Estudantes do Centro Estadual de Idiomas (CEI) que funciona dentro do Centro Estadual de Ensino Médio em Tempo Integral (CEEMTI) Prof. Fernando Duarte Rabelo, em Vitória, conversaram em inglês com um grupo de alunos da Universidade de Minnesota, dos Estados Unidos, e ouviram ex-alunos da própria unidade que já viajaram pelo programa de intercâmbio estudantil da Secretaria da Educação (Sedu). As atividades já tinham acontecido quando o comunicado oficial foi divulgado, em 19 de junho de 2025 — o texto descreve o que foi feito, não convoca ninguém e não marca data para nada.
O conjunto recebeu o nome de Experiências que Inspiram. O material oficial o trata como uma série de atividades educativas e culturais, sem dizer quantas foram nem em que dias de junho cada uma aconteceu.
O que os estudantes fizeram — e o que eles não fizeram
É a distinção que o anúncio original não deixava ver. Os alunos do CEI não apresentaram trabalho, não produziram material e não viajaram para lugar nenhum: eles ouviram e conversaram. O que o material descreve é isto:
- Bate-papo com ex-intercambistas. Ex-alunos do CEI de Vitória que participaram do programa de intercâmbio da Sedu contaram como foi a temporada fora do país, explicaram o processo de seleção e incentivaram os atuais estudantes a se preparar para concorrer.
- Roda de conversa em inglês. Um grupo de alunos intercambistas da Universidade de Minnesota, dos Estados Unidos, que estava em viagem ao Brasil, passou pela escola. Os estudantes do CEI conversaram com os visitantes no idioma que estudam.
- Reunião com pais e responsáveis. A escola explicou às famílias como o CEI funciona e quais são as diretrizes pedagógicas seguidas na unidade.
A relação não fecha. O comunicado fala em série de atividades e destaca apenas alguns momentos, sem afirmar que sejam todos. Por isso não há aqui um total: o número de ações do projeto não está no material oficial.
A visita dos Estados Unidos: o que se sabe e o que não se sabe
O material informa que o grupo da Universidade de Minnesota estava em viagem ao Brasil e esteve na escola. Não diz quem organizou o encontro, se existe algum acordo entre as duas instituições, quantos visitantes eram, quanto tempo durou a roda de conversa nem se a experiência terá repetição. Também não informa quantos alunos do CEI participaram, de que série são nem em que estágio do curso de inglês estavam.
O que é o Centro Estadual de Idiomas, e o que o comunicado presume que o leitor já saiba
Está aqui a maior lacuna do texto oficial. Ele usa o nome do Centro Estadual de Idiomas do começo ao fim sem explicar o que é: não diz quantas unidades existem na rede estadual, que idiomas são ensinados, quem pode se matricular, se o curso é gratuito, quanto tempo dura nem em que horário funciona. A única informação de estrutura é a localização da unidade citada — dentro de uma escola estadual de ensino médio em tempo integral, na capital.
A pergunta de serviço, como entrar, é justamente a que fica sem resposta. Quem chegar ao assunto por esta matéria encontra o caminho na chamada de inscrições que a Sedu abriu para os centros de idiomas da rede em fevereiro de 2025, cujo prazo já estava encerrado quando este projeto virou notícia. O comunicado de junho não anuncia nova chamada.
O intercâmbio que atravessa a matéria duas vezes
O programa de intercâmbio estudantil da Sedu aparece nas duas pontas: dele vieram os ex-alunos que voltaram para conversar com as turmas, e é para ele que os estudantes de hoje foram estimulados a se preparar. O comunicado não explica como o programa funciona — não diz quem pode concorrer, que critérios ou etapas existem, para onde vão os selecionados nem quem paga a viagem.
Quatro dias antes desta publicação, o prazo de inscrição do intercâmbio da Sedu se encerrou: quando o bate-papo com os ex-intercambistas virou notícia, a chamada daquele ano já estava fechada, e o texto oficial não avisa isso a quem lê. Em janeiro do mesmo ano, o programa já havia sido tema de anúncio de ampliação de vagas e de novos destinos — episódio anterior e independente deste projeto escolar.
A única voz do material
É sempre muito importante trazer os estudantes para essas vivências, para que eles possam sentir e ver na prática que o sonho deles pode estar mais próximo e real do que imaginam. Nosso objetivo é mostrar os caminhos, ampliar o olhar e fazer com que pensem para além da sala de aula. O CEI é sobre transformar e mudar a vida dos nossos alunos.
Quem fala é Geovander Quirino, coordenador pedagógico do CEI do CEEMTI Prof. Fernando Duarte Rabelo. É a única declaração do comunicado inteiro: nenhum estudante, professor, pai ou responsável foi ouvido, e o texto oficial não registra o que os visitantes acharam do encontro.
Nenhum aluno aparece nomeado no material. Ainda que aparecesse, este texto não publicaria: o portal não identifica estudante da educação básica que só está ali por ter participado de uma atividade escolar. Um nome ao lado da escola e da cidade estreita demais o círculo de quem pode ser aquela pessoa, e a busca guarda esse registro por tempo indeterminado. O nome do coordenador fica porque ele responde pela iniciativa como profissional.
Se o projeto terá continuidade, o material não informa
O comunicado descreve o mês de junho e para por aí. Não afirma que o projeto se encerrou, não anuncia próxima edição e não diz se as demais unidades do CEI farão algo parecido. Isso não é negativa — é assunto que o texto oficial não toca. Afirmar que Experiências que Inspiram foi ação única seria colocar na boca da Sedu uma informação que ela não deu.
Um comunicado inteiro sem um único número
O material oficial não traz nenhuma quantidade. Ficaram de fora:
- quantos estudantes participaram de cada atividade;
- quantos ex-intercambistas voltaram para conversar com as turmas, e para que países haviam viajado;
- quantos visitantes da Universidade de Minnesota estiveram na escola, e por quanto tempo;
- quantas famílias compareceram à reunião;
- que idiomas o CEI oferece, em quantas unidades e para quantos alunos;
- quem pode se matricular, quando e como;
- em que dias de junho cada atividade ocorreu.
São as informações que separam saber que houve um projeto de entender o que ele foi — e são elas que faltam a quem lê o comunicado procurando uma vaga para o filho.
Idioma na rede estadual, fora da capital
Projeto de língua estrangeira não é exclusividade da unidade de Vitória. Em dezembro de 2024, um projeto interdisciplinar de língua inglesa em outra escola da rede estadual ligou o idioma a conteúdos de outras disciplinas — iniciativa distinta desta e em outro município. Já em dezembro de 2025, meses depois deste projeto, a seleção de professores para os centros de idiomas da rede foi prorrogada: fato posterior a esta matéria, citado aqui só para mostrar que a rede de idiomas seguiu contratando depois do episódio narrado acima.
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