Carnaval 2025 no ES: cinco indicadores caem e um sobe

A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp) divulgou na quinta-feira (06) o balanço da Operação Carnaval 2025 no Espírito Santo. A folia já tinha acabado quando o documento saiu: a última ocorrência descrita no documento é de terça-feira (04), e a divulgação veio dois dias depois, quando não havia mais folia para proteger. Pelos números atribuídos à Gerência do Observatório da Segurança Pública (Geosp), cinco indicadores caíram na comparação com 2024 — homicídios, mortes no trânsito, crimes contra o patrimônio, perturbação da tranquilidade e vias de fato — e um subiu: os crimes relacionados à violência doméstica. A Sesp informa também que não houve registro de feminicídios nem de latrocínios no período.

Duas palavras do título antigo que o balanço não usa nenhuma vez

O post que trouxe este balanço ao portal foi publicado sob a promessa de um Carnaval mais seguro na folia e nas estradas. Nenhuma das duas expressões existe no documento da Sesp. A palavra segura, em qualquer forma, tem zero ocorrências; estrada e rodovia também.

Trocar essas palavras não é ajuste de redação. O que o balanço mede no trânsito são mortes em decorrência de acidentes de trânsito, categoria que inclui a via urbana, a avenida de bairro e o acesso ao ponto de folia — não apenas a pista entre municípios. Reduzir isso a estradas troca o universo do dado. E mais seguro é uma comparação: quem afirma precisa dizer em relação a quê, por quantos anos e para qual dos indicadores. O balanço responde a essas perguntas para um deles, parcialmente para outros e para nenhum no conjunto.

Seis homicídios dolosos, e a única série que o documento apresenta

Em 2025 o Estado registrou seis homicídios dolosos no período, o menor número da série histórica do Carnaval capixaba, iniciada em 2001. Os casos ocorreram em Afonso Cláudio, Cariacica, Sooretama, São Mateus, Vitória e Vila Velha. Antes de 2025, o menor registro havia sido o de 2022, com 14 casos. As tentativas de homicídio passaram de 39, em 2024, para 36, em 2025.

Aqui, e apenas aqui, existe série: são mais de duas décadas de contagem e dois pontos de comparação nomeados. Para todos os outros indicadores, o balanço mostra um único ano anterior — 2024. Um ano contra outro é variação; não é tendência, e não sustenta sozinho um adjetivo de longo prazo.

Este ano atingimos um dado histórico, que é a menor quantidade de homicídios dolosos em um Carnaval. Este é um dado muito significativo, que podemos atribuir ao planejamento prévio e ao empenho operacional das forças de segurança. Fizemos este planejamento com base na mancha criminal, levando em conta os locais de maior incidência de crimes patrimoniais e crimes contra a vida, e podemos afirmar que este planejamento foi exitoso

Quem assim avalia o resultado é o secretário de Estado da Segurança Pública e Defesa Social, Leonardo Damasceno. Vale o registro de quem fala: a leitura de causa entre o planejamento e a queda é do próprio órgão que planejou e executou a operação, e o balanço não traz avaliação de ninguém de fora nem indicador que separe o efeito do policiamento de outros fatores. Para quem quiser a série anual, e não a do feriado, o portal já publicou o fechamento do ano anterior em Espírito Santo termina 2024 com menos de 900 homicídios pela primeira vez em 28 anos, publicado em janeiro de 2025, antes deste balanço e com outro recorte de tempo.

Nove mortes no trânsito, e duas unidades de medida no mesmo parágrafo

No trânsito, o balanço informa nove vítimas fatais em decorrência de acidentes no Carnaval de 2025, contra 12 registros no ano anterior, o que a Sesp apresenta como redução de 25%.

Repare no par de substantivos: de um lado vítimas, de outro registros. Não são a mesma unidade — um acidente registrado pode deixar mais de uma pessoa morta, e o documento não diz quantos acidentes houve em nenhum dos dois anos nem converte uma medida na outra. O percentual acima é o do próprio órgão, republicado sem refazer a conta.

Destacamos três estratégias que utilizamos, com foco no trânsito: a produção e veiculação de campanhas educativas; uma operação logo no primeiro dia, sexta-feira, para criar um impacto na abertura do Carnaval, integrado a uma estratégia nacional; e a presença sistemática da fiscalização, em conjunto com as forças de segurança, durante todo o feriado

O relato das estratégias é do diretor-geral do Detran|ES, Givaldo Vieira, e descreve o que foi feito, não o que se obteve: campanha, operação de abertura e fiscalização são atividades, e o balanço não mede quantas abordagens, autuações ou testes cada uma produziu.

Patrimônio: a maior queda do balanço, e as linhas que vêm sem percentual

Os roubos e furtos contra pessoas passaram de 168 casos, em 2024, para 64, em 2025 — queda que a Sesp descreve como de aproximadamente 62%. Nas outras duas linhas do mesmo bloco, o documento informa apenas os números absolutos: roubos e furtos em residências caíram de 42 para 25 casos, e em comércios, de 41 para 25. O órgão não publicou percentual para essas duas, e calcular a taxa por fora colocaria no balanço um número que ele não tem.

Outros dois indicadores completam o bloco de quedas. Os casos de perturbação da tranquilidade passaram de 57 para 47 registros, o que a Sesp associa a menos reclamações de som alto. E os registros de vias de fato foram de 68, em 2024, para 66, em 2025 — variação que o próprio documento chama de leve redução e lê como estabilidade nos conflitos interpessoais.

Há um limite embutido em todos esses números, e ele vale para o balanço inteiro: o que se conta é ocorrência registrada. Um indicador cai quando menos gente é vitimada e cai também quando menos gente procura a delegacia. O material não distingue as duas hipóteses e não traz nenhuma medição independente que ajude a separá-las.

A violência doméstica subiu 5,5%, e é a metade que o título escondia

O único indicador em alta na comparação com 2024 foi o dos crimes relacionados à violência doméstica: foram 284 registros em 2025, contra 269 em 2024, crescimento de 5,5%. No mesmo período, a Polícia Civil do Espírito Santo (PCES) realizou 731 requerimentos de Medidas Protetivas de Urgência (MPU).

Isso demonstra que as mulheres estão tendo mais coragem de denunciar seus agressores e procurar ajuda policial. Temos que destacar que nossos policiais estão à disposição, preparados, para receber essa denúncia, acolher essa mulher e dar o devido encaminhamento. Temos que parabenizar essas mulheres e encorajá-las, para que nenhum agressor fique impune

Assim leu a alta o delegado-geral da PCES, José Darcy Arruda. A interpretação é do órgão e vem sem apoio numérico no próprio balanço: não há série de violência doméstica anterior a 2024, não há pesquisa de subnotificação e não há separação entre denúncia espontânea e flagrante. Mais registros podem significar mais denúncia, mais violência ou as duas coisas — o documento não oferece o dado que decidiria.

Os 731 requerimentos, do mesmo modo, aparecem sem número de 2024 ao lado e sem informar quantos foram concedidos. Requerimento é pedido; a decisão é de outra instância.

Pedido e deferimento: por que 731 não é o número de medidas em vigor

Os 731 do balanço são requerimentos — papel que a delegacia protocola. Vale como pedido, jamais como proteção já valendo: cabe a um juízo examinar e deferir, em prazo curto, e só depois disso existe restrição cujo descumprimento vira crime novo. As duas contagens, portanto, nunca coincidem, e o total divulgado nada diz sobre quantas mulheres saíram do feriado amparadas por decisão judicial.

O alcance do instituto também é maior do que se costuma imaginar. Além da distância mínima que todo mundo associa a ele, cabem no mesmo pedido o corte de contato por telefone e aplicativo, a saída compulsória do agressor de casa, a suspensão do porte de arma, limites ao regime de visitas aos filhos, valor provisório de alimentos e a recondução da mulher ao imóvel de onde ela saiu. Advogado não é exigido para pedir, e o pedido não obriga ninguém a decidir de antemão se levará a acusação adiante.

Nada disso depende de feriado. Com a agressão em curso, o número é o 190. Para orientação e encaminhamento quando a agredida é mulher, o 180 atende sem custo, todos os dias, a qualquer hora. Quem prefere informar sem se identificar liga 181. E delegacia protocola pedido de proteção em qualquer dia do ano, inclusive fora de plantão de feriado.

Três mortes ligadas à atuação policial no mesmo período

O balanço apresentado como redução também relata três mortes ocorridas em ação policial durante o feriado, e este é o dado mais grave do documento. A Polícia Militar registrou 11 ocorrências de enfrentamento no período, com dois óbitos em decorrência de confronto — um em Guriri, São Mateus, em local de folia, e outro em Cobi de Cima, Vila Velha, que o texto relaciona ao tráfico de drogas.

A terceira ocorreu na terça-feira (04), na Barra do Jucu, em Vila Velha. Segundo a Sesp, houve uso de força para conter um indivíduo que desacatou e agrediu os policiais; o homem foi socorrido e morreu na unidade hospitalar. O caso está sob apuração da Corregedoria da Polícia Militar e do Serviço de Investigações Especiais (SIE) da Polícia Civil. A descrição da conduta é a versão da própria corporação, divulgada dois dias depois do fato: a apuração ainda corria quando o balanço saiu, e o material não traz outra versão nem informa se a família foi ouvida.

Dois cuidados de leitura, porque o documento não os faz. Primeiro: ele não diz se essas três mortes estão dentro ou fora dos seis homicídios dolosos contados no início — são recortes apresentados em blocos separados, sem conciliação. Segundo: Guriri fica em São Mateus e Cobi de Cima em Vila Velha, dois dos seis municípios que aparecem na lista dos homicídios dolosos, mas o balanço em momento algum liga uma coisa à outra. Quem juntar os dois parágrafos estará somando por conta própria — o balanço não faz essa ligação em momento algum.

11.797 agentes é o que foi mobilizado, não o que foi obtido

A operação mobilizou 11.797 agentes das forças de segurança estaduais, além das Guardas Municipais e de outros órgãos, segundo o balanço. Vale ler a frase inteira: o número conta apenas o efetivo estadual. As Guardas Municipais e os outros órgãos ficam de fora da cifra, não são nomeados e não são quantificados — logo, o total de pessoas em campo não aparece em lugar nenhum.

E efetivo é insumo. Quantos agentes foram escalados diz o que o Estado colocou na operação, não o que ela alcançou; os dois lados só se ligam se alguém apresentar a conta, e o documento não a apresenta.

Do lado das ações, 491 pessoas foram detidas ou conduzidas a delegacias em todo o Estado, contra 467 em 2024, e 50 armas de fogo foram apreendidas — este último número sem comparação com ano anterior. O registro de menores passou de 29 para 51, alta que o balanço chama de expressiva e associa a maior envolvimento de jovens em atos infracionais.

Duas imprecisões de vocabulário atravessam esse trecho. Detido e conduzido descrevem situações distintas: quem é levado à delegacia apenas para prestar esclarecimento não está preso, e o balanço junta as duas situações num só total, sem dizer quantas viraram prisão. E adolescente não é detido: é apreendido, por ato infracional análogo a crime, e responde por um percurso diferente do de um adulto. O documento usa o verbo do regime adulto para os dois grupos.

De que dia a que dia — a pergunta que o balanço não responde

Nenhuma comparação entre dois anos se sustenta sem a base. Em nenhuma linha o documento diz quando a Operação Carnaval 2025 começou nem quando foi encerrada, não diz quantos dias durou e não declara qual janela de 2024 foi usada como termo de comparação. O que aparece são duas pistas soltas: a menção a uma ação de fiscalização no primeiro dia, uma sexta-feira, e a ocorrência de terça-feira (04).

Isso importa porque contagem de ocorrência é sensível ao tamanho da janela. Se um dos recortes tiver um dia a mais que o outro, parte da diferença entre 168 e 64, ou entre 269 e 284, vem do calendário e não da segurança. Sem o intervalo declarado nos dois anos, não há como saber quanto de cada variação é uma coisa e quanto é a outra.

Quem produziu os números da Operação Carnaval 2025

Os dados são atribuídos à Gerência do Observatório da Segurança Pública, que é uma gerência da própria Sesp — a secretaria que planejou e executou a operação, e que assina o balanço. Não há nada de irregular nisso, e é assim que a estatística criminal se produz; mas cabe deixar registrado: quem mede e quem é medido são a mesma casa.

O documento não informa de qual sistema, banco de dados ou espécie de registro os números saíram, não diz se são preliminares ou consolidados, não traz metodologia e não indica prazo de revisão. Também não aparece nenhum dado de origem independente, e ninguém de fora do Estado foi ouvido: não há especialista, universidade, conselho, defensoria ou entidade da sociedade civil no material.

Onde o balanço para de contar

  • O período exato da operação em 2025 e a janela equivalente de 2024;
  • quantos dias cada recorte cobriu, e se os dois têm a mesma duração;
  • se as três mortes em ação policial estão dentro ou fora dos seis homicídios dolosos;
  • quantos acidentes de trânsito houve, já que um lado do dado conta vítimas e o outro conta registros;
  • quantos dos 731 requerimentos de medida protetiva foram deferidos;
  • qual o número de registros de violência doméstica antes de 2024, que permitiria ver tendência em vez de variação;
  • quantas das 491 pessoas detidas ou conduzidas foram efetivamente presas, e por quê;
  • quantas apreensões de armas houve em 2024, para comparar com as 50 de 2025;
  • de que fonte de registro saíram os números e se são preliminares;
  • quantos agentes municipais e de outros órgãos se somaram aos 11.797 estaduais;
  • e quanto custou a operação — o balanço não traz uma única cifra financeira.

O que este texto vale hoje

A folia de 2025 acabou, a operação foi encerrada e não há nada aqui a que o leitor precise comparecer. O que fica é o número, e a advertência de como lê-lo: houve queda em cinco indicadores e alta em um, com série longa apenas para os homicídios dolosos e comparação de um ano só para o resto. Sobre eventuais edições seguintes da operação, o documento sequer toca no assunto: não anuncia, não descarta, não menciona. Isso é silêncio, e silêncio não é promessa.

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