Estudantes da 2ª série do Ensino Médio da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Maria de Novaes Pinheiro, em Viana, assistiram a filmes que tratam de racismo estrutural, discutiram o que viram e gravaram vídeos em que falam para a câmera sobre o assunto. O trabalho foi batizado pela escola de Cenas que Gritam. No projeto Cenas que Gritam, os grupos não fizeram cinema: eles usaram filmes já existentes como ponto de partida e produziram os próprios vlogs.
A fase é esta: os vídeos estavam prontos e ainda não tinham sido exibidos. O aviso da Sedu que divulgou o trabalho diz que os vlogs passaram a compor uma série que seria compartilhada dentro do ambiente escolar. Não há, no material, anúncio de sessão aberta ao público, de publicação na internet ou de convite a famílias — e nada indica se a exibição interna chegou a acontecer.
O que os estudantes fizeram no projeto Cenas que Gritam
A sequência descrita pela secretaria é curta e tem três etapas. Os estudantes assistiram a filmes; relacionaram o que assistiram às próprias vivências e à realidade social em que vivem; e gravaram, em grupos, vlogs a partir dessa conversa. É esse conjunto de vídeos que forma a série.
Os temas dos filmes escolhidos estão nomeados: violência policial, identidade negra, ancestralidade africana e luta por igualdade. Nenhum título de filme aparece no material. Também não há informação sobre quantos filmes foram vistos, se a exibição ocorreu em sala ou fora do horário de aula, nem se os estudantes escolheram a lista ou a receberam pronta.
Vale separar duas coisas que o vocabulário do aviso mistura. Vlog é o vídeo em que a pessoa fala em primeira pessoa para a câmera, no formato de diário — é o que os estudantes produziram. Letramento crítico e protagonismo juvenil são termos do vocabulário escolar: o primeiro descreve ler e assistir questionando o que a obra afirma, e não apenas entendendo o enredo; o segundo, colocar o estudante como quem conduz a atividade, em vez de apenas receber conteúdo. O material usa os três termos sem explicar nenhum.
A escolha de filmes que tratam do racismo estrutural foi um passo importante para que os estudantes pudessem enxergar o cinema como ferramenta crítica e transformadora. Ver cada vlog sendo gravado foi como assistir a sementes de consciência sendo lançadas
A avaliação é do professor responsável pelo projeto, Cristiano Loiola. O aviso não informa qual disciplina ele leciona nem se outros professores participaram da condução do trabalho.
O elo com a literatura: Castro Alves em sala
O projeto não parou no audiovisual. Segundo a secretaria, ele dialogou com a Terceira Geração Romântica e, dentro dessa corrente literária, com os poemas de Castro Alves em particular. Pelo que diz o próprio texto oficial, os versos desse autor faziam denúncia do regime escravista e da desigualdade social de sua época. A ideia trabalhada com a turma foi a de que o discurso artístico funciona como forma de resistência tanto no passado quanto hoje.
Aqui também falta o detalhe que permitiria a outra escola repetir a experiência: o material não diz quais poemas foram lidos, em que disciplina a parte literária entrou, nem quanto tempo o projeto ocupou do ano letivo.
A gente sabia que o racismo era algo sério, mas quando a gente assistiu ao filme e começou a falar sobre isso no nosso vlog, eu percebi que ele também faz parte de coisas pequenas do dia a dia
Quem diz é um dos estudantes que participaram da gravação.
Por que o estudante não aparece identificado
O próprio aviso oficial não traz o nome de nenhum estudante — atribui a fala apenas a um participante do projeto. A prática desta reportagem é a mesma em qualquer caso: nome de estudante da educação básica não se publica, ainda que a fonte o divulgue e ainda que o contexto seja elogioso. Nome somado a escola, série e município aponta uma pessoa dentro de uma turma pequena, e esse registro fica indexado para sempre. O nome do professor fica, porque ele responde pela iniciativa como profissional.
Quem faz o quê, segundo o material — e o que o título original dizia a mais
Vale reparar em quem é o sujeito de cada frase do texto oficial, porque ele muda ao longo do aviso. A abertura credita o resultado ao projeto da escola, apresentado como quem reúne três frentes: a produção artística, a leitura literária e o letramento crítico. O corpo credita aos estudantes, que desenvolveram o projeto e produziram os vídeos. E a fala do professor credita à escolha dos filmes o passo que permitiu aos estudantes enxergar o cinema de outro jeito. São três atribuições diferentes para a mesma iniciativa, e o material não as concilia.
O título com que este texto foi publicado até aqui afirmava mais que o aviso. Ele dizia que os estudantes transformaram o cinema em ferramenta de combate ao racismo. A palavra combate não aparece uma única vez no texto da secretaria, que fala em reflexões sobre o racismo estrutural e em consciência social. A palavra ferramenta, por sua vez, vem de dentro da fala do professor, onde ela é ferramenta crítica e transformadora — não ferramenta de combate. É uma diferença de tamanho, não de estilo.
O que o material da Sedu não informa
- Quantos estudantes participaram e em quantos grupos se dividiram — o texto fala em turma de 2ª série e em grupos, sem número.
- Quais filmes foram assistidos, e quantos.
- Quando o projeto começou e quando terminou, e quanto tempo do ano letivo ocupou.
- Se os vlogs chegaram a ser exibidos na escola, e em que formato.
- Se os vídeos ficam restritos à escola ou vão ao ar em alguma página pública.
- Se o trabalho se repete em outras turmas ou em outro ano — não há qualquer anúncio de continuidade.
- Se a atividade valeu nota ou entrou em alguma disciplina específica.
- Se houve orientação sobre autorização de imagem para gravar e exibir os vídeos.
Também vale registrar de onde vem o relato: é comunicação oficial da secretaria, sobre uma escola estadual — ou seja, o divulgador e o divulgado estão do mesmo lado. Não há no material avaliação externa, voz de família nem qualquer contraponto — e ausência de crítica em texto de divulgação não é o mesmo que consenso.
Cinema na escola não é caso isolado na rede
Projeto que usa audiovisual como material de sala já tinha aparecido em outra escola pública, num arranjo diferente: em dezembro de 2024, estudantes de Vitória produziram curtas-metragens em um projeto de cinema escolar — ali os filmes foram feitos pelos próprios alunos, o contrário do que aconteceu em Viana, onde o ponto de partida foram filmes já prontos. São outra turma, outra cidade e outro projeto, sem relação declarada entre os dois.
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