Dois grupos de estudantes da EEEFM Virginia Nova, escola estadual de Rio Novo do Sul, terminaram em segundo e em terceiro lugar na categoria Ciências da Natureza da feira de ciências do Vale do Cricaré, disputada em São Mateus. O anúncio é de 22 de outubro de 2024 e a competição já se encerrou: o material oficial não registra classificação para qualquer etapa posterior, nem prêmio, bolsa ou convite que continuasse valendo depois dela.
O nome do evento, na divulgação da Sedu, é Feira de Ciências e Humanidades do Vale do Cricaré, apresentado com a sigla FECRI. Foi ali que a escola inscreveu dois trabalhos do Ensino Médio, e os dois voltaram premiados. Vale precisar o alcance do resultado, que o texto oficial resolve com a palavra destaque: são duas colocações no pódio de uma mesma categoria, sem o primeiro lugar de nenhuma delas.
Casca de banana e borra de café: o que os dois trabalhos fazem
A equipe da primeira série montou um destilador caseiro para tirar biocombustível da casca da banana. A da terceira série partiu da borra de café, com a intenção de chegar ao biodiesel. As duas apostam na mesma lógica: pegar o que a cozinha descarta e devolver em forma de energia.
Como a divulgação usa os termos sem explicar, cabe traduzir. Biocombustível é o combustível obtido de matéria de origem vegetal ou animal, em vez de petróleo. Biodiesel é um dos tipos de biocombustível, empregado no lugar do óleo diesel. E destilador é o equipamento que separa substâncias aquecendo a mistura e recolhendo o vapor de volta em líquido — o princípio do alambique.
A descrição oficial de cada projeto cabe em uma linha e, no trecho sobre a terceira série, fica pela metade: a frase informa o material de partida e o produto pretendido, mas não diz que equipamento ou que processo aquele grupo usou. Também não há informação sobre os dois trabalhos terem chegado a produzir combustível de fato ou terem parado no protótipo, nem sobre quanto tempo, exatamente, levou a preparação — o texto fala em meses, sem número.
Os oito estudantes que assinam os projetos premiados
A divulgação nomeia oito integrantes nas duas equipes: Davi Poloni, Richard Bortoloti, Saulo Marquezini, Renan Castelari, Maria Heloísa Belique, Érica Castelari, Thaylane Debacker e Breno Valle. O texto oficial não informa quantos estudantes ficaram em cada grupo nem quem trabalhou em qual dos dois projetos, e, como as equipes vêm de séries diferentes, a lista sozinha não permite refazer a divisão. A composição de cada equipe, portanto, não está declarada em lugar nenhum do material.
O que disseram o professor e a estudante
Quem acompanhou as equipes foi o professor de Química da escola, e é dele o único balanço adulto que a divulgação registra.
Sempre que participo das feiras de ciências, é uma alegria muito grande, pois é uma forma de externar ao mundo a ciência que os alunos têm produzido em sala de aula. Ver alunos da rede pública sendo tão protagonistas do seu processo de ensino-aprendizagem me faz acreditar ainda mais numa educação de qualidade
A fala é de Tarcísio Leite, professor de Química que acompanhou os grupos na feira.
Entre os estudantes, a única declaração recolhida na escola de Rio Novo do Sul é de uma das integrantes das equipes premiadas.
Participar da Feira do Vale do Cricaré foi uma experiência incrível! Além de contribuir significativamente para o nosso aprendizado, nos permitiu explorar novas ideias, compartilhar conhecimentos e interagir com diversas pessoas. A feira nos desafiou a sair da nossa zona de conforto e nos proporcionou momentos de troca de informações e até mesmo crescimento pessoal. Foi uma oportunidade única para expandir nossos horizontes e enriquecer nossa jornada educacional
O depoimento é da estudante Maria Heloísa Belique.
Governador Lindenberg levou um terceiro projeto à mesma feira
A escola de Rio Novo do Sul não foi a única da rede pública na programação. A EEEFM Professor Carlos Mendes, de Governador Lindenberg, apresentou um protótipo que propõe aproveitar restos orgânicos para gerar energia limpa. A divulgação não diz em que colocação esse trabalho terminou, nem se ele concorreu na mesma categoria em que os dois grupos de Rio Novo do Sul foram premiados.
Participar da feira científica foi incrível! Tive a chance de mostrar nosso trabalho e aprender com as ideias dos outros projetos. Ver nosso esforço sendo valorizado me deixou ainda mais motivada a continuar pesquisando
A avaliação é da estudante Ana Elisa Beliqui Azevedo, que apresentou o protótipo.
O que ainda não se sabe sobre a feira de ciências do Vale do Cricaré
Este é o limite do material disponível. O evento é resumido em uma frase — a de que busca incentivar pesquisa e criatividade — e nada além disso é dito sobre ele. Ficam sem resposta pontos que qualquer família ou escola interessada em disputar uma próxima edição precisaria saber:
- quem organiza e promove a FECRI, com que apoio e com que financiamento;
- quantas escolas e quantos projetos disputaram esta edição;
- quais categorias existem além de Ciências da Natureza;
- quem ficou em primeiro lugar na categoria em que a escola de Rio Novo do Sul foi premiada;
- os dias exatos em que a feira ocorreu — há apenas a indicação de que foi na semana anterior à publicação, de 22 de outubro de 2024;
- quais critérios os avaliadores aplicaram e quem eram eles;
- se a premiação envolveu certificado, valor, material para a escola ou vaga em etapa seguinte;
- como uma escola se inscreve, em que prazo e sob quais regras.
Nenhuma dessas informações aparece no material, e não há endereço, telefone ou site do evento divulgado junto com o resultado — por isso nenhum canal de inscrição é indicado aqui.
Três nomes para o mesmo evento, e uma sigla que não fecha
Um detalhe que o próprio comunicado entrega: o evento aparece com três denominações diferentes dentro do mesmo texto. Na descrição, é a Feira de Ciências e Humanidades do Vale do Cricaré; na fala da estudante de Rio Novo do Sul, vira Feira do Vale do Cricaré; na da estudante de Governador Lindenberg, é apenas feira científica. A sigla adotada, FECRI, tampouco corresponde às iniciais do nome escrito por extenso. Nada disso foi acertado por conta própria nesta matéria: o que está acima é o que a fonte oficial informou, com a divergência assinalada em vez de emendada em silêncio.
Vale registrar, por fim, de onde vem tudo isso. O relato é integralmente oficial, produzido pela Sedu sobre escolas da própria rede, e traz um lado só: não há manifestação de avaliadores, de organizadores nem de outras escolas participantes. Ausência de crítica em um material assim não significa consenso — significa que ninguém de fora foi ouvido.
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