Imagem divulgada sobre a operação policial deflagrada em Boa Esperança, no Noroeste do Espírito Santo

Operação Forseti prende 14 em Boa Esperança; um sai sob fiança

A Polícia Civil do Espírito Santo (PCES) pôs na rua a Operação Forseti em Boa Esperança, no Noroeste do Estado, na madrugada de quarta-feira, dia 18, e o saldo divulgado foi de 14 pessoas presas. A ação partiu da Delegacia de Polícia (DP) Boa Esperança, em conjunto com as Polícias Militar do Espírito Santo (PMES) e Penal do Espírito Santo (PPES), envolveu 120 agentes e levou às ruas 12 mandados de prisão e 27 de busca e apreensão, todos expedidos pela Justiça. Nenhuma das 14 pessoas foi julgada ou condenada nesta etapa, a apuração corre sob segredo de Justiça — e uma delas já tinha deixado a delegacia sob fiança quando a corporação divulgou o caso.

A PCES datou o fato pela metade: escreveu quarta-feira e o número 18, sem mês e sem ano. Esta página foi publicada em 19 de dezembro de 2024, no dia seguinte ao da ação.

Um dos 14 pagou fiança, e é o próprio release que conta

O texto oficial anuncia 14 prisões no primeiro parágrafo e, quatro parágrafos abaixo, desfaz uma delas: com um homem de 41 anos foi apreendida uma arma de fabricação caseira e, na frase seguinte, a corporação registra que ele foi liberado após pagamento de fiança. Não é desdobramento posterior nem informação que alguém apurou depois: está no mesmo documento que anuncia as prisões.

A consequência prática é que o número 14 descreve quantas pessoas foram presas naquela madrugada, e não quantas seguiam detidas quando o caso virou notícia. A PCES não diz por qual conduta esse homem foi autuado, quem arbitrou a fiança, de quanto ela foi, nem se alguma das demais pessoas presas também foi liberada nas horas seguintes.

Sete flagrantes dentro das 14 prisões, e 12 mandados que a nota não amarra

A corporação abre uma segunda contagem dentro da primeira: dos 14 presos, sete foram detidos em flagrante. Flagrante não depende de ordem prévia de juiz nenhum: vale quando a pessoa é alcançada no meio do fato ou na sequência imediata dele. Ou seja, sete das 14 prisões não dependeram de nenhum dos 12 mandados.

Sobre as prisões restantes, o material silencia: não diz que vieram de mandado, não diz que vieram de flagrante, não diz nada. E os 12 mandados de prisão ficam sem destino declarado — se todos foram cumpridos, se algum alcançou pessoa que já estava sob custódia, se algum segue pendente. Encaixar as duas contagens uma na outra exigiria uma aritmética que a corporação não fez, e o resultado seria nosso, não dela. Os totais ficam aqui exatamente como a PCES os publicou, lado a lado e sem ponte entre eles.

Pessoa a pessoa: o que a PCES descreve em cada flagrante

O release detalha sete situações de flagrante. Nesta ordem:

  • Um homem de 22 anos — 150 pedras de crack, 30 buchas de maconha, uma pedra grande de crack de 11,5 gramas, um simulacro de pistola modelo Glock e R$ 131,46 em espécie.
  • Um homem de 26 anos — cinco pedras de crack, um caderno com anotações sobre o tráfico e R$ 616,00.
  • Um homem de 49 anos — uma pedra de crack de 20 gramas e um recipiente com farelo da mesma substância.
  • Um homem de 26 anos e uma mulher de 20 anos — três tabletes de maconha (1,856 quilo), 35 munições calibre .40, 217 g de cocaína e R$ 9.735,95 em espécie.
  • Um homem de 41 anos — uma arma de fabricação caseira. É a única pessoa cujo desfecho a nota informa: saiu sob fiança.
  • Um jovem de 22 anos — uma bucha de maconha.

A contagem só fecha em sete se as sete situações forem sete pessoas diferentes, e a nota não afirma isso. A idade de 22 anos aparece duas vezes, em blocos separados, e a de 26 anos também. Nada no texto diz se são quatro pessoas ou duas citadas duas vezes. A leitura corrida resolve sozinha o que a corporação deixou em aberto.

Nenhum enquadramento penal aparece nas 14 prisões

Esta é a lacuna que mais pesa e a mais fácil de atravessar sem ver: o material não nomeia um único crime imputado a quem foi preso. Tráfico de drogas aparece duas vezes no texto — para descrever o alvo da investigação, uma organização criminosa que atuaria na região, e no caderno de anotações apreendido com um dos homens. Em nenhum dos dois casos é acusação formalizada contra pessoa identificada.

Por isso, as 14 pessoas presas na Operação Forseti em Boa Esperança continuam sendo, no vocabulário do próprio release, suspeitas — não traficantes, não integrantes de organização criminosa, não condenadas. Investigação sob segredo de Justiça significa exatamente que o conteúdo do que se apura não está público, nem para o leitor, nem para esta reportagem.

Entrar, prender e soltar são três autorizações distintas

Os três números do primeiro parágrafo pertencem a mundos jurídicos diferentes, e vale separá-los antes de lê-los juntos:

As 27 ordens de busca e apreensão abrem portas: cada uma vale para um endereço e permite levar embora o que interessar à apuração. Nenhuma delas autoriza prender quem estiver lá dentro. Os 12 mandados de prisão fazem o contrário: alcançam pessoas, não lugares, e são escritos por um juízo antes da ação. Já o flagrante não é ordem, é situação: nasce no momento e segue para um juízo, que pode manter a prisão, trocá-la por outra medida ou devolver a pessoa à liberdade. A fiança, que apareceu num dos casos, é o valor pago para responder em liberdade enquanto a apuração corre; não encerra o processo nem equivale a absolvição.

O release não informa qual juízo expediu as ordens — escreve apenas que foram expedidas pela Justiça — nem quantas das 27 buscas terminaram com algo recolhido.

A lista de apreensões aparece duas vezes, e não se sabe se é a mesma

Num parágrafo, a corporação apresenta o apanhado geral da operação: dois veículos — um Ônix e um Celta —, três motocicletas, arma de fogo e simulacro de arma de fogo, munições, além de uma quantidade que o texto chama de significativa de drogas e dinheiro. Nos parágrafos seguintes, aparece a lista pessoa a pessoa, com o simulacro de Glock, as 35 munições calibre .40 e a arma de fabricação caseira.

O material não diz se a segunda lista está dentro da primeira ou se é acréscimo a ela. Quem lê corrido pode contar duas vezes a mesma arma e a mesma munição. E a arma de fogo do apanhado geral não reaparece com dono na lista detalhada — a única arma atribuída a alguém é a de fabricação caseira, cujo portador saiu sob fiança.

Sobre os veículos e as motocicletas, a nota não informa proprietário, placa, situação de registro nem vínculo com qualquer uma das 14 pessoas. E a expressão quantidade significativa não é medida: não há peso total das drogas nem soma do dinheiro apreendido. Os valores em espécie que o texto publica pertencem a flagrantes individuais e somá-los seria produzir um número que a corporação não deu.

O que o delegado disse sobre os alvos da Operação Forseti em Boa Esperança

O titular da DP Boa Esperança, delegado George Zan, é a única voz do material. Ao descrever a origem da operação, ele situou os alvos da investigação:

“Os alvos principais atuavam nos bairros Vila Tavares, Vila Fernandes, Centro e Boa Vista. A operação visa enfraquecer a estrutura criminosa e trazer mais segurança para a população local”

A frase é da autoridade que conduz a apuração e descreve onde, segundo a investigação, os alvos atuariam — não onde eles moram, não a que bairro cada preso pertence e não uma característica dos quatro bairros. Boa Esperança é município pequeno, e ler a lista como retrato dos quatro bairros seria estender a fala do delegado bem além do que ela diz. A nota, aliás, não diz em que endereços as prisões aconteceram.

Ninguém do outro lado aparece no documento: não há palavra de defesa constituída, de familiar de qualquer uma das 14 pessoas ou de morador dos quatro bairros citados. O texto foi escrito e distribuído pela corporação que fez a ação, e a versão que ele carrega é a dela. O silêncio das outras partes é do documento, não das partes.

De quem eram os veículos, e outras lacunas da nota de 18 de dezembro

  • Por qual crime cada um dos 12 mandados de prisão foi expedido.
  • Sob que modalidade se deram as prisões que não estão entre os sete flagrantes.
  • O paradeiro das ordens de prisão que a madrugada não consumiu: se continuam pendentes, se foram cumpridas depois, se alcançavam alguém já sob custódia.
  • Se as sete situações de flagrante correspondem a sete pessoas distintas.
  • Peso total das drogas, soma do dinheiro e a existência de laudo pericial sobre o que foi recolhido — a nota não menciona nenhum.
  • A quem pertenciam os dois veículos e as três motocicletas, e se algum deles foi ligado a alguma das pessoas presas.
  • O que fizeram, concretamente, a PMES e a PPES na ação, e como os 120 agentes se dividiam entre as três corporações.
  • Em quais endereços as 27 ordens de busca foram usadas, e o que saiu de cada um deles.
  • Qual juízo expediu as ordens.
  • Se as demais pessoas presas seguiam detidas, e se passaram por audiência.

Forseti: a única parte do release que avalia a própria operação

O comunicado fecha com um bloco explicando a escolha do nome. Forseti, informa a corporação, é o deus da justiça, da meditação e da reconciliação na mitologia nórdica, descrito como juiz sábio e pacificador, conhecido pela imparcialidade — atributos que, segundo o texto, simbolizam o objetivo da ação: restaurar a ordem e a segurança em Boa Esperança.

Esse é o único trecho em que o documento diz o que a operação significa, e quem o diz é quem a executou. Se a ordem e a segurança do município mudaram depois de 18 de dezembro, o release não tinha como saber: foi escrito no mesmo dia da ação.

O canal que o próprio delegado indicou

Ao encerrar, George Zan pediu ajuda para identificar outras pessoas envolvidas:

“A colaboração da população é fundamental. Qualquer informação que ajude na identificação de outros envolvidos pode ser repassada anonimamente pelo Disque-Denúncia 181”

O 181 recebe relato sem identificação de quem liga. Para crime em andamento ou emergência, o número é o 190. São os dois canais que o caso comporta: o material não descreve vítima, perfil ou contexto que justifique indicar qualquer outro serviço especializado.

Uma operação duas semanas antes, e o 181 em números

Duas semanas antes desta madrugada, num caso sem ligação alguma com este — outra cidade, outras pessoas, outra investigação —, a mesma corporação chegou a um descompasso parecido entre ordens judiciais e prisões na operação que terminou com nove pessoas presas, também conduzida pela Polícia Civil. Já o canal citado por Zan é objeto de um levantamento posterior sobre o volume de denúncias de maus-tratos a animais recebidas pelo 181, divulgado meses depois da Operação Forseti e sem relação com ela.

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