Uma escola estadual de Iconha, a EEEFM Coronel Antônio Duarte, realizou uma feira para que os alunos do 8º ano do Ensino Fundamental revisassem, fora do formato de aula, o conteúdo de Ciências que já tinham visto em sala. Nada aqui está por vir: a feira foi montada e desmontada na segunda-feira, dia 9 de dezembro de 2024, e a avaliação citada na única fala de estudante do material só chegaria às escolas quase um ano depois.
A atividade recebeu o nome de Workshop Review Stand – A Feira dos Descritores e foi organizada pelo professor Hiury Marques Marvila. Segundo o comunicado da Sedu, a secretaria estadual de Educação, o objetivo era consolidar os descritores da disciplina por meio de metodologias ativas — dois termos que o texto oficial usa sem explicar ao leitor o que significam.
O que a escola estadual de Iconha organizou em um só dia
Pelo relato oficial, a feira abriu a porta para pais e para a comunidade local, além dos próprios estudantes, e as atividades receberam três rótulos: gamificação, oficinas práticas, desafios em equipe. É até onde o material vai: os três formatos são nomeados e nenhum deles é descrito. Não há uma banca, uma pergunta, um jogo ou uma oficina contada por dentro, e o texto tampouco informa quantas pessoas passaram por ali, quantos alunos do 8º ano participaram ou quantas turmas a escola envolveu.
O comunicado também afirma que os alunos saíram dali preparados de maneira eficaz para futuras provas. Essa é a única medida de resultado que ele apresenta, e ela não vem acompanhada de nota, comparação, prova aplicada antes e depois nem qualquer indicador. Quem escreveu a frase foi a mesma secretaria que responde pela escola.
A avaliação do professor que organizou a feira
Foi o professor responsável pela atividade quem descreveu o efeito dela sobre a turma, em declaração distribuída junto com o anúncio da secretaria:
“Foi emocionante testemunhar o engajamento dos alunos ao transformarem a revisão em um momento de protagonismo e interação. Eles não apenas consolidaram os conteúdos, mas também desenvolveram habilidades essenciais como pensamento crítico, colaboração e autonomia”
Hiury Marques Marvila é o nome dele. Permanece identificado nesta reportagem porque responde profissionalmente pela iniciativa: foi quem idealizou e conduziu a feira, na condição de professor da rede estadual.
Por que a aluna citada aparece aqui sem nome
O nome dela está no texto da secretaria. Não está aqui. Nome, escola, ano escolar e município, somados, apontam uma pessoa específica entre poucas dezenas, e essa combinação segue ao alcance de qualquer busca anos depois — bem além do dia da feira. A fala entra inteira, sem cortes, atribuída pela função que ela exercia ali:
“As atividades foram muito diferentes das aulas tradicionais e me senti mais envolvida e à vontade para aprender. Foi muito bom poder trabalhar em equipe, resolver desafios e entender como aplicar o que aprendemos na prática. Isso me deixou mais confiante para a prova do PAEBES 2025”
A frase é de uma estudante do 8º ano que participou da feira. Vale reparar em uma coisa: o exame que ela nomeia é o dado mais concreto de todo o material, e ele não aparece em nenhuma linha escrita pela secretaria. A prosa oficial fala apenas em futuras provas, sem dizer quais.
A prova que ela citou já foi aplicada
PAEBES é o nome que aparece na fala da estudante, e nada além disso: o comunicado não diz o que é essa prova, quem a aplica, o que ela mede, quando é aplicada nem para onde vai o resultado. Quem quiser saber o que são essas provas pode ver, em texto separado deste, o que são as avaliações externas aplicadas nas escolas capixabas e quem responde por cada uma.
Quanto à edição citada pela estudante, ela deixou de estar no futuro: o portal registrou, à parte e quase um ano depois desta feira, a aplicação das provas do Paebes 2025 na rede estadual do Espírito Santo. O que nenhum comunicado oficial trouxe até aqui é como foi o desempenho desta turma de Iconha, ou de qualquer escola em particular, depois daquele dia de revisão.
Sete perguntas que o comunicado sobre a feira deixa sem resposta
- Quantos alunos do 8º ano participaram, e se outras turmas ou anos foram envolvidos.
- O que são, em linguagem de quem não trabalha em escola, os descritores que a feira pretendia consolidar.
- Como funcionaram, na prática, a gamificação, as oficinas e os desafios em equipe.
- Se pais e comunidade estiveram ali como público ou como participantes das atividades.
- Quais eram as futuras provas mencionadas pela secretaria, já que o Paebes só é nomeado dentro da fala da estudante.
- Se a feira foi iniciativa isolada do professor ou parte de um programa da rede estadual, com previsão de repetição em outras escolas.
- Se houve alguma medição de aprendizagem antes e depois da atividade, capaz de sustentar a preparação eficaz que o texto afirma.
Quem não foi ouvido
Quem escreveu e distribuiu o anúncio foi a própria Sedu, que administra a escola e recolheu tanto a fala do professor quanto a da aluna. As duas vozes do material estavam dentro do evento. Ninguém de fora dele foi consultado: nem os pais que assistiram, nem a direção da unidade, nem professores de outras disciplinas, nem qualquer pesquisador capaz de dizer se uma feira de um dia altera o aprendizado de uma turma. Não há crítica no material porque não houve pergunta a quem pudesse fazê-la.
A mesma escola, um mês antes
Não é a primeira vez que a unidade de Iconha aparece por atividade fora da rotina de sala. No mês anterior a esta feira, a escola já havia entregado a premiação de dez alunos seus numa olimpíada nacional de eficiência energética — ocasião distinta desta, com outra atividade e outro calendário.
Sobre o que veio depois, o comunicado se encerra na própria feira: não diz se a feira teve nova edição em 2025, se o formato foi adotado por outras escolas da rede ou se o material produzido pelos alunos ficou guardado em algum lugar.
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