Imagem que ilustra o projeto de inglês da EEEFM Santo Antônio, em São Mateus, no fim do ano letivo de 2024.

Projeto de inglês em São Mateus cruzou história e geografia

Um projeto de inglês em São Mateus fechou o terceiro trimestre letivo de 2024 amarrando o estudo do idioma a matéria de história, de geografia e de saúde. As turmas de 2ª série do Ensino Médio da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Santo Antônio produziram trabalhos ao longo do trimestre e os levaram à comunidade escolar. A atividade já se encerrou, e a divulgação oficial não fala em repetir o projeto.

O que o projeto de inglês em São Mateus produziu, segundo a nota

A iniciativa se chama A Viagem do Santão: Conhecendo Países da Língua Inglesa através da Cultura Geográfica, Histórica, Estilo de Vida e Saúde — um título grande para o que o texto oficial de fato descreve. Descontado o adjetivo, sobram duas ações, e só duas: as turmas desenvolveram trabalhos que cruzaram o uso do idioma com conteúdo de outras áreas, e esses trabalhos foram apresentados à comunidade escolar.

O material não descreve feira, mostra, exposição aberta ao público, oficina de culinária, dança nem qualquer outra atividade prática além disso. O verbo que o comunicado escolhe — conhecer — cobre desde ler um texto em sala até montar um evento, e o texto não escolhe entre os dois. A única pista sobre o método está numa fala de professora, mais adiante.

Nenhum país aparece nomeado no comunicado

Esta é a lacuna que atravessa tudo. A proposta anunciada é conhecer países que falam inglês, o nome do projeto carrega a palavra países e o título de divulgação também — e o texto oficial não nomeia um único país. Não informa quantos foram estudados, quais couberam a cada turma, nem se cada grupo ficou responsável por um.

Sem isso, dizer o que os estudantes pesquisaram vira chute. Descrever aqui a história, a geografia, a colonização ou o sistema de saúde de qualquer nação seria escrever por conta própria, e não noticiar o que a escola realizou.

Quatro professores assinam o projeto; as duas falas são de outros dois

O comunicado credita a autoria a quatro professores, que segundo ele idealizaram e conduziram a atividade: Fernando Dalbó Durães, Herlane Souza Faustino, Fernanda da Silva Senna e Ana Cristina França Souza. Registra ainda uma parceria com o itinerário formativo Esporte, Ciência e suas Linguagens.

Quem fala no texto, porém, são outras duas pessoas. Uma delas, o professor Luciano Trevizani, aparece descrito como um dos responsáveis pelo projeto — condição que não bate com a lista dos quatro. A professora Aline Barbosa Santos também é ouvida sem que se explique seu papel. Nada no material costura as duas listas, e elas ficam aqui como estão: quatro nomes na autoria, dois nomes nas falas, zero sobreposição entre eles.

A declaração que mais se aproxima de descrever o método é a dela:

Sob meu ponto de vista, o projeto foi essencial para fortalecer o trabalho em equipe e o protagonismo dos estudantes. Além disso, promoveu o aprimoramento da pesquisa, do pensamento crítico e do domínio de ferramentas tecnológicas.

Quem assina essa leitura é a professora Aline Barbosa Santos. Fora dessa frase, as palavras pesquisa e ferramentas tecnológicas não reaparecem no comunicado — e mesmo ali elas entram como qualidade desenvolvida, não como relato do que aconteceu em sala. Que ferramentas foram essas, o texto não conta.

A fala da estudante ficou de fora, e o nome também

A Sedu publica o nome inteiro de uma estudante ouvida. Esta reportagem não repete o nome, e o cálculo é simples: junte nome, escola, município e série e o resultado aponta uma adolescente específica entre poucas dezenas de colegas — um endereçamento que buscador nenhum esquece depois. Já os professores seguem identificados, porque assinaram a iniciativa no exercício da profissão, e responder publicamente pelo que se assina faz parte do cargo.

A declaração dela também não foi aproveitada, e por outro motivo: comenta a própria experiência em termos de integração de conhecimentos e de habilidades de grupo, sem informar nada sobre a atividade em si. O mesmo vale para a fala do professor Luciano Trevizani, construída inteira sobre a metáfora da viagem. Nos dois casos a saída foi retirar a fala completa — recortar um trecho de dentro de uma declaração fabrica uma versão condensada que o falante nunca deu.

Três avaliações, todas de dentro da mesma escola

Some as vozes do comunicado — dois professores e uma estudante — e todas vêm do mesmo prédio, o que executou o projeto. Nenhuma família foi consultada, nenhum especialista de fora comentou o desenho da atividade, e a própria Sedu, que divulga, é a mantenedora da escola. O relato continua válido; o que ele não é, é auditoria.

Há ainda um problema de prova. O texto afirma aprendizado significativo, protagonismo e avanço em pesquisa, e não sustenta nenhuma dessas três afirmações com número algum: nenhuma nota, nenhuma frequência, nenhum produto contado, nenhuma comparação com o trimestre anterior. O que o comunicado consegue demonstrar é que a atividade ocorreu.

O itinerário formativo é citado e não explicado

A parceria com o itinerário formativo Esporte, Ciência e suas Linguagens entra como parte da estrutura do projeto, e o comunicado em momento algum diz de que se trata esse itinerário, quais estudantes o cursam, quantas aulas ele ocupa ou como ele se encaixou nas disciplinas regulares. Sem conhecer por dentro o arranjo da rede estadual, o leitor fica sem saber se a atividade consumiu tempo de aula comum, de aula eletiva ou de ambos.

Seis lacunas que atravessam o comunicado inteiro

  • Quais países — nenhum é nomeado, e não há sequer um total.
  • Quantos estudantes — fala-se em turmas de 2ª série, no plural, sem dizer quantas turmas nem quantas pessoas.
  • Que datas — a única marcação temporal é o terceiro trimestre letivo, mais uma referência à última semana que já não corresponde a dia nenhum para quem lê depois.
  • Que formato — houve apresentações à comunidade escolar, sem informar se o público foi apenas interno, se os trabalhos ficaram expostos ou se foram registrados em algum lugar.
  • Que produto — cartaz, vídeo, apresentação oral, texto em inglês, maquete? Nada disso está escrito.
  • Que continuidade — nova edição não chega a ser prometida, e encerramento definitivo também não chega a ser dito. Silêncio nas duas direções.

O mesmo formato apareceu antes e depois na rede estadual

Três dias antes desta divulgação, a rede estadual apresentou outro projeto que juntou disciplinas distintas dentro de uma única atividade escolar — sinal de que cruzar áreas era, naquele fim de ano, prática corrente e não invenção de uma escola só. Quase um ano mais tarde, em outubro de 2025, o desenho reapareceu com estudantes que pesquisaram carreiras e expuseram o resultado em murais, em Conceição do Castelo.

Para quem chega até aqui atrás de onde estudar o idioma na rede pública, fica um aviso de calendário: dois meses depois deste projeto, já em fevereiro de 2025, a rede voltaria a abrir inscrições para seus centros de ensino de idiomas. Aquela chamada específica se esgotou, e o material desta reportagem não trata de matrícula nem de vaga.

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