Fachadas de prédios da Rua Augusta e do Largo da Batata, em São Paulo, foram usadas como tela para frases sobre abandono de animais nos dias 03 e 04 de dezembro, entre 19h e 22h. As projeções fizeram parte de uma ação de Dezembro Verde da Guabi Natural, marca de alimentos Super Premium da BRF Pet, e apoiaram-se num número que a campanha repetiu em letras de vários metros: 4,8 milhões de cães e gatos em situação de vulnerabilidade no Brasil.
Segundo a empresa, circulam mais de 230 mil pessoas por dia pelos dois endereços. As frases projetadas traduziam a estatística em imagens de tamanho: “Se todos os pets abandonados do Brasil morassem nesse prédio, ele teria 200 mil andares” e “A fila com todos os pets abandonados iria daqui até Fortaleza”. As duas são textos da campanha, escritos para a rua — não são declarações de ninguém.
De onde vem o número de 4,8 milhões
A estimativa é atribuída à Abempet, a Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação. É, portanto, um levantamento da entidade que representa as empresas do próprio setor pet, e não um censo oficial de governo. A data do levantamento e a metodologia não foram informadas no material da campanha, que também não explica o que a expressão situação de vulnerabilidade abrange — se entra aí apenas o animal de rua, o animal sob cuidado de protetores, ou também o que tem tutor e vive em condição precária.
Essa imprecisão importa porque o número muda de nome no meio do caminho. O dado citado fala em animais em situação de vulnerabilidade; as frases projetadas nos prédios falam em pets abandonados. Não são a mesma coisa, e a peça publicitária usa a segunda palavra para um número levantado com a primeira. Quem for repetir a estatística em conversa, em post ou em pedido de apoio a um abrigo faz bem em dizer de onde ela veio e com que palavra ela foi medida.
Da mesma origem vêm os recortes divulgados: dos 4,8 milhões, 60% seriam cães e 40% gatos. Além disso, cerca de 201 mil animais estariam sob tutela de ONGs ou de grupos de protetores independentes no país, sendo 92% cães e 8% gatos.
Por que o fim do ano aparece em toda campanha do tipo
O argumento central da ação é sazonal: viagens de férias e barulho de fogos concentram, em dezembro, dois problemas diferentes — o animal deixado para trás e o animal que foge assustado.
“O número de pets em situação de vulnerabilidade é alarmante e tende a crescer no fim do ano, período em que as festas e as viagens aumentam os casos de pets deixados para trás. O abandono é um problema antigo, mas, muitas vezes, naturalizado. Quisemos ajudar a romper essa indiferença, mostrando que cada número representa uma vida. O Dezembro Verde foi uma oportunidade para promovermos empatia e reflexão, reforçando que o abandono é crime e que a adoção responsável é o caminho para mudar essa realidade”
A explicação é de Stanley Andrade, diretor da BRF Pet.
Quem lida com o resgate descreve o mesmo calendário pelo lado de dentro do abrigo.
“Dezembro é a época em que muitas famílias viajam e acabam deixando seus animais, ou quando os pets se assustam com os fogos e fogem de casa. Todos os anos registramos um aumento nos resgates nesse período. E com a chegada do Natal, vale reforçar: pet não é presente, não é um objeto. É um ser vivo que exige cuidado, responsabilidade e amor. Por isso, ações de conscientização como essa foram tão importantes”
O relato é de Juliana Valverde, responsável pela ONG GAVAA, que abriga cerca de 300 animais e trabalha no resgate e no encaminhamento para adoção.
O que a campanha fez além das projeções
Fora das fachadas, a ação se estendeu por dezembro com um desafio no TikTok, uma editoria no Instagram da marca e conteúdo produzido por 20 influenciadores de diferentes regiões, que aplicaram os dados de abandono à realidade de suas cidades. A ONG parceira produziu material informativo sobre adoção responsável, combate ao abandono e casos de resgate.
A parceria entre a marca e a ONG tem cinco anos. Nesse período, segundo os números divulgados, foram doadas 111 toneladas de alimento para cães e gatos resgatados — o equivalente a mais de 1 milhão de refeições — e apoiada a adoção de 1.800 pets. A empresa mantém ainda uma plataforma na internet sobre adoção responsável, com quiz, e-book e uma lista de ONGs e de canais de denúncia.
O que fazer sem depender de campanha
A parte útil de uma ação como essa é o que sobra depois que os prédios voltam a exibir anúncios comuns. Na prática, três atitudes reduzem o problema que o número descreve:
- Adotar em vez de comprar, procurando ONGs e protetores independentes da própria cidade — são eles que mantêm os 201 mil animais citados no levantamento.
- Castrar. Ninhada não planejada é a origem de boa parte dos animais que acabam na rua, e é o único ponto da conta que o tutor controla antes de o problema existir.
- Não presentear ninguém com um animal. A escolha precisa ser de quem vai cuidar, e a conta de um cão ou gato — ração, vacina, castração, consulta — dura mais de uma década.
Para quem viaja no fim do ano, o animal precisa de destino combinado antes da viagem: alguém que o receba, hospedagem ou visita diária de quem o alimente. Nas noites de fogos, ambiente fechado, sem acesso à rua, e coleira com identificação reduzem o risco de fuga — que é a origem de parte dos resgates de dezembro.
A campanha afirma que o abandono é crime. Denúncia de maus-tratos ou de abandono em curso pode ser feita à polícia pelo 190; para relatar situação já ocorrida, sem se identificar, o canal é o 181.
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