Estudantes de Guarapari no Instituto Terra e em hidrelétrica

Uma turma da EEEFM Angélica Paixão, em Guarapari, trocou a sala de aula pela estrada na quinta-feira (07). Uma única viagem colocou os estudantes de Guarapari no Instituto Terra, em Minas Gerais, e na Usina Hidrelétrica de Mascarenhas no mesmo dia — todos matriculados na eletiva Da horta ao Laboratório. A viagem já aconteceu e foi pontual: o material oficial que a divulgou não anuncia nova edição, não abre inscrição e não indica canal para quem quiser participar de uma próxima.

O que viram os estudantes de Guarapari no Instituto Terra e na usina

Foram duas paradas e dois assuntos que a eletiva trata separados em sala. Na hidrelétrica, o grupo acompanhou o caminho que a água percorre até virar eletricidade. No Instituto Terra, viu de perto trabalho de replantio de Mata Atlântica e de recuperação de área degradada.

Onde exatamente ficam as duas paradas, o material não diz. A localização da usina aparece só dentro da fala de uma das professoras, que a situa no Rio Doce e a descreve como a maior do Espírito Santo — descrição dela, não dado apurado à parte. Do Instituto Terra, o texto informa apenas o estado: Minas Gerais. Nenhum dos dois endereços vem com município, e o tempo de deslocamento também não é citado.

O que a escola diz ter buscado com a saída de campo

A justificativa registrada pela escola tem três eixos: aproximar o conteúdo de Ciências do que existe fora do caderno, formar postura crítica diante de questões socioambientais e aproximar a escola de espaços de relevância científica. Na prática, o argumento é o de sempre nesse tipo de atividade — ver funcionando o que foi estudado no quadro.

Vale entender o que é a tal eletiva, termo que a nota usa sem explicar: no ensino médio, é o componente que o próprio estudante escolhe cursar, ao lado das disciplinas obrigatórias. Quantas aulas semanais tem, quantos alunos cabem e como se entra nela são informações que o material não traz.

O que professores e um estudante contaram sobre a viagem

Para a professora de Química, o proveito foi tanto da turma quanto dela própria:

“A visita à usina, a maior do Espírito Santo, localizada no Rio Doce, proporcionou aos estudantes a oportunidade de conhecer de perto o funcionamento de uma importante fonte de energia hidrelétrica. Já no Instituto Terra, referência mundial em restauração ambiental, os alunos puderam acompanhar as ações de reflorestamento da Mata Atlântica e aprender sobre as práticas de desenvolvimento sustentável. Acredito que essas atividades contribuíram significativamente para a formação de futuros cidadãos mais conscientes e comprometidos com a preservação do planeta”

A avaliação é da professora de Química, Cátia Oliveira de Paula Morais.

O professor de Biologia foi na mesma linha, ao dizer que a saída permitiu casar o conteúdo de sala com a vivência:

“Todos trouxemos para casa grandes aprendizagens e lembranças de momentos especiais, pois é sempre muito bom desfrutar e compreender a natureza”

Quem afirma é o professor de Biologia, Saulo Nunes Santa Clara.

Do lado de quem viajou, ficou o registro de ter visto a produção de energia etapa por etapa e as fotografias expostas no instituto:

“A visita foi muito boa, pois nos permitiu ver de perto cada etapa na produção de energia elétrica. No instituto Terra, vimos as fotos do Sebastião Salgado, a dimensão que o projeto de reflorestamento ganhou foi uma oportunidade de aprender fora da escola”

O relato é de um estudante da turma. O material não explica quem é o autor das fotografias citadas por ele nem que relação as imagens têm com o projeto de reflorestamento.

Por que o nome do estudante não aparece nesta matéria

A fala acima veio assinada na nota oficial. Aqui ela entra sem o nome, e a escolha é editorial, não falha de apuração: nome de aluno da educação básica somado a escola, turma e município aponta uma pessoa dentro de um grupo pequeno, e esse registro fica indexado para sempre. A fala foi mantida inteira, sem corte por dentro. Os nomes dos dois professores ficam porque eles respondem pela iniciativa como profissionais, no exercício da função.

O que a nota oficial não informa — inclusive se outra escola do município pode ir

O texto divulgado é curto e deixa de fora quase tudo que um pai, um professor ou um estudante de Guarapari perguntaria depois de ler:

  • quantos estudantes viajaram — não há um único número de participantes;
  • como a turma foi escolhida: se foram todos os matriculados na eletiva ou uma parte;
  • quem recebeu o grupo em cada parada, e se a ida partiu de convite, de agendamento comum ou de parceria firmada;
  • quem custeou transporte e alimentação;
  • quanto tempo durou a atividade em cada local;
  • se houve qualquer oferta concreta ao fim da visita — estágio, vaga, curso, processo seletivo ou programa de aprendizagem. Nada disso aparece: o material descreve uma atividade pedagógica, e só;
  • se a experiência terá continuidade no ano seguinte.

E há a ausência que mais interessa a quem lê daqui: o material não diz se outras escolas de Guarapari podem participar de edições futuras. Não há critério, não há prazo, não há canal de inscrição e não há sequer a informação de que uma próxima edição exista. Quem quiser saber se a escola do próprio filho pode entrar num roteiro parecido não encontra a resposta na nota — teria de buscá-la na direção da própria unidade. Escrever que o programa estaria aberto às escolas do município seria inventar: o texto não sustenta.

Um lado só, e isso precisa ficar dito

Todo o relato da viagem — objetivos, resultados e avaliação — vem da própria rede estadual de ensino, que organizou a atividade e a divulgou. Não há no material avaliação de terceiros, nem manifestação de famílias, nem qualquer contraponto sobre custo, alcance ou critério de escolha da turma. A ausência de crítica no texto oficial não significa que não exista: significa que ninguém foi ouvido além de quem promoveu a saída.

Visita técnica virou prática comum nas escolas de Guarapari

A saída do Angélica Paixão não ficou isolada no município, embora os episódios seguintes sejam bem posteriores a esta viagem. Já em 2025, estudantes do curso técnico em Administração de Guarapari acompanharam a rotina de uma fábrica de chocolates e, meses depois, outra turma do município passou por práticas de segurança em altura dentro de uma empresa. São escolas, cursos e datas diferentes — o que os três casos têm em comum é o formato, não uma mesma iniciativa.

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