O Theatro Carlos Gomes, na Praça Costa Pereira, no Centro de Vitória, reabriu as portas no sábado (22), depois de dois anos de obras de restauro e readequação com investimento total de R$ 20 milhões. A reabertura reuniu a Orquestra Sinfônica do Espírito Santo (OSES) e o cantor capixaba Silva em apresentação na própria praça, enquanto o prédio ficou aberto à visitação do público e recebeu, por dentro, uma intervenção artística de Flávia Junqueira.
O que foi entregue no sábado é a obra concluída — o prédio restaurado, com estrutura de palco, som, luz e acessibilidade renovados. A operação do teatro, porém, ainda está sendo montada por etapas, e é isso que separa a foto da inauguração da resposta prática de quem quer saber quando poderá assistir a um espetáculo ou visitar o casarão.
O que já foi anunciado e o que ainda não abriu
No dia da reabertura, o governador Renato Casagrande anunciou três frentes do início das operações. Nenhuma delas teve data exata divulgada:
- Temporada de reinauguração: a programação está confirmada de dezembro a março de 2026. As atrações, os dias de cada espetáculo e os preços de ingresso não foram informados no anúncio.
- Visitas mediadas: vão acontecer duas vezes por semana, em diversos horários ao longo do dia. Quais dias da semana, quais horários, se é preciso agendar e se há cobrança são pontos que o anúncio não detalhou.
- Cafeteria: ainda não existe. O edital de concessão de uso do espaço, que terá vista para a Praça Costa Pereira, deve ser aberto nas próximas semanas, sem data fechada.
A antiga bilheteria do teatro foi restaurada — metais, pintura e douramentos em folha de ouro — e voltará a operar. Também não foi informado a partir de quando ela atende ao público.
“Noventa e nove anos depois de sua inauguração, estamos reinaugurando o Theatro Carlos Gomes totalmente restaurado. Este é um equipamento importantíssimo para a cultura do nosso Estado. Resgatamos um espaço que sempre foi o centro cultural do Espírito Santo e, assim, colocamos fim a um problema histórico, que era manter esse teatro fechado. A partir de agora, teremos uma programação cultural forte e vamos fortalecer ainda mais o Centro da nossa Capital”
A declaração é do governador Renato Casagrande, que acompanhou a reabertura ao lado da primeira-dama do Estado, Maria Virginia.
De onde vieram os R$ 20 milhões
A conta não saiu inteira de um único bolso, e o anúncio detalha a divisão: R$ 10 milhões vieram do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e R$ 10 milhões da EDP. Os dois aportes foram feitos por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), o mecanismo que permite a empresas destinar a projetos culturais previamente aprovados uma parcela do que pagariam de imposto de renda.
A execução das obras coube ao Instituto Modus Vivendi, a partir de um acordo de cooperação com o Governo do Estado, por meio da Secretaria da Cultura (Secult), dentro da iniciativa Resgatando a História.
“Renovamos a nossa concessão no Espírito Santo por mais 30 anos e as ações socioculturais são peças importantes nessa jornada, pois geram impacto positivo para a sociedade e ajudam a transformarmos hoje as gerações para o futuro”
A informação é do diretor da EDP no Espírito Santo, Edson Barbosa.
O ouro sob a tinta e a cor que o prédio tinha perdido
Entre as descobertas do restauro estão os douramentos no proscênio — a faixa do palco mais próxima da plateia —, nos gradis dos camarotes e nos capitéis, que são a parte superior das colunas. O desenho, feito com folhagens estilizadas em folha de ouro, é típico da arquitetura eclética, com influências neoclássicas, e aparece em todos os pavimentos das frisas.
Nas colunas de ferro fundido dos camarotes e nos capitéis foi aplicada velatura ocre imitando mármore, técnica conhecida como fingimento. Não é um truque barato: era prática institucionalizada no Renascimento e usada em todos os períodos seguintes da história da arte, com pintura em afresco, escaiola ou têmpera aplicada sobre argamassa, pedra, madeira e ferro para dar a esses materiais a aparência de mármore, metal nobre ou madeira decorativa. O pintor que dominava o fingimento era disputado pela construção civil local. A volta da pintura marmorizada foi defendida pelo Prof. Dr. Nelson Porto, especialista que acompanhou o restauro.
Do lado de fora, o amarelo que cobria o prédio havia anos deu lugar à cor camurça, tom clássico do estilo eclético e provavelmente o usado na inauguração, em 1927. A escolha veio de uma prospecção estratigráfica: os restauradores raspam e analisam, camada por camada, as tintas aplicadas ao longo da vida do edifício até chegar à mais antiga. O resultado foi certificado por um arquiteto-historiador especialista e aprovado pelo Conselho Estadual de Cultura.
No teto, o lustre de cristal foi restaurado, assim como a pintura do artista Homero Massena, no centro da qual ele fica. Um pedaço do piso original da primeira fase do teatro, anterior à reforma que inclinou a plateia, foi encontrado e deixado à mostra numa janela de prospecção — naquela época o chão era reto.
Palco mecanizado, som sob medida e elevador para todos os andares
A estrutura cênica foi inteiramente renovada, com preservação do teto de madeira e de algumas varas originais. O novo sistema de urdimento — o conjunto de varas suspensas que sobe e desce cenários e cortinas — tem varas mecanizadas de alta capacidade de carga, e foram fabricadas novas bambolinas, pernas, rotundas e cortinas de boca em tecidos técnicos certificados.
O elevador da orquestra ergue os músicos do fosso até o nível do palco, o que permite ampliar o espaço cênico para espetáculos maiores ou mudar o desenho da sala conforme o evento. Na sonorização, o desafio era instalar equipamento moderno sem poluir o monumento: as caixas do proscênio foram fabricadas exclusivamente para o Carlos Gomes, encaixadas entre os ornamentos e pintadas da cor da parede. A iluminação cênica também foi trocada por equipamentos de ponta.
Na acessibilidade, foram instalados um elevador que leva o público a todos os andares, uma plataforma elevatória para o palco e o elevador da orquestra, além de banheiros e camarim acessíveis. Nos corredores, camarotes, camarins e banheiros entraram luminárias novas; os lustres originais — ou já incorporados ao bem tombado à época do tombamento — foram mantidos e restaurados, com troca apenas das lâmpadas incandescentes por LED. A iluminação externa ganhou sistema monumental em LED, com variação de cores pelo padrão RGB.
Foi instalada ainda uma cortina corta-fogo, feita de tecido resistente a altas temperaturas: em caso de incêndio ela desce automaticamente e isola o palco da plateia, barrando chamas, fumaça e gases. O mobiliário antigo foi conservado, incluindo as cadeiras do camarote do Governador e três puffs históricos, restaurados na forma original com veludo vermelho. No último andar nasceu uma área administrativa, com banheiros, refeitório e sala de gerência, e o foyer lateral ganhou um mezanino de uso técnico.
Segundo a presidente do Instituto Modus Vivendi, Erika Kunkel, responsável pelo restauro, os destaques do projeto são justamente os novos equipamentos de uso do teatro: os elevadores para a orquestra e para o público, a nova climatização, os banheiros acessíveis e a instalação do café.
O prédio de 1926, o busto na fachada e o teatro de Milão
Segundo o material divulgado pelo Governo do Estado, o Theatro Carlos Gomes foi construído em Vitória em 1926 e inaugurado em 5 de janeiro de 1927, com projeto e construção do arquiteto italiano autodidata André Carloni, que se inspirou no Teatro Alla Scala de Milão. O prédio se insere na arquitetura eclética, período em que edificações monumentais recebiam decoração interna rebuscada — mármores, madeiras nobres, fingimentos, estofamentos em veludo e tapetes vermelhos lado a lado.
A fachada é adornada por cinco estátuas no acrotério, o ponto mais alto do frontão. No centro está Apolo, símbolo máximo das artes na mitologia grega, segurando duas liras — instrumento criado por Hermes e presenteado a ele. Aos pés de Apolo, duas figuras femininas com trombetas: uma segura um livro, a outra uma máscara, sugerindo a união entre música, literatura e teatro. Nas extremidades, outras esculturas representam a escultura (com talhadeira e martelo), a música (com lira), a pintura (com pincel e aquarela) e as letras (com livro), e quatro estátuas de crianças com arranjos florais ladeiam o conjunto. O restauro repôs adornos originais que faltavam, entre eles as trombetas.
Logo abaixo das esculturas fica o busto de Carlos Gomes, compositor brasileiro nascido em Campinas (SP), que dá nome à casa. A homenagem tem explicação: ele foi o primeiro brasileiro a ter uma obra apresentada no teatro de Milão que inspirou Carloni.
Pelo palco já passaram nomes como Bibi Ferreira, Paulo Autran e Fernanda Montenegro, além de artistas e apresentações locais. Com o restauro concluído, o espaço volta a receber espetáculos, shows e eventos.
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