Imagem de divulgação sobre a entrega de celulares recuperados pelo Projeto Recupera, no Espírito Santo

Estado devolve celulares recuperados: como o dono é avisado

O Governo do Estado entregou aos donos os primeiros celulares recuperados pelo Projeto Recupera numa solenidade no Palácio Anchieta, em Vitória, na quarta-feira, dia 07 de agosto de 2024. A entrega foi feita pelo governador Renato Casagrande. Para quem teve o aparelho levado, porém, a pergunta prática é outra — como recuperar celular roubado — e o material oficial responde só parte dela.

A operação não começou naquele dia. No fim de julho, entre os dias 26 e 27, 172 aparelhos já tinham sido entregues nas Delegacias Regionais de Vitória e Vila Velha. O que a solenidade de agosto inaugurou foi a etapa seguinte: a passagem do aparelho para quem o perdeu.

Duas coisas diferentes chamadas de devolução

Esse é o ponto que o material oficial embaralha, e ele muda a leitura de todos os números. A palavra devolução aparece descrevendo dois movimentos opostos:

  • quem está com o aparelho o entrega à polícia — foi o que aconteceu com os 172 celulares de 26 e 27 de julho, levados às delegacias por pessoas que receberam intimação;
  • a polícia repassa o aparelho ao proprietário — foi o que a solenidade de 07 de agosto marcou, com os primeiros donos recebendo de volta o que tinham perdido.

Por isso aparelho recuperado e aparelho devolvido ao dono não são a mesma contagem, e o material não relaciona uma com a outra. Um celular localizado pela investigação pode estar em qualquer ponto do percurso: ainda com o portador, já na delegacia, ou já nas mãos de quem registrou o boletim.

Como recuperar celular roubado: o caminho começa no boletim de ocorrência

Pelo que o material descreve, o dono não vai atrás do aparelho — ele é procurado. O percurso é este, na ordem:

  • a investigação identifica o aparelho pelo IMEI, com apoio das operadoras de telefonia;
  • quem está com o celular recebe uma intimação por aplicativo de mensagem, com data e local marcados;
  • essa pessoa entrega o aparelho na delegacia indicada;
  • só depois dessa entrega o proprietário é contatado;
  • o contato com o dono é feito pelo mesmo aplicativo, no telefone que consta do Boletim de Ocorrência.

A consequência prática é direta, e é o serviço que essa notícia carrega: o boletim é o único endereço que a polícia tem para achar o dono. Se o número informado ali estiver desatualizado, ou se o IMEI não tiver sido registrado, o aparelho pode ser recuperado sem que a pessoa fique sabendo. Por isso o material recomenda que, no momento do registro, a vítima informe o IMEI do aparelho subtraído, o telefone atualizado e o endereço.

Uma das pessoas que receberam o celular na solenidade descreveu um contato diferente do que a nota explica:

Eu não esperava receber meu celular e com esse projeto lindo, recebi uma ligação ontem e nem acreditei.

O relato é de Ione Barbosa Pereira, uma das dezenas de pessoas presentes à entrega. O aviso que ela descreve foi uma ligação telefônica, e não a mensagem de aplicativo que o restante do texto oficial apresenta como o canal do projeto. O material não explica a diferença nem diz se as duas formas de contato convivem.

O que o material não informa sobre a devolução ao dono

Esta é a maior lacuna, e ela cai exatamente sobre a pergunta que leva alguém a procurar o assunto. O texto oficial descreve o funcionamento interno da operação, mas não dá nenhuma instrução ao dono do aparelho:

  • não diz que documentos a pessoa precisa levar para retirar o celular;
  • não informa horário nem unidade de atendimento para essa retirada;
  • não fixa prazo — nem para o contato ser feito, nem para o aparelho ser retirado depois do aviso;
  • não indica nenhuma forma de a pessoa consultar por conta própria se o aparelho dela já foi localizado;
  • não diz o que fazer quando o telefone informado no boletim já não é o mesmo, situação comum justamente para quem teve o celular levado;
  • não explica se um boletim antigo, registrado sem o IMEI, pode ser complementado depois;
  • não informa o que acontece com o aparelho quando o proprietário não é localizado;
  • não diz se o registro precisa ter sido feito no Espírito Santo para entrar na busca.

A ausência dessas informações não é detalhe de redação. Sem elas, o leitor sabe que o projeto existe e não sabe o que fazer com isso — a não ser manter o próprio boletim em dia.

Duas mensagens, dois destinatários e um risco de golpe

O mesmo aplicativo é usado para falar com dois públicos que estão em situações opostas. Quem está com um aparelho marcado como furtado ou roubado recebe uma intimação, com data e local para entregá-lo; quem registrou o boletim recebe um aviso para retirar o que era seu. Confundir as duas coisas muda tudo, inclusive a consequência: segundo o material, quem recebe a intimação e não comparece à delegacia indicada poderá responder criminalmente.

O texto oficial também registra que muita gente está com aparelho de origem ilícita sem saber disso, o que separa o portador de boa-fé de quem responde por receptação. O governador tratou desse ponto ao anunciar a nova rodada de mensagens:

Temos um objetivo claro que é diminuir os registros de furto, roubo e interceptação de celulares. Hoje a pessoa usa o celular até para falar, porque hoje a vida financeira e profissional da pessoa está ali. Vamos iniciar agora uma nova leva mensagens para quem está em posse de celulares furtados ou roubados. Muita gente está com o celular de boa-fé sem saber do furto ou roubo.

A fala é do governador Renato Casagrande, na entrega dos primeiros aparelhos. O trecho reproduz a frase como ela foi divulgada, com a falha de digitação do original.

Como toda notificação oficial que chega por aplicativo, essa abre espaço para imitação. O material oficial informa dois sinais de conferência: as mensagens saem da linha (27) 99849-4228 e a foto de perfil é o brasão da Polícia Civil do Espírito Santo. Vale um alerta que a nota não faz: esses dois sinais são de verificação, não de atendimento. O texto não apresenta essa linha como canal para o cidadão procurar a polícia, não indica outro telefone de contato e não menciona site, formulário ou aplicativo de consulta. O material também não descreve, em nenhuma etapa do contato, cobrança de taxa, pedido de senha ou de código recebido por mensagem.

Os números da primeira fase, cada um com sua condição

A primeira fase se concentrou na Grande Vitória, e o material apresenta seis quantidades. Elas medem coisas diferentes e o texto oficial não as concilia:

  • 502 intimações enviadas por aplicativo a portadores de aparelhos com restrição de furto ou roubo, com data e local de entrega;
  • retorno de aproximadamente 40% das intimações expedidas, índice que o material classifica como resultado bem-sucedido;
  • cerca de 200 aparelhos recuperados na primeira fase, realizada em julho;
  • 172 aparelhos entregues nas delegacias entre os dias 26 e 27 de julho;
  • 49 pessoas intimadas que fizeram contato e marcaram a entrega para os dias seguintes;
  • 262 procedimentos instaurados pela Polícia Civil como resultado da primeira fase.

O material não diz se os cerca de 200 aparelhos recuperados são o mesmo conjunto do retorno de aproximadamente 40% das intimações, nem como esses totais se relacionam com os 172 entregues em dois dias e com as 49 entregas marcadas. Somar as parcelas seria conta do leitor, não informação do órgão. Também não há, em nenhum ponto, valor estimado dos aparelhos — nem de mercado, nem de avaliação oficial —, e o texto não informa quantos dos 262 procedimentos apuram receptação.

Quem não respondeu à intimação não ficou de fora: o material informa que equipes da Polícia Civil do Espírito Santo passaram a fazer diligências para localizar essas pessoas. Não há informação sobre quantas foram encontradas.

O que é o IMEI, e por que ele decide a busca

O IMEI é o número de identificação de fábrica de cada aparelho, único e que não pode ser alterado. É o que sustenta a operação inteira: trocar o chip ou o número de telefone não apaga esse registro, e é por ele que o celular continua identificável mesmo em posse de outra pessoa. O rastreamento é feito com a colaboração das operadoras de telefonia e de outras autoridades de segurança pública.

Do lado do Estado, a operação reúne a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Sesp), por meio da Gerência de Operações Técnicas (GOT) da Subsecretaria de Estado de Inteligência (SEI), e a Polícia Civil do Espírito Santo, pela Superintendência de Inteligência e Ações Estratégicas (SIAE) e pela Superintendência de Polícia Regional Metropolitana (SPRM). A parte tecnológica teve apoio de técnicos do Instituto de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Espírito Santo (PRODEST).

O projeto não nasceu do zero, e o delegado-geral da PCES situou a origem:

A Polícia Civil já vinha realizando uma operação denominada Sinal, que visava investigar receptadores de celulares furtados ou roubados. O Projeto Recupera é um novo passo no combate a este tipo de crime.

A avaliação é do delegado-geral da PCES, José Darcy Arruda. O secretário de Estado da Segurança Pública e Defesa Social, Eugênio Ricas, apontou o roubo e o furto de celulares como os crimes que mais preocupam entre os crimes patrimoniais, e apresentou o projeto como tentativa de reduzir drasticamente, ou eliminar, esse tipo de ocorrência no Espírito Santo.

Em que pé isso está, e o que ainda vale

A fase descrita aqui terminou. O mutirão de intimações da Grande Vitória, as datas de 26 e 27 de julho e a entrega no Palácio Anchieta são de 2024, e quem procura o assunto hoje não tem prazo aberto para cumprir. O que segue valendo é o desenho da operação: o projeto foi anunciado como permanente, com ampliação prevista para outros municípios nos meses seguintes, e cerca de 8 mil aparelhos furtados ou roubados já estavam identificados em todo o Estado, à espera de notificação nas fases seguintes.

A etapa anterior a esta já havia sido divulgada dias antes, quando a Polícia Civil apresentou o balanço da primeira etapa do Projeto Recupera, no fim de julho de 2024. E o percurso posterior mostra que a operação seguiu: um balanço de um ano depois, em julho de 2025, contabilizou mais de 700 celulares recuperados no Espírito Santo — número posterior a esta notícia e que não faz parte da fase descrita acima.

O material é comunicação oficial e traz um lado só. Não há avaliação independente do resultado, nem manifestação de quem foi intimado, e a ausência de crítica num texto desses não significa que não exista.

Canais públicos

Para crime em andamento ou emergência policial, o número é o 190. Para repassar informação sem se identificar, inclusive sobre venda de aparelhos de origem suspeita, o 181, o disque-denúncia. O registro de furto ou roubo de celular, com IMEI e telefone atualizado, é feito nos canais da própria Polícia Civil do Espírito Santo — que este material não relaciona. E vale a orientação que atravessa toda a operação: sem IMEI e sem telefone atualizado no boletim, não há como avisar o dono.

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