As Forças Armadas divulgaram o balanço da Operação Catrimani II, em andamento na Terra Indígena Yanomami, com um número que virou manchete: R$ 500 milhões de prejuízo causado a organizações criminosas ligadas ao garimpo ilegal em dezoito meses de atuação. O valor é uma estimativa da própria operação — quem calcula é quem executa, e não um órgão de auditoria independente.
A ação integrada reúne Marinha, Exército, Força Aérea, Polícia Rodoviária Federal, Funai e Censipam, em articulação com a Casa de Governo de Roraima. A área coberta é o maior território indígena do país, com extensão superior à de Portugal, o que ajuda a explicar por que a fiscalização depende de deslocamento aéreo e fluvial.
De onde vem o número de R$ 500 milhões
O material divulgado apresenta o valor como resultado acumulado dos dezoito meses de operação, mas não descreve o método de cálculo. Não informa se o montante considera o preço dos equipamentos inutilizados, o ouro que teria deixado de ser extraído, o custo de reposição do maquinário para quem financia a extração, ou uma combinação desses fatores. Também não há indicação de conferência por terceiro.
Isso não invalida o dado, mas define o que ele é: uma medida interna de impacto, no formato que já apareceu em balanços anteriores de outras ofensivas na Amazônia, como o divulgado na Operação Ágata. Quem lê o número precisa saber quem o produziu e em que período.
O que a operação diz ter feito em campo
Segundo o balanço, as equipes executaram 7.445 ações táticas e ultrapassaram 40 mil abordagens no período. Os itens listados:
- 41 aeronaves inutilizadas;
- 368 embarcações inutilizadas;
- 3.560 máquinas usadas na extração de ouro;
- 62 pistas de pouso irregulares destruídas;
- 677 acampamentos desmontados;
- 154 armas de fogo apreendidas;
- 22 antenas de comunicação retiradas.
Inutilizar não é o mesmo que apreender
Os dois termos aparecem juntos nos balanços e significam coisas diferentes. Apreender é retirar o objeto do local e mantê-lo sob custódia, disponível como prova. Inutilizar é destruir o equipamento onde ele foi encontrado, de modo que não volte a funcionar.
A escolha costuma ser imposta pela geografia: escavadeira, motor e balsa em área sem estrada não têm como ser removidos por terra, e transportá-los de helicóptero é inviável. Por isso o maquinário é danificado no ponto em que estava. A consequência prática para quem financia a atividade é a perda do capital imobilizado — e é essa perda que balanços como este tentam traduzir em reais.
Por que o garimpo em terra indígena é crime
Extrair minério exige título e licença ambiental. Sem isso, a lavra é crime, com ou sem terra indígena envolvida. Dentro de terra indígena existe uma camada a mais: a exploração mineral nessas áreas depende de autorização legislativa específica que não existe para as terras demarcadas, e por isso não há garimpo legal ali — qualquer extração é irregular por definição.
O segundo motivo é químico. O garimpo de ouro usa mercúrio para separar o metal do sedimento. O que escapa vai para o rio, se converte em uma forma que se acumula no peixe e sobe a cadeia alimentar até quem come esse peixe todo dia. A operação informa ter retirado 231,4 quilos de mercúrio e 160,1 quilos de cassiterita da área.
Quem vive na área — e o que o balanço não mede
Cerca de 27 mil Yanomami vivem no território. São eles que ficam com a água do rio, com o peixe e com a área revirada depois que a extração passa, e é essa população que sofre a consequência quando o mercúrio chega ao curso d’água.
A operação também registra uma frente de assistência: transporte de equipamento médico, perfuratrizes para poços, kits de energia solar, evacuações aeromédicas e atendimento odontológico. Na primeira fase, informa o balanço, 374 militares distribuíram 15 mil cestas alimentares a 236 comunidades, percorrendo distância equivalente a dezessete voltas ao redor da Terra.
Vale separar o que esses números dizem do que não dizem. Cesta entregue é medida de entrega, não de resultado: nenhum dos dados divulgados mede desnutrição, mortalidade ou acesso a água tratada antes e depois. Indicador desse tipo apareceu em levantamentos anteriores sobre a mesma terra indígena, que relacionaram a retração do garimpo à qualidade das águas — mas esse recorte é de outro período e de outra medição.
O que o material não responde
O balanço é de equipamento e de ação, não de responsabilização. Ficam em aberto:
- Prisões e autuações: não há quantas pessoas foram presas ou autuadas nas 40 mil abordagens, nem sob qual enquadramento.
- Andamento judicial: não se informa se houve denúncia, processo em curso ou condenação a partir das ocorrências.
- Desocupação definitiva: o material não diz se as áreas alcançadas seguem livres de garimpeiros ou se houve retorno depois da saída das equipes.
- Destino do que foi apreendido: não há informação sobre as 154 armas nem sobre o mercúrio recolhido.
A permanência é justamente o ponto sensível nesse tipo de operação, e foi o argumento usado quando as Forças Armadas instalaram uma nova unidade militar no território: sem base fixa, a área tende a ser reocupada assim que a fiscalização se afasta.
Quem tiver informação sobre extração ilegal de minério pode acionar o 181, o Disque-Denúncia, que recebe o relato sem identificação de quem liga.
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