Alimentação natural para cães e gatos: benefícios e riscos

Trocar a ração por comida fresca deixou de ser excentricidade e virou rotina em um número crescente de casas. O que a ciência já reuniu sobre essa mudança está em uma revisão bibliográfica publicada em 2025 na revista Research, Society and Development, conduzida por Clara Mangueira Andrade e Mayra Meneguelli, do Centro Universitário Maurício de Nassau. A conclusão tem dois lados que precisam ser lidos juntos: as dietas naturais aparecem associadas a ganhos consistentes de saúde, mas o mesmo levantamento lista desequilíbrio nutricional, deficiência de vitaminas e minerais e contaminação entre os riscos de adotá-las sem orientação.

Vale entender o tipo de trabalho de que se está falando. Uma revisão bibliográfica não testa animais: ela reúne e compara o que outros estudos já publicaram sobre o tema. É esse formato que permite enxergar o padrão — o que se repete em vários trabalhos e o que aparece apenas como relato isolado.

Alimentação natural não é uma dieta só

Sob o mesmo rótulo cabem modelos bastante diferentes entre si, e a revisão destaca dois principais. A dieta BARF (Biologically Appropriate Raw Food) é baseada em alimentos crus, como carnes, vísceras e ossos. A dieta caseira cozida usa ingredientes frescos submetidos ao cozimento adequado, justamente para reduzir o risco de contaminação. O levantamento menciona ainda outras vertentes, como as dietas grain-free e a de presa inteira, mais comum para gatos, que buscam reproduzir hábitos alimentares instintivos.

A diferença entre elas não é detalhe de nomenclatura: é ela que define o tamanho do risco sanitário. Cru e cozido não oferecem o mesmo perigo de contaminação, e é por isso que os dois modelos recebem avaliações distintas na literatura.

O ponto de partida dessas dietas, segundo o estudo, é servir de alternativa às rações comerciais. A revisão não trata a ração como vilã: reconhece a praticidade e o balanceamento nutricional do produto industrializado, e registra como contrapartida a possibilidade de conter aditivos químicos, conservantes e níveis elevados de carboidratos.

O título escolhido pelas autoras já resume o que o trabalho encontrou:

Alimentação natural para cães e gatos: revisão bibliográfica aponta benefícios e riscos

É o título da revisão assinada por Clara Mangueira Andrade e Mayra Meneguelli, publicada na Research, Society and Development.

Os ganhos que aparecem na literatura

O levantamento identificou uma série de efeitos positivos associados à alimentação natural:

  • melhora da digestão e da saúde gastrointestinal;
  • redução de quadros alérgicos e dermatológicos;
  • fortalecimento do sistema imunológico;
  • aumento da disposição física e mental;
  • melhora da qualidade da pelagem;
  • possível incremento na longevidade.

Repare no último item. A revisão fala em possível incremento na longevidade, e essa palavra faz diferença: viver mais é tratado como hipótese em aberto, não como resultado assentado. O mesmo vale para o conjunto — são efeitos associados e relatados na literatura, não uma garantia que acompanhe cada tigela.

Há também registro de impacto positivo no comportamento, com maior interesse alimentar e menor ansiedade em cães que recebem dietas personalizadas, o que contribui para o bem-estar psicológico e para o enriquecimento ambiental. Esse achado, na revisão, aparece referido a cães.

Os riscos estão no mesmo estudo, não em outro

As autoras destacam que a adoção indiscriminada dessas práticas pode trazer riscos sérios. Os principais pontos de atenção listados são:

  • desequilíbrios nutricionais, quando a formulação não atende às necessidades específicas do animal;
  • deficiências de vitaminas e minerais, especialmente em dietas sem supervisão;
  • risco de contaminação microbiológica, mais evidente em dietas cruas;
  • dificuldades logísticas, como custo elevado dos ingredientes e maior tempo de preparo;
  • escassez de profissionais especializados para orientação.

No caso da dieta BARF, embora existam relatos de melhora clínica, também há evidências de que ossos crus podem causar obstruções intestinais e de que carnes mal armazenadas oferecem risco de infecções por bactérias e parasitas. Já a dieta caseira cozida, por reduzir riscos sanitários, é considerada alternativa viável e segura — desde que formulada adequadamente e com suplementação correta. A condição não é ornamento da frase: é o que separa a alternativa segura da malfeita.

Por que a conta não é intuitiva

Desequilíbrio nutricional não significa comer pouco. É o prato que parece saudável para quem cozinha e, ainda assim, não entrega o que aquele animal precisa. A revisão amarra o problema exatamente a isso: a formulação que não atende às necessidades específicas do animal. E específicas quer dizer daquele bicho — espécie, porte, idade, nível de atividade e condição de saúde entram na conta. Por isso não existe receita única que sirva para todos, e por isso um plano montado para o cão do vizinho não serve para o seu.

A suplementação obedece à mesma lógica. No levantamento, ela não aparece como acréscimo opcional, e sim como parte da formulação: a dieta caseira cozida só é descrita como segura quando vem acompanhada dela. Escolher um suplemento por conta própria e acrescentá-lo à tigela não substitui o cálculo que ele deveria completar.

O que fazer antes de mudar a tigela

O próprio estudo registra as barreiras práticas de quem quer seguir esse caminho: o custo elevado dos ingredientes, o tempo necessário para o preparo e a escassez de profissionais especializados para orientar. Nenhuma dessas dificuldades, porém, autoriza improvisar a formulação — o efeito de errar a conta recai sobre o animal, e costuma aparecer tarde, quando a deficiência já se instalou.

O caminho que a revisão sustenta é o da avaliação individual. Antes de qualquer troca, a orientação é procurar um veterinário nutricionista, que examina o animal e formula a dieta a partir das necessidades dele. Receita copiada da internet, plano herdado de outro tutor e transição feita por tentativa e erro ficam fora dessa conversa: o levantamento não trata a alimentação natural como escolha automaticamente mais saudável, e sim como uma prática cujo resultado depende de quem a calcula.

Revisão de Andrade e Meneguelli (2025), publicada na Research, Society and Development

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