Projeto Costurando o Futuro fez bandanas pets em Vila Velha — Direto Notícias

Projeto Costurando o Futuro fez bandanas pets em Vila Velha

O fato descrito aqui é de fevereiro de 2025, e o texto oficial que o anunciava foi escrito antes de ele acontecer. Cerca de 130 bandanas para animais de estimação foram feitas na fábrica de costura instalada dentro da Penitenciária Estadual de Vila Velha 1 (PEVV1), pelo projeto Costurando o Futuro, coordenado pela Secretaria da Justiça (Sejus). As peças foram produzidas em parceria com a Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Seama), que forneceu os tecidos e os aviamentos, para serem distribuídas no lançamento do 2º Ciclo do Programa Estadual de Bem-estar Animal, conhecido como Pet Vida, marcado para o domingo (09) daquele mês, no Parque Cultural Casa do Governador, na Praia da Costa.

O comunicado oficial é de dois dias antes do evento e fala no tempo futuro: as bandanas seriam entregues no lançamento. Nada no material confirma que a entrega ocorreu, quantas peças chegaram ao público nem como foram distribuídas — se por ordem de chegada, se atreladas a alguma atividade do programa. A página do portal seguiu anos no ar anunciando um domingo que já passou.

O número 130 conta peças, não pessoas

Cerca de 130 é a quantidade de bandanas. Não é a quantidade de gente que costurou. O texto oficial não diz quantas pessoas trabalham na fábrica da PEVV1, quantas participaram desta encomenda, quantos postos de trabalho o projeto mantém no Estado nem em quantas unidades prisionais existem fábricas como essa. Antes de repetir um número, vale perguntar o que ele conta: nesta frase, ele conta tecido cortado e costurado.

Também não há prazo. Não se sabe se as peças saíram em um dia, em uma semana ou ao longo de um mês, e sem isso não dá para dimensionar o esforço nem comparar a encomenda com a produção de uniformes que o projeto mantém o ano inteiro.

Os verbos do comunicado descrevem o projeto, não a tarefa

O material usa duas formas para dizer a mesma coisa: as pessoas presas estão produzindo as bandanas e as peças foram confeccionadas por meio do projeto. Na segunda, quem faz some da frase e o crédito vai para o programa. Nenhuma das duas descreve uma tarefa concreta: não há menção a corte de tecido, modelagem, costura, acabamento, embalagem ou conferência das peças, nem informação sobre quem desenhou o modelo da bandana — se veio pronto da Seama, se foi criado dentro da fábrica.

Esta página não identifica ninguém, e não é por falta de dado: o comunicado oficial também não traz nome algum. Ainda assim vale o critério — quem cumpre pena não escolheu virar notícia, e um endereço indexado continua acessível muito tempo depois de a pena terminar. Por isso não aparecem aqui nome, unidade atribuída a uma pessoa específica, tipo de crime, tempo de pena nem circunstância pessoal de quem quer que seja. O rótulo internos, usado pelo material oficial e pelo título antigo desta página, só aparece quando é preciso explicar a linguagem do órgão.

Sobre pagamento e efeito na pena, o comunicado é mudo

É a lacuna que decide se a notícia serve a quem a lê. O material não responde a nada disto:

  • o trabalho é remunerado? Se é, quanto se paga — por peça, por dia ou por mês?
  • quem paga: a Sejus, a Seama, outra fonte?
  • há algum efeito no cumprimento da pena de quem costura? O comunicado não menciona a hipótese, em nenhum sentido;
  • existe vínculo formal, registro, recolhimento previdenciário, cobertura em caso de acidente?
  • como se entra na fábrica: há seleção, fila de espera, exigência de escolaridade ou de experiência anterior com costura?
  • há formação antes de começar, e ela gera certificado que valha do lado de fora?
  • a jornada tem duração definida?

Silêncio não é negativa: o comunicado não afirma que o trabalho é gratuito nem que é pago. Ele não trata do assunto, e não cabe a esta página inventar a resposta. São perguntas para a secretaria que coordena o projeto.

As bandanas foram distribuídas, não vendidas

Pelo que o texto oficial descreve, não houve comércio: as peças foram feitas para serem entregues no lançamento do programa de bem-estar animal, com insumos de uma secretaria e mão de obra da fábrica mantida por outra — dinheiro público circulando entre dois órgãos do mesmo governo. O material não informa o custo dos tecidos e aviamentos, não menciona empresa privada envolvida na encomenda e não diz se o projeto vende alguma coisa a alguém em outras ocasiões. Falta, portanto, saber se o arranjo gera alguma receita e, se gerar, a quem ela caberia.

O projeto Costurando o Futuro faz todo o uniforme prisional do Estado

A produção permanente do projeto Costurando o Futuro é maior que a encomenda de fevereiro: segundo o comunicado, ele responde por todo o uniforme usado pela população prisional do Estado. O material afirma ainda que o projeto já fez doações a comunidades com o resíduo têxtil que sobra das fábricas de costura, e cita entre os itens entregues peças infantis — camisas, bermudas, conjuntos de frio —, além de mochilas e camas pets.

A palavra entre importa: a relação é uma amostra, não o inventário completo. O texto não diz quanto já foi doado, para quem, em que municípios nem em que período.

Atividade contada, resultado não medido

O comunicado apresenta uma oficina em funcionamento — e oficina em funcionamento é insumo, não resultado. Não aparece um indicador do que o trabalho produz na vida de quem trabalha: nada sobre reincidência, sobre emprego depois da saída, sobre renda gerada, sobre quantas pessoas passaram pela fábrica desde que ela existe. O texto também não diz desde quando a fábrica da PEVV1 opera.

Outras atividades ocupacionais dentro do sistema prisional capixaba já foram registradas pelo portal com a mesma lacuna. Três meses antes desta produção, estudantes adultos cuidavam de uma horta cultivada dentro de outra unidade prisional capixaba — outro projeto, em outra unidade e em outro município. Cinco meses depois, houve um curso de qualificação profissional oferecido a estudantes adultos no sistema prisional, em Barra de São Francisco, fato posterior ao desta página.

Quem assina o comunicado também é parte

O texto original saiu da área de comunicação da Sejus, a secretaria que coordena o projeto, e apresenta a Seama como parceira. Os dois lados do arranjo são órgãos do mesmo governo estadual, e a divulgação serve às duas pastas: uma mostra trabalho acontecendo dentro da unidade prisional, a outra mostra o lançamento do seu programa de bem-estar animal. Não há no material ninguém de fora avaliando o projeto, e não há uma frase entre aspas — nem de quem coordena, nem de quem costura, nem de quem recebeu as bandanas.

O lançamento estava marcado para o Parque Cultural Casa do Governador, na Praia da Costa. O portal publicou dois meses depois um panorama da agenda anual desse mesmo parque, útil para quem quer saber o que costuma acontecer por lá.

O que a Sejus ainda não disse sobre a fábrica da PEVV1

As lacunas de um comunicado de 151 palavras, reunidas: quantas pessoas costuram, desde quando, sob que jornada, com ou sem pagamento, com ou sem vínculo, com ou sem repercussão no cumprimento da pena, com que resultado medido depois — e se as bandanas chegaram mesmo às mãos de alguém no domingo (09) de fevereiro de 2025. Nenhuma dessas respostas está no material oficial, e nenhuma delas foi inventada aqui.

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