Imagem de divulgação sobre o projeto de cultivo sustentável de abacaxi premiado em feira de ciências regional

Abacaxi sustentável leva escola de Marataízes ao 1º lugar

Um projeto que propõe uma alternativa sustentável para o cultivo do abacaxi deu à Escola Estadual de Ensino Médio (EEEM) Professor José Veiga da Silva, de Marataízes, o primeiro lugar na categoria de Ciências Agrárias da Feira de Ciências do Sul do Estado (FECISC), realizada no município de Anchieta entre a quarta-feira (23) e a sexta-feira (25) de outubro de 2024. A feira já estava encerrada quando o resultado foi divulgado, e o que seguiu valendo depois dela não foi a colocação: foi a credencial para a escola disputar a Feira de Ciências e Inovação Capixaba (FECINC), de nível estadual.

O anúncio oficial resolve o trabalho premiado em uma única linha, e é essa linha que sustenta tudo o que se sabe do projeto: uma alternativa sustentável para o cultivo de abacaxi, com práticas mais ecológicas e acessíveis para a agricultura da região.

A equipe propôs — e a divulgação não diz que ela testou

O verbo do material é propor. Nenhuma frase do texto oficial afirma que as estudantes plantaram, aplicaram o método em lavoura, mediram colheita, compararam custo com o que se pratica hoje ou levaram a proposta a algum produtor. O que o comunicado descreve é o percurso da feira: um projeto desenvolvido na escola, apresentado ao público entre quarta e sexta-feira, avaliado ali e classificado em primeiro na sua categoria.

A distinção não é implicância de redação. Propor um manejo e comprovar que ele funciona no campo são etapas distintas de qualquer trabalho agronômico, e só a primeira está declarada aqui. Falta, junto com ela, o miolo técnico: o material não informa qual prática ecológica a equipe defende — adubação, controle de pragas, aproveitamento de resíduo da própria planta, espaçamento, irrigação —, não diz a que método atual ela se opõe, não estima custo e não indica quanto tempo durou a pesquisa. O leitor sai sabendo o tema do projeto e o resultado da disputa; não sai sabendo como a proposta funciona.

Primeiro lugar em uma categoria — e a Feira de Ciências do Sul do Estado não diz entre quantos

A colocação é de uma categoria, a de Ciências Agrárias. A existência dessa categoria implica que havia outras na mesma feira, mas o comunicado não nomeia nenhuma delas, não diz quantas eram e não registra quem venceu as demais.

Quantos trabalhos a equipe teve pela frente é a informação que dimensionaria o feito, e ela não aparece em lugar nenhum do material. Também não há quantas escolas se inscreveram, de quantos municípios elas vieram, quem avaliou os projetos e por quais critérios. Some-se um detalhe de linguagem que fecha a porta a qualquer conta: o texto fala em diversos trabalhos expostos e destaca um deles. Isso é recorte, não inventário — e, sem inventário, contar quantos concorreram seria conta do portal, não informação da fonte.

Quem organiza a Feira de Ciências do Sul do Estado é outra ausência. O comunicado dá o nome do evento, a sigla e a cidade onde ocorreu, e para por aí: não há promotor, apoiador, patrocínio nem endereço de inscrição para a edição seguinte.

A credencial vale mais que o troféu — até porque troféu nenhum é mencionado

O único prêmio que o material declara é uma credencial para representar a escola na FECINC, a etapa estadual. Credencial, aqui, é a vaga na fase seguinte: quem a recebe não ganha um objeto, ganha o direito de disputar de novo em nível mais alto. Medalha, troféu, certificado, bolsa ou valor em dinheiro não aparecem uma única vez no texto oficial.

Dois cuidados que o próprio material impõe. O primeiro é de origem: quem informa a credencial é o professor de Química Sérgio Souza Moreira, e ele a atribui à dedicação da equipe e ao modo como o projeto tratou problemas práticos da comunidade por meio da ciência. O segundo é de alcance: a credencial é para representar a escola, e não o município — o comunicado não diz que a equipe leva a representação de Marataízes.

E a etapa estadual não tem data no material. Não há dia, mês, cidade, formato nem regra de disputa da FECINC. Quem chega a este texto hoje está diante de um resultado consumado e de uma classificação cuja continuação o comunicado nunca detalhou.

O balanço de quem acompanhou a equipe

O professor de Química que acompanhou o grupo avalia que a feira serviu como espaço de aplicação do método científico e de treino em comunicação, trabalho em equipe e pensamento crítico. É nesse ponto que ele descreve o papel que as estudantes assumiram:

Eles vivenciaram o papel de pesquisadores, explorando a relação entre teoria e prática em um ambiente colaborativo que incentivou a criatividade e a curiosidade científica

A avaliação é do professor Sérgio Souza Moreira. Ele tem, no material, uma segunda declaração, mais longa, sobre o valor das feiras de ciências em geral — nela não há nenhuma informação sobre este projeto, sobre a disputa ou sobre a etapa estadual, e por isso ela não foi reproduzida aqui.

Do lado das autoras do trabalho, o material recolhe um único depoimento, feito ao fim do evento:

Durante a participação, aprimoramos nossas habilidades de apresentação e entendemos mais sobre nossa região. Quanto mais você busca conhecer a ciência e suas aplicações no dia a dia, mais entende o mundo ao redor e como pode contribuir para ele

O relato é de uma das integrantes da equipe premiada.

Por que esta reportagem não traz os nomes das autoras do projeto

A divulgação oficial nomeia as três estudantes que assinam o trabalho. Aqui, nenhum dos nomes é reproduzido, e a escolha é editorial — não é falha de apuração nem descuido de leitura.

Existe uma exceção conhecida a essa política: quando o nome é o fato, ele fica. Vale para quem foi eleita representante ou premiada individualmente, porque omitir apagaria o reconhecimento conquistado. O caso deste projeto foi medido contra esse critério e não se enquadra nele. Na frase da fonte, quem conquista o primeiro lugar é o projeto; as estudantes aparecem como autoras, sem premiação individual, sem medalha nominal e sem relação de vencedoras publicada nome a nome. A única delas citada duas vezes é a que dá o depoimento — ali o nome ancora uma fala, e a fala não perde nada ao ser atribuída pela função.

Do outro lado da conta está o custo de publicar. Basta juntar quatro dados que o comunicado oferece de graça — nome completo, escola, cidade e área do projeto — para que uma busca devolva uma pessoa específica, e a devolva daqui a dez anos, quando nada disso for mais assunto dela. Trata-se de estudantes da educação básica, e a proteção não depende de o contexto ser elogioso. Já o professor continua nomeado por outra razão: é ele quem assina a orientação do trabalho e responde por ela profissionalmente. Nenhum número saiu do texto por causa dessa decisão — o que saiu foram três nomes próprios.

Vale acrescentar o que a fonte também não diz sobre a equipe: não há a série das estudantes, não há a turma e não há informação sobre quantas horas de orientação o trabalho recebeu. A escola é de ensino médio pelo próprio nome oficial, mas o comunicado não vincula o projeto a nenhuma série específica.

Ciência em escola pública capixaba não é episódio isolado

O calendário escolar do Estado concentrou disputas parecidas em torno da mesma data. Semanas antes desta feira, ainda em outubro de 2024, estudantes de outra escola pública criaram protótipos de semáforos em sala de aula. Poucos dias depois do resultado de Anchieta, já em novembro de 2024, outra turma da rede pública levou pesquisas a uma mostra estadual de astronomia — evento posterior a este e sem ligação com ele. E em dezembro daquele ano, também depois desta feira, uma escola pública capixaba terminou em segundo lugar numa competição estadual de lançamento de foguetes, em disputa independente desta.

Perguntas que o comunicado deixou em aberto

  • em que consiste, na prática, a alternativa sustentável proposta para o abacaxi;
  • se o método chegou a ser testado fora da escola e com que resultado;
  • quantos projetos, escolas e municípios disputaram a FECISC;
  • quais eram as demais categorias da feira e quem venceu cada uma;
  • quem organiza a FECISC, com que apoio, e como uma escola se inscreve;
  • quem avaliou os trabalhos e sob quais critérios;
  • quando, onde e em que formato ocorre a FECINC, a etapa estadual credenciada;
  • se houve medalha, certificado, bolsa ou qualquer prêmio além da credencial;
  • a série das estudantes e o tempo de duração da pesquisa.

Um último registro sobre a natureza do texto de origem: ele é material de divulgação oficial sobre uma escola da própria rede estadual, com a versão de quem participou e de quem orientou. Não há manifestação de avaliadores, de organizadores da feira nem de qualquer outra escola concorrente. O que falta ali não é discordância — é qualquer voz de fora.

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