro e continuidade: o que a nota da Sedu não responde

Reunindo as lacunas deste material específico, ficam sem resposta: quem produziu e quem financiou o longa; se houve edital público, lei de incentivo ou patrocínio envolvido; quem selecionou o ex-aluno e sob qual critério; se o trabalho foi pago; quantas pessoas se formaram com ele naquela turma; se a escola mantém alguma parceria formal com produções audiovisuais; e se o curso pretende repetir esse tipo de encaminhamento com os próximos concluintes. Sobre continuidade o material simplesmente cala — não promete nova turma, novo seletivo nem nova indicação, e silêncio não é promessa nem recusa.

Falta também qualquer medida do alcance da obra. O comunicado não traz público, bilheteria, número de salas, seleção em festival ou prêmio: exibir um filme, ser selecionado para uma mostra e ganhar um troféu são três coisas diferentes, e aqui só a primeira está descrita. Nada no material oficial indica que Prédio Vazio tenha passado pelas outras duas.

Ninguém da produção do longa foi ouvido neste comunicado

O texto é uma nota de secretaria estadual e traz apenas quem ela escolheu: a coordenadora do curso e o próprio ex-aluno. Não fala o diretor do filme, não fala ninguém da produção, não fala outro egresso do curso e não fala nenhum professor que pudesse dizer se o caso é exceção ou rotina da turma. A ausência dessas vozes não significa que elas concordem com o enquadramento da nota; significa que não foram procuradas nela.

Duas informações do material oficial ficaram de fora desta matéria por escolha de redação: o bairro onde o ex-aluno morava e o bairro em que a escola está instalada. Nenhum dos dois acrescenta serviço ao leitor, e endereço somado a nome próprio é dado que fica indexado muito depois de a notícia deixar de importar. O nome dele permaneceu porque o que se noticia aqui é um trabalho profissional creditado a uma pessoa adulta de 22 anos, já fora da escola — apagá-lo apagaria a autoria dela sobre o próprio trabalho.

Para quem se interessa pelo cinema como conteúdo de escola, e não apenas como carreira, a rede estadual já teve programa dedicado ao tema: em julho de 2024 foi aberto um chamamento que ofereceu oficinas de audiovisual a dez escolas da rede, com prazo de inscrição encerrado desde então.

Sobre Redação

Portal Direto Noticias - Imparcial, Transparente e Direto | https://diretonoticias.com.br | Notícias de Guarapari, ES e Brasil. Ative as notificações ao entrar e torne-se um seguidor. Caso prefira receber notícias por email, inscreva-se em nossa Newsletter, ou em nossas redes:

Veja Também

Imagem ilustrativa relacionada a Dia da Criação do IBGE

Dia da Criação do IBGE: o decreto assinado por Vargas em 1934

6 de julho é o Dia da Criação do IBGE, que lembra o Decreto 24.609/1934, assinado por Getúlio Vargas.