O projeto de realidade aumentada em Muniz Freire descrito abaixo é de dezembro de 2024 e nunca teve desfecho divulgado. Alunos do grupo de Astronomia do Centro Estadual de Ensino Fundamental e Médio em Tempo Integral (CEEFMTI) Bráulio Franco, em Muniz Freire, produziram cartas com QR Codes que abrem, na tela de um celular, modelos tridimensionais de objetos do céu. O trabalho foi batizado de Explorando o Cosmos: Uma Jornada com Realidade Aumentada e teve supervisão do professor de Física Zowguifer Emilio Nolasco dos Anjos.
A primeira coisa que o texto oficial não resolve é o calendário. Ele abre afirmando que a ação representou a escola na Mostra de Astronomia do Espírito Santo, escreve no meio que o projeto foi feito com o objetivo de representar a escola lá, e fecha dizendo que o grupo se destacou na mostra. Entre essas três versões está a fala de um estudante, que descreve a turma como ainda mais animada para o evento — portanto, antes dele. Não há data, não há cidade, não há edição e não há resultado em nenhuma linha do comunicado.
Quem fez o quê: o sujeito da frase é o projeto, não a turma
O título que essa divulgação carregou desde 2024 põe o projeto na função de quem age: é ele que integra astronomia e tecnologia. As pessoas somem da oração. E o corpo do texto oficial repete o mecanismo justamente onde ele mais pesa: a iniciativa foi desenvolvida, sem que se diga por quem, e o projeto resultou na criação das cartas, como se a criação fosse consequência dele e não trabalho de gente.
Nos trechos em que o texto abandona a voz passiva, ele credita os estudantes — e vale ler o verbo exato de cada um. Numa frase da prosa oficial, os alunos aprenderam a criar modelos tridimensionais com dois programas, o Tinkercad e o Blender. Na fala do professor, eles se dedicaram à criação de conteúdos. Na fala do estudante, a turma aprendeu a usar programas de modelagem. Somando as três, o que o material sustenta é que os modelos em três dimensões saíram das mãos do grupo.
A outra metade não se sustenta do mesmo jeito. A camada de realidade aumentada — o que faz o celular ler o QR Code e encaixar o modelo na imagem que a câmera está mostrando — não aparece descrita em momento nenhum. Não há nome de aplicativo, de plataforma, de site nem de serviço, e o comunicado não informa se essa parte foi construída pelo grupo ou se já veio pronta. A diferença muda o tamanho do feito: modelar um objeto e publicá-lo numa ferramenta pronta é uma coisa; escrever a ferramenta é outra.
Esse par tem precedente no arquivo, nos dois sentidos. Em outubro de 2024, dois meses antes desta divulgação e em outro município, estudantes de Conceição do Castelo montaram e programaram protótipos de semáforo com placa eletrônica e impressão 3D, também com o Tinkercad — e ali o relato oficial detalhava etapa por etapa o que coube a cada mão. Já em fevereiro de 2025, depois deste projeto, outra escola estadual entrou na tecnologia pelo lado do uso, com óculos emprestados a uma revisão de Ciências, sem que ninguém ali produzisse o conteúdo exibido. São episódios distintos deste, com outras escolas e outras turmas.
Realidade aumentada em Muniz Freire: como o código quadrado vira planeta na tela
Realidade aumentada, aqui, quer dizer sobrepor um desenho digital à cena real que a câmera do aparelho está captando: o objeto não existe no papel, existe na tela, e se move quando a pessoa move o celular. O QR Code impresso na carta funciona como endereço — ele leva o aparelho até o arquivo. Modelagem tridimensional é a etapa anterior: construir esse arquivo, definindo forma, proporção e superfície do objeto.
O comunicado cita dois programas usados nessa etapa e não diz o que coube a cada um, se um serviu de rascunho para o outro, nem se a escola paga licença por eles. Também não informa quantos aparelhos a turma tinha à disposição para testar o resultado.
A astronomia que o texto anuncia e não conta
As cartas trazem informações sobre cientistas, planetas e outros objetos astronômicos. É só isso que se sabe. Nenhum cientista é nomeado, nenhum planeta é citado, nenhum objeto é identificado, e não há uma linha sobre que conteúdo de astronomia a turma estudou para escrever as cartas. Esta reportagem não vai preencher a lacuna por fora: o material descreve o que a escola fez, e é isso que ele entrega. O que a escola ensinou, ele não diz.
Iniciativa de uma unidade, sem sinal de programa de rede
O grupo de Astronomia pertence à escola, e o projeto nasceu para um evento. Nenhuma linha do comunicado o liga a uma política estadual: não se lê orçamento, quantidade de unidades atendidas, cronograma, portaria, edital nem instrução vinda de fora do prédio. Um professor supervisiona, uma turma trabalha, e é esse o tamanho declarado. Computadores, celulares e eventuais licenças de programa entram na história sem dono e sem preço — ninguém informa se a escola comprou, ganhou, alugou, ou se o aparelho usado era o que o próprio aluno já tinha no bolso.
Indicador também não há. O texto credita à atividade o desenvolvimento de competências como pesquisa científica, design digital, resolução de problemas e trabalho colaborativo. Essa palavra abre a relação sem fechá-la: podem ter existido outras, e não se sabe quantas eram. Nenhuma das quatro vem acompanhada de prova, nota, número de participantes ou qualquer medição. Todas essas afirmações partem de quem montou a atividade, e nenhuma voz externa aparece no texto: falta o avaliador, falta quem organiza a mostra, falta outra escola que tenha estado no evento e falta o estudante que ficou fora do grupo.
O que o professor disse diante do trabalho pronto
A tecnologia foi uma grande aliada na educação. Os alunos se dedicaram à criação de conteúdos que não só reforçam conceitos de astronomia, mas também mostram o impacto da modelagem computacional no aprendizado. É emocionante ver o brilho nos olhos deles enquanto apresentam o trabalho
Zowguifer Emilio Nolasco dos Anjos, o professor de Física que supervisionou o grupo, falava com as cartas já prontas e com os alunos apresentando o resultado — o verbo dele está no presente. O que a frase carrega é a impressão de quem conduziu a atividade, e não a conclusão de alguma avaliação.
Participar desse projeto foi uma experiência única. Aprendemos muito sobre astronomia e também como usar programas de modelagem. Ver o resultado em realidade aumentada foi muito gratificante e nos deixou ainda mais animados para a Mostra de Astronomia
Um estudante do grupo de Astronomia contou isso ao relatar o que tinha visto funcionar na tela. A última linha do depoimento é o indício mais forte de que a mostra ainda não havia acontecido quando o texto oficial foi escrito — e ela conflita com a abertura e com o fecho do mesmo comunicado, que falam do evento no passado. O material não concilia as duas leituras, e esta reportagem não escolhe por ele.
Para efeito de calendário, o arquivo do portal registra que, em outubro de 2024, estudantes de Sooretama apresentaram trabalhos de pesquisa numa mostra estadual de astronomia — outra escola, outro grupo, e uma edição que o comunicado de Muniz Freire não menciona. Serve de referência de época, não de resposta.
Por que o nome do estudante não está nesta reportagem
A divulgação oficial identifica quem assina o depoimento acima. Aqui ele aparece pela função, e isso é decisão de redação, não falha de apuração. Cartas feitas por um grupo inteiro são obra coletiva, e o crédito, quando existe, é do conjunto — tanto que o comunicado nem informa quantos alunos participaram, o que impede até a contagem. Um nome próprio colado a uma única escola e a um único projeto vira endereço permanente de busca, e o leitor não ganha nada com ele. O depoimento saiu publicado do jeito que foi dito, sem tesoura no meio — o que trocou foi a linha de crédito. Com o professor a conta é outra: ele conduziu o projeto dentro do próprio trabalho, e quem opina sobre o resultado de uma atividade escolar precisa estar identificado para responder por essa opinião.
Nem quantos alunos, nem quando: o que ficou vago
- Quantos estudantes. O grupo de Astronomia não tem tamanho declarado, e não se sabe de que anos escolares vieram os participantes.
- Quantas cartas. O número de peças produzidas não aparece, nem o que cada uma traz.
- Quando e onde. A Mostra de Astronomia do Espírito Santo não tem data, cidade, local nem edição informados.
- Se houve disputa. Não há avaliação, colocação, medalha nem menção a classificação de espécie alguma — o texto não descreve competição.
- Como o QR Code vira modelo. Nenhum aplicativo, plataforma ou serviço é nomeado.
- Se dá para ver o resultado. Não foi divulgado endereço, exposição, arquivo, versão digital nem qualquer forma de alguém de fora abrir as cartas.
- Quem pagou. Equipamentos, aparelhos e licenças aparecem sem origem e sem valor.
- Se continuou. Nenhuma edição seguinte foi anunciada, e nenhuma foi descartada: sobre o depois, ninguém se pronunciou.
Muniz Freire voltou a aparecer nos comunicados estaduais bem mais tarde, e por outro assunto: em fevereiro de 2026, mais de um ano depois deste projeto, a pavimentação da ES-379 chegou à fase de edital autorizado, ainda sem data de obra. É assunto independente deste, e não retoma a escola nem o grupo de astronomia.
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