Cinco unidades do biodigestor sertanejo estão em funcionamento na zona rural de Linhares, em comunidades de agricultura familiar, transformando o esterco e a urina do rebanho em gás de cozinha e em adubo líquido. Em duas das casas apresentadas no comunicado oficial, a compra do botijão parou. O registro é do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), que tocou o projeto com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), e foi divulgado em 3 de setembro de 2025, quando o projeto já havia terminado — e o texto nunca voltou para contar o que foi feito das cinco instalações depois disso.
Sobre o funcionamento, quem abastece os aparelhos fala com detalhe: um agricultor que usa o sistema desde 2023, outro que soma um ano e meio, uma família que conta mais de um ano sem gastar com gás. Fora daí o comunicado emudece — quanto custa o aparelho, quem pagou pelos cinco e o que um vizinho faria hoje para ter o sexto ficam todos sem resposta.
Cinco equipamentos, três casas ouvidas, e nenhum endereço para cada aparelho
A distribuição sai detalhada por comunidade e por tipo de dejeto:
- três no Assentamento Sezínio Fernandes de Jesus, sendo um alimentado com esterco de suíno e dois com esterco bovino;
- dois no Córrego Jacutinga, distrito de Farias, que recebem dejetos de carneiro e de suíno.
As duas comunidades são descritas como lugares com experiências agroecológicas, expressão que o texto usa sem explicar.
O número conta equipamento, não gente e não propriedade. O comunicado apresenta três casas — a de André Agostini, a de Valdeci Campin e uma família do Córrego Jacutinga — e em nenhum momento diz qual delas opera qual dos cinco aparelhos, nem quantas pessoas ao todo cozinham com o gás produzido. Cinco instalações podem atender cinco famílias, mais ou menos que isso: essa conta o material não faz e não oferece elementos para fazer.
Esterco, água e fermentação: até onde o material explica o biodigestor sertanejo
A descrição do funcionamento cabe numa frase do comunicado: joga-se dentro do aparelho esterco diluído em água, o material fermenta e de lá saem dois produtos, apresentados como os principais — o biogás, que segue canalizado até o fogão, e o biofertilizante, que vai para a lavoura. O adjetivo principais deixa a enumeração aberta, e nenhum outro subproduto é mencionado em lugar nenhum do texto.
O que fica sem explicação é justamente o sobrenome da tecnologia. O comunicado chama o modelo de sertanejo, classifica-o como tecnologia social e o descreve como simples de montar e de tocar no dia a dia, mas não conta de onde vem o nome, o que distingue esse desenho de outros biodigestores nem quem o desenvolveu. Ficam de fora também a proporção da mistura de esterco e água, a frequência com que o aparelho precisa ser abastecido, o intervalo entre o abastecimento e o gás, e a manutenção que ele exige. Quem lê termina sabendo o que o equipamento entrega, não como se convive com ele.
O único dado dimensional é a capacidade: a versão que chegou a Linhares suporta até 8 metros cúbicos de dejetos, e o texto informa que há modelos maiores, destinados a criações de porte. Capacidade de dejeto não é volume de gás — o material não converte uma coisa na outra, não diz quantas horas de fogão uma carga rende nem quantos animais são necessários para manter o aparelho alimentado. O único rebanho quantificado é o de Agostini: mais de 100 animais entre suínos e aves.
O que os equipamentos já devolveram, segundo quem os abastece
André Agostini é o primeiro dos beneficiados que o comunicado apresenta e o caso mais antigo dos cinco. Ele usa o sistema desde 2023; o gás que sai do biodigestor é canalizado para a casa da mãe dele, e o biofertilizante vai para a horta e para as frutíferas da família.
Desde que implantamos o biodigestor, não precisamos mais comprar gás de botija. O sistema é eficaz, dá destino correto aos dejetos e ainda reduz despesas com adubação
Agostini falava do próprio quintal, e o verbo que ele usa — implantamos, na primeira pessoa do plural — é a única pista do material inteiro sobre quem pôs a mão no equipamento. O comunicado descreve a instalação dos cinco em voz passiva, sem sujeito: eles foram implantados, e quem os implantou não aparece.
O segundo relato traz cifra. Valdeci Campin adotou a tecnologia depois e já acumulava um ano e meio de uso; pela conta que ele mesmo faz, deixou de gastar por volta de R$ 2.500 em gás de cozinha nesse período. O número é estimativa do agricultor, e assim o comunicado o apresenta: não há fatura, série de consumo nem período fechado por trás dele, e ele vale para uma propriedade, não para as cinco.
Funciona bem, nunca deu problema, não tem mau cheiro. E ainda tem o fertilizante, que uso na horta, na pimenteira-do-reino e no café
Campin enumera aí três destinos do adubo dentro da propriedade dele, e é o único no material a mencionar o café. Ele fala de um equipamento que opera há menos tempo que o de Agostini e mais que o da terceira casa.
No Córrego Jacutinga, quem respondeu pela casa foi uma moradora, e ela mede o resultado pelo calendário em vez de pelo valor:
Não gastamos com gás de cozinha há mais de um ano
O comunicado identifica essa família pelo primeiro nome do casal e pelo apelido dela; aqui ela aparece sem nome, porque a economia doméstica que relata não depende de quem seja — e porque, diferentemente dos dois agricultores nomeados acima, o material não descreve a propriedade nem o trabalho dela.
Custo acessível sem preço: quem bancou os cinco não aparece
A informação sobre dinheiro é qualitativa e para por aí. O extensionista Daniel Duarte, do Incaper, responsável pelo projeto, descreve o biodigestor sertanejo como tecnologia de custo inicial acessível. Acessível a partir de qual valor e para qual bolso, o texto não diz: não há preço de equipamento, custo de instalação, custo de manutenção nem valor do projeto em nenhuma linha do comunicado.
Falta também a resposta seguinte, que é quem bancou os cinco. O material informa apenas que os cinco aparelhos saíram de um projeto do instituto, bancado pela Fapes, e encerra o assunto. Não diz se o dinheiro da fundação cobriu os aparelhos, o acompanhamento técnico, o estudo ou tudo junto; não menciona contrapartida dos agricultores, crédito rural, doação de material nem trabalho das próprias famílias na obra. Sobre a mão que construiu, o texto oficial só tem a voz passiva; sobre a conta, nada.
Pesquisa financiada por dinheiro de fora do orçamento do instituto é rotina, e o desfecho costuma ficar de fora do anúncio: em outubro de 2024, o mesmo instituto divulgou oito projetos aprovados para a cafeicultura capixaba cujo repasse ainda dependia da assinatura de instrumentos — episódio anterior a este, de outra linha de trabalho e sem ligação com os biodigestores.
Quem ensinou não está descrito, e o caminho para o sexto biodigestor também não
O comunicado nomeia um responsável técnico e nada mais sobre transmissão de conhecimento. Não há menção a curso, oficina, dia de campo, cartilha, visita periódica de assistência técnica, parceria com escola agrícola ou com universidade. Não se sabe se os agricultores foram treinados para operar o aparelho, se aprenderam com o uso ou se alguém acompanha as instalações hoje.
Para o produtor que tem esterco sobrando e conta de gás para pagar, a dúvida prática segue sem resposta: o material não indica nenhum caminho para o agricultor que queira instalar um biodigestor. Não traz escritório, telefone, endereço eletrônico, formulário, edital, lista de espera nem critério de seleção — e não diz se ainda há alguém recebendo pedido, já que o projeto que bancou os cinco terminou. Escrever aqui um canal de inscrição seria fabricar serviço que ninguém ofereceu.
O instituto mantém unidades municipais que atendem produtor rural, e elas seguem em atividade: vinte dias depois deste registro, uma delas, em outro município capixaba, promoveu um intercâmbio entre produtores sobre uso e processamento de plantas medicinais — ação posterior a esta, de outro tema e sem relação com os biodigestores, citada apenas para mostrar por onde o atendimento do instituto costuma passar. Nada ali funciona como balcão de biodigestor, e o comunicado tampouco sugere que funcione.
O projeto acabou; o que ficou prometido é estudo, não equipamento novo
O último trecho do comunicado desmancha boa parte da leitura otimista que o resto sugere. O projeto financiado pela Fapes já estava concluído quando o texto saiu, e o que o instituto sinaliza adiante não é instalar mais aparelhos: é estudar mais a fundo os bioinsumos que saem dos biodigestores, para chegar a recomendações técnicas de adubação com esse material, ajustadas ao que a agricultura familiar capixaba de fato pratica.
Esse estudo aparece sem financiador, sem prazo, sem equipe e sem data para as tais recomendações. E sobre novos equipamentos no campo o comunicado não afirma e não nega: cala. Quase um ano se passou desde a divulgação sem que o comunicado ganhasse linha nova: ele congela o quadro de setembro de 2025.
A agricultura familiar capixaba que aparece nesse fecho é a mesma que o poder público alcança por outras vias, com resultados que também chegam ao noticiário em percentual: em janeiro de 2025, uma divulgação oficial tratou de quanto do dinheiro da alimentação escolar da rede pública foi gasto em compras de pequenas propriedades e agroindústrias — episódio anterior a este, de outra área e sem ligação com o projeto dos biodigestores.
Cinco instalações, uma só voz técnica
Quem redigiu e distribuiu o comunicado é a comunicação do próprio instituto que executou o projeto, e toda avaliação de qualidade no texto parte de quem o executou ou de quem recebeu o equipamento. O único técnico ouvido é o responsável pelo projeto:
Além de gerar economia, o biodigestor ajuda a diminuir a poluição, reduzir emissões de gases de efeito estufa e melhorar a qualidade da água e do solo
Duarte descrevia ali a tecnologia em geral, não as cinco unidades de Linhares: nenhuma medição de emissão, de qualidade de água ou de solo aparece no material para amarrar a frase às propriedades visitadas. O mesmo vale para as vantagens agronômicas atribuídas ao biofertilizante — menos insumo industrial comprado, menos praga na lavoura e mais equilíbrio biológico no solo —, que o texto enfileira depois de um entre os benefícios — fórmula que abre a lista sem encerrá-la. Nenhuma das três vem acompanhada de número.
De fora do projeto, ninguém foi consultado: nenhum agricultor que tenha desistido do equipamento ou tido problema com ele, nenhum vizinho de propriedade incomodado, nenhum órgão ambiental, nenhum pesquisador de outra instituição. O comunicado também não registra dificuldade alguma — nas cinco instalações, tudo o que ele conta deu certo.
O que falta para o leitor que tem esterco sobrando
- o preço de um biodigestor sertanejo, e qual parte dele caberia ao agricultor;
- quem construiu e instalou os cinco de Linhares, e em quanto tempo;
- quanto custou o projeto financiado pela Fapes e o que exatamente o dinheiro cobriu;
- quantas famílias e quantas pessoas são atendidas pelas cinco instalações;
- quanto gás rende uma carga no modelo de até 8 metros cúbicos, e por quantos dias;
- que volume de biofertilizante sai do processo e em que dose se aplica: o texto dá como exemplo de lavoura café, pimenta-do-reino, frutíferas e hortaliças, e admite três formas de aplicação — no solo, em canteiro ou via foliar —, sem indicar quantidade em nenhuma delas;
- se há licença ambiental, autorização ou norma técnica envolvida na instalação: o comunicado não toca no assunto em nenhuma linha, e daqui não dá para afirmar que exista ou que não exista;
- se o gás do biodigestor de Agostini abastece também a casa dele, além da casa da mãe;
- o destino das cinco instalações e dos estudos anunciados, no ano que já correu desde a divulgação.
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