Mentalidade digital não tem data de nascimento

IA virou álibi corporativo? O “AI-washing” por trás da nova onda de demissões

A febre da IA criou uma narrativa irresistível para o corporativo: “Estamos demitindo para investir no futuro”. Funciona para o mercado, soa moderno para a imprensa, parece inevitável para a opinião pública. Só que a realidade costuma ser mais simples (e menos glamourosa): muitas empresas estão ajustando estrutura, margem e eficiência — e a IA virou o rótulo mais aceitável para isso.

Os dados mostram por que essa explicação virou moda. Em 2025, a consultoria Challenger, Gray & Christmas registrou 48.414 cortes de vagas “atribuídos à IA” em anúncios de demissão — e o número já aparecia como uma das justificativas mais citadas do ano. Em outra leitura do mesmo fenômeno, reportagens destacaram que empresas citaram dezenas de milhares de cortes relacionados à IA e que isso cresceu de forma acelerada.

O caso da Amazon ajuda a entender o mecanismo psicológico por trás disso: quando a liderança fala em “agentes” e em “precisar de menos pessoas para algumas funções”, ela está preparando o terreno para a reorganização — e também testando como o mercado reage à tese de produtividade por automação. A IA, aqui, vira um dispositivo de gestão de expectativa: acostuma investidores e times com a ideia de que “menos gente” pode ser “mais performance”.

O Pinterest é outro exemplo do mesmo roteiro: corte relevante, discurso de foco e reestruturação, e a IA como motor da próxima fase. Não é que a IA seja mentira — é que o corte raramente é “porque a IA já faz tudo”. Normalmente é porque a empresa quer realocar orçamento, simplificar operação e reduzir custo fixo enquanto tenta capturar crescimento em um novo ciclo competitivo.

Então, por que isso está acontecendo agora? Três forças se juntaram. (1) Pressão por resultado: o mercado cansou de “projeto piloto” e quer produtividade mensurável. (2) Custo real da IA: infraestrutura, talento, governança e integração custam caro — e alguém paga essa conta. (3) Disputa por narrativa: “corte por eficiência e IA” soa como estratégia; “corte porque erramos a mão” soa como fraqueza.

Como separar “IA de verdade” de “AI-washing”? 

Um teste rápido: a empresa anuncia quais processos foram redesenhados e quais métricas mudaram? Se a conversa para em “vamos investir em IA”, sem dizer onde (fluxo), como (mudança operacional) e quanto (meta), a chance de ser só embalagem sobe. O que costuma ser real, quando é real: corte vem acompanhado de redesenho de trabalho, requalificação, novos papéis, governança e novas métricas — não só de um PowerPoint com “AI-first”.

No fim, a provocação é simples: a IA vai transformar o trabalho — mas, em 2026, ela também virou o melhor disfarce para decisões difíceis de custo e gestão. E isso muda o jogo para líderes: mais do que “adotar IA”, você vai precisar saber explicar decisões sem terceirizar responsabilidade para uma tecnologia.

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