Nem todo latido, móvel roído ou xixi fora do lugar na ausência do tutor é ansiedade de separação. O alerta é da médica-veterinária Kersti Seksel, referência internacional em Medicina Comportamental, que dedicou uma apresentação da programação científica de um congresso internacional de medicina veterinária, em janeiro de 2026, a separar resposta emocional normal de doença — e a mostrar o que muda no dia a dia de quem convive com um cão ou um gato que sofre quando fica sozinho.
Ansiedade de separação virou um rótulo popular, mas nem todo comportamento indesejado na ausência do tutor se encaixa nesse diagnóstico
A ressalva é de Kersti Seksel, logo no início da apresentação.
Medo que protege e medo que adoece
Sentir medo diante de uma ameaça real ou percebida é normal e adaptativo. Envolve ativação do sistema nervoso autônomo, liberação de hormônios do estresse e mudanças de comportamento que aumentam a chance de sobrevivência. A diferença entre o esperado e o patológico, segundo a especialista, não está no sinal em si, mas no tamanho e na permanência dele.
O problema surge quando essa resposta deixa de ser funcional e passa a comprometer a capacidade do animal de se adaptar às situações do dia a dia
A explicação é da palestrante, Kersti Seksel.
A vulnerabilidade a transtornos ansiosos é multifatorial: aspectos genéticos, epigenéticos, experiências precoces — sobretudo no período neonatal — e eventos traumáticos ao longo da vida pesam nesse processo. É por isso que a apresentação defendeu o uso do termo síndrome, e não de um diagnóstico único.
Chamamos de síndrome porque ainda não compreendemos completamente todos os mecanismos envolvidos. É um quadro heterogêneo, que exige avaliação individualizada
A definição é de Kersti Seksel. Na literatura científica, a mesma condição também aparece como estresse de separação, sofrimento por separação ou transtorno de ansiedade de separação — variação de nome que, segundo a especialista, reforça a necessidade de padronização conceitual na área veterinária.
Em cães, os sinais aparecem quando o tutor sai — e só então
Esse é o detalhe que mais ajuda o tutor a diferenciar um problema de comportamento comum da síndrome: nos cães, o quadro costuma se manifestar exclusivamente durante a ausência real ou percebida do tutor. Entre os sinais mais frequentes estão:
- vocalização excessiva;
- destruição de objetos;
- tentativas de fuga;
- eliminação inadequada;
- salivação intensa;
- inquietação;
- recusa alimentar.
É fundamental compreender que esses comportamentos não ocorrem por desobediência. Eles são expressão de sofrimento emocional
A avaliação é da médica-veterinária Kersti Seksel.
A apresentação chamou atenção ainda para a ausência virtual: o tutor continua em casa, mas o animal perde o acesso a determinados ambientes. Para parte dos cães, a porta fechada tem o mesmo efeito de uma saída.
Para alguns cães, fechar uma porta já é suficiente para desencadear ansiedade intensa
A observação é de Kersti Seksel.
Em gatos, o sinal costuma ser lido como problema de pele
Menos estudada e menos diagnosticada, a ansiedade de separação também ocorre em gatos. A menor percepção do problema, segundo a especialista, tem relação com a interpretação equivocada dos sinais por parte dos tutores. As manifestações mais comuns são vocalização excessiva, micção por marcação, arranhaduras em locais inadequados e lambedura excessiva, que pode chegar a provocar falhas no pelo e lesões na pele.
Esses sinais muitas vezes são atribuídos a problemas dermatológicos ou territoriais, o que atrasa o diagnóstico correto
O ponto é de Kersti Seksel.
O que o tutor consegue observar em casa
O diagnóstico é da consulta, não do tutor — mas a consulta depende de uma anamnese comportamental detalhada, e essa história quem tem é quem convive com o animal. Antes do atendimento, vale reunir informações simples:
- Quando acontece. Anotar o horário da saída, quanto tempo o animal ficou sozinho e em que momento o comportamento apareceu ajuda a mostrar se ele ocorre apenas na ausência.
- O que vem antes. Pegar a chave, calçar o sapato e outras rotinas de partida podem ser o gatilho, e não a porta em si.
- Como o animal fica sozinho. Um registro em vídeo do período sem o tutor evita depender do estrago encontrado na volta para descrever o que de fato aconteceu.
- Se existe ausência virtual. Observar o que acontece quando o animal apenas fica separado do tutor dentro de casa.
Entre os fatores associados ao desenvolvimento da síndrome estão mudanças abruptas na rotina, períodos prolongados de convivência intensa seguidos de afastamento, adoção tardia, histórico de abandono, hospitalizações frequentes e doenças do tutor. Uma separação na família entra exatamente nessa lista de viradas de rotina — e a definição de com quem o animal passa a viver, aliás, tem regras próprias, que valem a leitura antes do acordo.
Animais socialmente dependentes, que não desenvolveram estratégias de enfrentamento, são particularmente vulneráveis
A explicação é da médica-veterinária Kersti Seksel.
Há ainda uma prática que a apresentação descarta sem meio-termo: punir o animal pelo que ele fez sozinho.
Punir um animal ansioso só aumenta o medo e compromete a relação com o tutor
A afirmação é de Kersti Seksel.
Quando procurar o médico-veterinário
Sinais que se repetem, que aparecem sempre ligados à saída do tutor ou que já viraram lesão — pele machucada de tanta lambedura, dente quebrado em tentativa de fuga — são motivo de consulta, não de tentativa doméstica. Estudos apresentados na palestra indicam que aproximadamente 8,7% dos cães na Austrália apresentam sinais compatíveis com ansiedade de separação moderada a grave. Nos Estados Unidos, estima-se que mais da metade desses animais não recebe tratamento adequado.
Estamos falando de uma condição de alto impacto no bem-estar animal, que frequentemente evolui sem intervenção profissional
O alerta é de Kersti Seksel.
Na consulta, o diagnóstico se apoia na anamnese comportamental somada à exclusão de causas clínicas que possam justificar os sinais. Esse passo não é formalidade: a especialista destacou que a síndrome pode estar associada a comorbidades como fobias sonoras, hipersensibilidade ambiental e dor crônica, fatores que intensificam a resposta ansiosa e dificultam o manejo. Um animal que mudou de comportamento pode estar sentindo dor, e isso nenhum treino resolve.
Os 4M do tratamento e por que não existe atalho
Para o manejo da síndrome, a palestrante apresentou um modelo terapêutico de quatro frentes, os 4M:
- Manejo ambiental, reduzindo inicialmente os períodos de separação;
- Modificação comportamental, com foco na resposta emocional do animal;
- Medicação, quando indicada;
- Monitoramento contínuo, com reavaliações periódicas.
A ordem importa: a medicação aparece como uma das frentes e apenas quando indicada, o que faz dela decisão da consulta, com prescrição e reavaliação — nunca escolha de prateleira nem calmante emprestado de outro animal. E o conjunto exige tempo.
Não existe tratamento único ou solução rápida. A intervenção deve ser gradual e adaptada a cada paciente
A ressalva é de Kersti Seksel.
Ao encerrar a apresentação, a especialista enfatizou o papel do médico-veterinário no reconhecimento precoce do quadro: questionários comportamentais simples, aplicados na consulta de rotina, já ajudam a identificar sinais iniciais — o que coloca a conversa sobre comportamento no mesmo patamar da vacina e do exame anual.
Ansiedade é uma condição médica. Reconhecê-la cedo é fundamental para melhorar a qualidade de vida do animal e fortalecer o vínculo com o tutor
A conclusão é da médica-veterinária Kersti Seksel.
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