Os anúncios de um colar com inteligência artificial ocuparam as estações do metrô de Nova York e passaram a aparecer rabiscados à mão pelos próprios passageiros. O aparelho é da startup Friend, que o descreve como um amigo digital, e a campanha custou mais de um milhão de dólares, em mais de 11 mil peças. Segundo Avi Schiffmann, CEO da empresa, a irritação do público era exatamente o efeito pretendido.
O que existe hoje é uma campanha publicitária, não um tratamento para a solidão
Antes de qualquer discussão sobre tecnologia e sentimento, vale separar os estágios. O que está documentado é uma campanha de publicidade em larga escala e um produto que a própria fabricante apresenta como companhia digital. Nada além disso.
O material de origem não informa preço, data de lançamento, se o aparelho está à venda no Brasil, quantas unidades foram entregues nem por quanto tempo alguém já o usou. Também não traz nenhum estudo que tenha medido o efeito do colar sobre o sentimento de solidão de quem o carrega no pescoço. Tudo o que se afirma sobre a finalidade do produto parte da empresa que o vende: é posicionamento de fabricante, não resultado verificado.
A diferença não é detalhe. Anúncio descreve intenção; estudo mede efeito. Um dispositivo que conversa pode ser agradável, útil ou irritante — e ainda assim não ter nenhuma medida publicada sobre o que provoca em quem se sente sozinho. Quando o material disponível é publicidade, o correto é dizer que se trata de promessa comercial, com o nome de quem promete.
O executivo diz que a rejeição era o plano
Schiffmann tratou a reação hostil como parte do cálculo, em entrevista à Adweek. As duas falas a seguir foram traduzidas do inglês e estão reproduzidas como aparecem no relato de origem:
“Sei que as pessoas em Nova York odeiam IA, e coisas como companheirismo de IA e wearables, provavelmente mais do que em qualquer outro lugar do país”
A declaração é de Avi Schiffmann, CEO da Friend, à Adweek.
“Então, comprei mais anúncios do que qualquer pessoa já fez, com bastante espaço em branco, para que eles comentassem socialmente sobre o assunto.”
A frase é do mesmo executivo, na mesma entrevista. O espaço em branco a que ele se refere é a área vazia do cartaz — que acabou virando, na prática, o lugar onde o público escreveu a resposta.
O que os passageiros escreveram por cima dos cartazes
As mensagens rabiscadas nos anúncios, também traduzidas do inglês, dizem coisas como:
- “pare de lucrar com a solidão”
- “A IA não se importaria se você vivesse ou morresse”
- “vá fazer amigos de verdade”
- “A IA promoverá o suicídio quando solicitada”
A última frase se refere, conforme o relato de origem, ao caso de um adolescente que tirou a própria vida depois de ser encorajado pela IA. O material não traz nome, data, local nem o andamento da apuração desse episódio, e por isso ele aparece aqui apenas como a referência que motivou o protesto escrito no cartaz. Quem estiver passando por sofrimento emocional pode conversar com o CVV pelo telefone 188, gratuito e disponível 24 horas.
Solidão e saúde: o que o artigo citado sustenta, e o que ele não sustenta
O texto de origem se apoia em um artigo publicado pelo The Lancet para afirmar que a desconexão social está associada a uma série de problemas de saúde e pode afetar a forma de viver, pensar e tomar decisões. É importante ler essa frase pelo que ela diz.
Estar associado significa que duas coisas aparecem juntas com frequência maior do que o acaso explicaria. Não significa que uma tenha causado a outra, nem indica a direção da seta: quem adoece pode se isolar, e quem se isola pode adoecer. Estudos de associação servem para acender um alerta e orientar novas pesquisas, não para prometer um remédio.
Vale registrar também o que não existe no material: nenhum número sobre solidão no Brasil, nenhuma medição de quantas pessoas se sentem sozinhas, nenhum dado local. Quem vir esse tipo de estatística circulando junto com a história do colar deve procurar a origem antes de repassar.
Nenhum aparelho substitui convivência ou acompanhamento profissional
Um dispositivo que responde a qualquer hora pode oferecer distração e algum conforto pontual, e o mesmo vale para assistentes de texto como o ChatGPT. O que nada disso faz é ocupar o lugar de convivência real ou de acompanhamento de saúde. Sofrimento psíquico persistente — insônia, desânimo que não passa, perda de interesse, isolamento que se aprofunda — é assunto de profissional, e a rede pública de saúde é a porta de entrada para esse atendimento.
É justamente esse limite que os rabiscos no metrô parecem apontar: por mais sofisticada que a inteligência artificial fique, ela não devolve o olhar, o toque nem a escuta de outra pessoa. O incômodo com a campanha nasce menos do aparelho em si e mais da ideia de transformar a falta de companhia em mercado.
O que perguntar antes de comprar um aparelho de companhia
Enquanto não há evidência publicada sobre esse tipo de produto, algumas perguntas simples ajudam a decidir com informação:
- Quanto custa de verdade — o preço do aparelho e se existe mensalidade para continuar funcionando.
- O que acontece com as conversas — onde ficam guardadas, por quanto tempo, quem tem acesso e como apagar tudo.
- O que a empresa promete por escrito — companhia e entretenimento são uma coisa; benefício de saúde é outra, e exige estudo, não anúncio.
- O que acontece se o serviço acabar — aparelho que depende de servidor deixa de funcionar quando a empresa desliga o servidor.
- Se o uso está somando ou substituindo — se as horas com o aparelho estão tomando o lugar de conversas com gente conhecida, o efeito é o oposto do prometido.
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