A entrega descrita aqui aconteceu numa quarta-feira (11) de dezembro de 2024, e esta página está no ar desde o dia 13 daquele mês — o que se lê a seguir é registro, não convite a nada. A Secretaria da Justiça (Sejus) levou 570 bonecas de pano à Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Leonel de Moura Brizola, no bairro Das Laranjeiras, na Serra. As peças foram costuradas dentro do Centro Prisional Feminino de Colatina (CPFCOL), por mulheres privadas de liberdade que trabalham no projeto de ressocialização Doando Sorrisos.
O artesanato tem nome próprio na unidade: Manuzinha. E há um detalhe que o comunicado registra sem desenvolver — a matéria-prima usada na produção foi doada pela própria escola que recebeu as bonecas prontas. O texto oficial cabe em seis parágrafos, e o que ele não conta é justamente o trabalho: quem fez, em quanto tempo, em que condições.
570 conta bonecas de pano; o comunicado nunca conta meninas
O primeiro parágrafo do material oficial fala em peças entregues a crianças da escola. A direção da unidade prisional descreve outra coisa: as bonecas contemplaram todas as meninas. E o mesmo texto informa que a escola recebeu, de outros parceiros que não são identificados, pipas destinadas ao público masculino. São duas distribuições distintas, de origens distintas, no mesmo dia — e só uma delas veio do sistema prisional.
Daí a conta que não se pode fazer. O 570 é a quantidade de bonecas entregues: não é o número de meninas atendidas, não é o total de estudantes da escola e não é o total de peças que o projeto produziu. Quantas meninas estudam na EMEF Leonel de Moura Brizola, em que faixa etária e em quantas turmas, o material não diz em momento algum. Dividir um número pelo outro produziria uma estatística que ninguém publicou.
A única fala que sobrou é da direção, não de quem costurou
“Conseguimos contemplar todas as meninas da escola, em um trabalho conjunto com a direção e comunidade escolar. Foi um dia emocionante, pois as crianças estavam muito ansiosas para receber as bonecas, e fizeram várias cartinhas de agradecimento pelo nosso gesto. Com certeza fomos nós quem ganhamos muito mais com o sorriso de cada criança presenteada”
Dayany Rodrigues de Queiroz, diretora do Centro Prisional Feminino de Colatina, descreveu o dia nesses termos, no comunicado da secretaria. Vale reparar no sujeito da frase: o gesto e o ganho aparecem na primeira pessoa do plural, e esse plural é o da instituição. Quem cortou o tecido e costurou as 570 peças não fala em nenhuma linha do material — nem sobre a tarefa, nem sobre o que ela representou. É a lacuna mais alta do texto, e ela não é acidental: releases de secretaria costumam ouvir quem dirige, não quem executa.
Trabalho pago, efeito na pena, ou nenhum dos dois? O comunicado não entra no assunto
É a pergunta central sobre o que aconteceu ali, e o material oficial passa longe dela, nos dois sentidos possíveis. Ele não informa se as mulheres que costuram no projeto Doando Sorrisos recebem alguma coisa pelo que produzem, sob que critério, nem de que orçamento sairia esse dinheiro; não descreve jornada e não menciona nenhuma repercussão da atividade sobre a pena de quem participa. Não afirma que existe e não afirma que não existe: simplesmente não trata do tema.
Calar sobre um assunto não é o mesmo que negá-lo, e esta página não vai tapar o buraco explicando de cabeça como um mecanismo desses funcionaria em tese. O que interessa é o que a secretaria informou sobre este caso, e sobre este caso ela nada informou. Ficam sem resposta, na mesma linha: como se entra no projeto, se há seleção ou fila, se existe oficina ou curso antes de começar a costurar, se sai dali algum certificado reconhecido fora da unidade, e quantas mulheres participam ao todo.
A escola doou o pano e recebeu a boneca pronta
É a informação mais incomum do comunicado e a que ele menos desenvolve. A escola contribuiu com doações de matéria-prima para a produção da Manuzinha, e depois recebeu as peças acabadas. Não há no texto o volume doado, o custo, quem comprou o que faltou — linha, enchimento, agulha —, nem se esse arranjo se repete nas outras doações do projeto. Faltando esses dados, fica impossível separar o que a produção custou ao Estado do que custou à comunidade escolar, embora o resultado seja apresentado inteiro como doação da secretaria.
Mais de 3.300 doações, num ano que o texto não nomeia
O comunicado fecha com um balanço: somente naquele ano, a unidade prisional teria realizado mais de 3.300 doações de artesanato produzido ali dentro a diversas instituições do Estado. Três cuidados de leitura vêm juntos:
- o período — o texto escreve apenas este ano, sem nomear qual; a publicação é de dezembro de 2024, mas o recorte nunca é declarado;
- a unidade de contagem — 3.300 doações não são 3.300 peças, nem 3.300 instituições atendidas, nem 3.300 pessoas; o material não converte uma coisa na outra em lugar nenhum;
- a forma da cifra — mais de declara um mínimo, e o total verdadeiro não aparece.
A relação de itens também não fecha: bonecas, fantoches, brinquedos educativos e jogos para recreação entram no texto como exemplos do que já foi doado, e exemplo é amostra — o inventário completo nunca aparece. E as instituições que receberam não são nomeadas, nem contadas.
Ressocialização é a palavra do comunicado; medida não há nenhuma
O projeto aparece rotulado como iniciativa de ressocialização, e a direção da escola credita à doação efeitos no desenvolvimento emocional, social e educativo das crianças. Nenhuma das duas afirmações vem com um número atrás. Não se sabe quantas mulheres passaram pelo Doando Sorrisos desde que ele existe, que renda o trabalho gera, quantas concluíram alguma formação, nem o que acontece depois da saída da unidade. Do lado da escola, não há indicador algum do que a entrega mudou na rotina escolar. A entrega é um ato realizado — o resultado é outra coisa, e ninguém o mediu neste material.
A continuidade também fica em aberto. Não há meta, verba, calendário nem qualquer promessa de nova edição: o único sinal de que a produção segue é o balanço das doações do ano, que fala do passado. Sobre voltar a atender esta escola, ou qualquer outra, o comunicado se cala.
Quem assina o comunicado administra a unidade e o projeto
O texto de origem saiu da Secretaria da Justiça, que responde pela unidade prisional e pelo projeto, e as duas pessoas ouvidas dirigem justamente as instituições envolvidas: a escola que recebeu e a unidade que produziu. Ninguém de fora avalia o arranjo — não aparecem as mulheres que costuraram, as famílias das crianças, o município que mantém a escola nem qualquer instância de acompanhamento da execução penal. Isso não desmente o que está informado; delimita o que o material consegue sustentar sozinho.
Duas decisões de edição nesta reescrita, com o motivo de cada uma
Nenhuma pessoa privada de liberdade é identificada aqui — sem nome, sem apelido, sem idade e sem qualquer dado que, somado ao nome da unidade, apontasse uma delas. O texto de origem tampouco identificava alguém, e a regra valeria de todo modo: ninguém entra numa unidade prisional escolhendo aparecer no noticiário, e uma página indexada continua sendo encontrada muito depois de a pena acabar. As crianças da escola, pela mesma razão, não aparecem nomeadas nem descritas. Os nomes que ficam são os de duas profissionais que respondem publicamente pelas instituições que dirigem.
Ficou de fora também a fala da direção da escola. Ela agradece e atribui à doação efeitos no desenvolvimento das crianças, sem apresentar qualquer medida desses efeitos — o que ela afirma está resumido acima, em discurso indireto, que é o lugar certo de uma avaliação sem dado.
O que o portal já registrou sobre trabalho e estudo dentro do sistema prisional
Um mês antes desta entrega, o portal registrou uma aula de educação ambiental dada no canteiro de uma horta, em outra unidade prisional do Estado, para uma turma de estudantes adultos — projeto diferente, unidade diferente, público diferente. Quatro meses antes, o caminho tinha sido o inverso do desta página: uma escola estadual levou jogos educativos para dentro de uma unidade prisional, numa atividade recreativa e pedagógica montada na quadra.
Já a costura voltaria ao noticiário dois meses depois das bonecas, com a produção de bandanas pet numa oficina de costura montada em outra unidade prisional. Aquilo é posterior ao que se lê aqui, tem outro produto e outro destino — e chegou ao portal com as mesmas perguntas sobre pagamento sem resposta no material oficial.
O que a Sejus não informou sobre as 570 bonecas de pano
- quantas mulheres costuraram, durante quanto tempo e sob que jornada;
- se o trabalho é remunerado, quanto se paga e quem paga;
- se participar do projeto muda alguma coisa na pena de quem costura;
- se houve oficina, curso ou formação antes da produção, e se ela gera certificado;
- quanto de matéria-prima a escola doou e quem custeou o restante;
- quantas meninas foram atendidas, de que idade e em quantas turmas;
- quem são os outros parceiros que doaram as pipas entregues no mesmo dia;
- de que ano são as mais de 3.300 doações e o que exatamente elas contam;
- se há meta, orçamento, calendário ou nova edição prevista para o projeto.
Nada disso foi inventado aqui, e nada disso está no comunicado. Quem tem as respostas é a pasta que administra o Centro Prisional Feminino de Colatina, de um lado, e a rede municipal de ensino da Serra, que mantém a EMEF Leonel de Moura Brizola, de outro.
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