O governador Renato Casagrande cumpriu agenda em Jaguaré, na microrregião Nordeste do Espírito Santo, na sexta-feira (07), 7 de março de 2025, para inaugurar obras de escola, de drenagem e pavimentação e a reforma do Estádio Conilon. Nem tudo, porém, no pacote de obras em Jaguaré anunciado pelo Governo do Estado está pronto para uso: parte foi entregue, parte apenas teve a Ordem de Serviço assinada — ou seja, não tem uma pedra assentada — e parte o material oficial nem sequer declara concluída. São seis itens em estágios diferentes, e esta matéria separa cada um.
Entregue, assinado ou em andamento: por que a diferença muda tudo
Agenda de governo costuma reunir, sob o mesmo verbo inaugurar, coisas que estão em pontos muito distintos do caminho. Quem lê e vai bater na porta da obra precisa saber em qual deles está pisando. Os três estágios que aparecem em Jaguaré:
- Entregue. A obra está concluída e foi formalmente aberta. É o único estágio em que o leitor pode chegar ao local e encontrar o equipamento funcionando.
- Assinado ou autorizado. A Ordem de Serviço é o documento que autoriza o início da execução. Assiná-la é o passo que antecede o canteiro: não há construção feita no dia da assinatura. Entre a assinatura e a entrega existe todo o prazo de execução, que o material oficial pode ou não informar.
- Em andamento ou apenas mencionado. O material fala em investimento e em obras, mas usa verbo de processo — tem impulsionado, por exemplo — e não declara conclusão, não declara data e não diz quanto foi para cada unidade.
Misturar os três produz a leitura errada: o morador entende que a quadra do bairro já existe e vai usá-la; a família entende que a vaga já está aberta e vai matricular a criança. Abaixo, item por item, com o estágio de cada um.
Os seis itens das obras em Jaguaré, um a um
- ENTREGUE — Escola Municipal de Educação Fundamental (EMEF) Benedita dos Santos Silva, em Barra Seca. Construção nova, apresentada como uma das principais entregas do dia. R$ 7,5 milhões, com recursos do Fundo Estadual de Apoio à Ampliação e Melhoria das Condições de Oferta da Educação Infantil (FUNPAES). É unidade da rede municipal custeada por fundo estadual. Quem executou a obra não é informado.
- ENTREGUE — Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Irmã Tereza Altoé. Reforma e ampliação, declaradas entregues. É o único item da agenda sem cifra nenhuma: o material não diz quanto custou, de que programa saiu o dinheiro nem quem executou. Também não descreve o que a reforma incluiu.
- SEM CONCLUSÃO DECLARADA — Escola Comunitária Rural Municipal (ECORM) Japira, ECORM Giral e EMEF Orélio. O Programa Capixaba de Fomento à Implementação de Escolas Municipais de Ensino Fundamental em Tempo Integral (PROETI) tem impulsionado reformas e ampliações nessas unidades. O verbo é de processo, não de entrega. Mais de R$ 6 milhões para novas salas, bibliotecas, refeitórios ampliados e áreas de lazer, com 640 crianças beneficiadas. O material não diz quanto coube a cada escola, não dá prazo e não afirma que essas obras foram inauguradas nesta agenda. As três são da rede municipal.
- ENTREGUE — drenagem e pavimentação de 13 vias públicas nos bairros Irmã Tereza Altoé e Seac. 1.020 metros lineares de rede de drenagem, poços de visita, calçamento em bloco de concreto e camada asfáltica de Concreto Betuminoso Usinado a Quente (CBUQ). Repasse de R$ 3,74 milhões pelo Fundo Cidades – Adaptação às Mudanças Climáticas. O alcance declarado é de cerca de 2.500 habitantes dos dois bairros. Quem executou não é informado.
- ENTREGUE — reforma do Estádio Conilon. Feita por convênio entre o Governo do Estado, pela Secretaria de Esportes e Lazer (Sesport), e a Prefeitura Municipal. R$ 597 mil em reforma de vestiários, pintura das arquibancadas e de suas estruturas e reforma das cabines de imprensa. O material não informa quanto entrou de cada lado do convênio.
- APENAS AUTORIZADA — quadra poliesportiva coberta do bairro Boa Vista II. O que houve foi a assinatura da Ordem de Serviço. A obra não começou. Investimento previsto de R$ 1,48 milhão e área total de 8.820 metros quadrados, com arquibancada, banheiros com acabamento em piso cerâmico, banheiros adaptados para Pessoas com Necessidades Especiais (PNE), bebedouros, pintura e iluminação adequada. Não há prazo de conclusão, data de início nem empresa executora no material oficial.
Quem descreveu a assinatura da quadra sem eufemismo foi o próprio governador, na fala sobre os investimentos do dia:
Também estamos fazendo investimentos no esporte com a reforma do campo e autorizando o início da construção de quadra poliesportiva.
A declaração é do governador Renato Casagrande. Autorizar o início é exatamente o que uma Ordem de Serviço faz, e é diferente de entregar.
A escola de Barra Seca: capacidade projetada não é vaga aberta
O item mais caro do dia é a construção da EMEF Benedita dos Santos Silva, com 08 salas de aula, sala de informática, banheiros acessíveis, refeitório, quadra poliesportiva e outros espaços pedagógicos. Pelo release, o atendimento direto chega a 400 crianças: são 250 vagas que já existiam e seguem de pé, mais 150 criadas com a nova unidade, no Ensino Fundamental.
Esse número pede leitura cuidadosa, porque é o que mais confunde em matéria de escola. As 400 são capacidade, não matrícula. Das 400, 250 já eram atendidas antes: a obra as transferiu de lugar, não as criou. O ganho líquido declarado de atendimento é de 150 vagas. E vaga criada no papel não é vaga aberta — o material não diz quantas das 150 já foram ocupadas, se a matrícula está aberta, para quais séries nem em que turno. Uma família de Barra Seca que ler apenas o anúncio pode ir à unidade atrás de algo que ainda não está disponível.
Há ainda um ponto que o release deixa sem explicação: o fundo que bancou a obra é o FUNPAES, cujo nome oficial trata da Educação Infantil, enquanto as vagas descritas são de Ensino Fundamental. O material não esclarece como se dá esse enquadramento nem se houve contrapartida do município.
As 13 ruas: a lista nominal não fecha com o total declarado
A entrega de infraestrutura é apresentada como drenagem e pavimentação de 13 vias públicas, e o mesmo número de 13 ruas aparece na abertura do release. Em seguida, o material relaciona as vias, bairro a bairro. Reproduzidas na íntegra:
- Bairro Irmã Tereza Altoé: Janaína Sessa, Antônia Cristina de Bona, Valdemar Medeiros, Vovô França, Assunta Venturini, Eugênio Salles, Japira, Constante Casagrande, Uirapuru, Zilda Sartório Altoé e Marilândia.
- Bairro Seac: Itarana, Japira, Boa Esperança e Jequitibá.
A lista nominal não fecha com o total declarado. São 11 nomes no primeiro bairro e 4 no segundo, o que dá 15 entradas, ou 14 nomes distintos, porque Japira aparece nos dois bairros. O texto oficial, no entanto, declara 13 vias. Não há como saber, pelo material, se o total de 13 está defasado, se duas das vias listadas entraram por engano ou se a Japira dos dois bairros é o mesmo logradouro contado uma vez só. A checagem não é possível com o que o release traz, e por isso a lista vai aqui inteira, como publicada, e o número declarado também.
Uma observação para quem for procurar o endereço: Irmã Tereza Altoé é, ao mesmo tempo, o nome de um dos bairros pavimentados e o nome da escola estadual reformada na mesma agenda. São coisas distintas.
A justificativa técnica da obra é anterior a ela: os dois bairros já constavam, para a Defesa Civil Municipal, entre os pontos onde a água sobe. A avaliação do resultado, no material oficial, é da secretária de Estado do Governo, Maria Emanuela Alves Pedroso, também apresentada como gestora do Fundo Cidades:
Antes, os moradores sofriam com alagamentos causados pela falta de escoamento das águas em períodos chuvosos, devido à inexistência de rede de drenagem, e com dificuldade de circulação de veículos pela falta de pavimentação. Obras como essa proporcionam mais qualidade de vida e desenvolvimento aos municípios capixabas
A avaliação é da secretária de Estado do Governo, Maria Emanuela Alves Pedroso. O material não informa a extensão pavimentada das vias: o único número de comprimento divulgado, 1.020 metros lineares, se refere à rede de drenagem, e não ao asfalto. São coisas diferentes e não devem ser somadas nem trocadas uma pela outra.
Estádio Conilon e quadra do Boa Vista II: um está pronto, o outro não existe
Os dois itens esportivos da agenda estão em pontos opostos. A reforma do Estádio Conilon, que o release descreve como uma das principais praças esportivas do norte do Espírito Santo e onde manda o Jaguaré Esporte Clube, clube que naquele ano estava na primeira divisão do Campeonato Capixaba, foi inaugurada. Custou R$ 597 mil e ficou nos vestiários, na pintura das arquibancadas e de suas estruturas e nas cabines de imprensa. É reforma de estrutura de apoio, não ampliação: o material não menciona mudança em capacidade de público, em gramado ou em iluminação do campo.
Já a quadra poliesportiva coberta do Boa Vista II teve apenas a Ordem de Serviço assinada. O secretário de Estado de Esportes e Lazer fala dela no futuro, e o tempo verbal da própria fonte confirma o estágio:
Já a nova quadra poliesportiva será um espaço essencial para incentivar a prática esportiva entre os moradores da região. Com uma estrutura de qualidade para treinos, também será uma oportunidade para os jovens que pensam no esporte de alto rendimento se desenvolverem
A avaliação é do secretário de Estado de Esportes e Lazer, José Carlos Nunes. Um detalhe do descritivo merece atenção de quem mora no bairro: o material fala em área total de 8.820 metros quadrados, sem dizer se esse número é o terreno inteiro do equipamento ou apenas a construção, e sem detalhar quanto disso é a quadra em si.
Os valores, um a um, e por que não existe um total
Somar as cifras das obras em Jaguaré num único total é o erro mais comum na cobertura de obra pública, e produz um número que não corresponde a nada. As razões, neste caso, são três, e todas objetivas:
- Um dos itens não tem valor. A reforma e ampliação da EEEFM Irmã Tereza Altoé foi entregue sem cifra divulgada. Qualquer total estaria incompleto desde o começo.
- Os estágios são diferentes. R$ 7,5 milhões de escola pronta e R$ 1,48 milhão de quadra que ainda não começou não são a mesma espécie de dinheiro: um já foi gasto, o outro é previsão de gasto futuro.
- Uma das cifras não é do dia. Os mais de R$ 6 milhões do PROETI aparecem como investimento em curso em três unidades, sem recorte de data e sem divisão por escola.
Por isso os valores ficam como o material os apresenta, cada um com o que cobre e de onde vem: R$ 7,5 milhões (FUNPAES, construção da EMEF Benedita dos Santos Silva); mais de R$ 6 milhões (PROETI, três unidades, sem detalhamento); R$ 3,74 milhões (Fundo Cidades – Adaptação às Mudanças Climáticas, drenagem e pavimentação); R$ 597 mil (convênio entre Sesport e Prefeitura Municipal, Estádio Conilon); R$ 1,48 milhão (quadra do Boa Vista II, ainda não iniciada); e sem valor divulgado (EEEFM Irmã Tereza Altoé).
O que significam FUNPAES, PROETI, Fundo Cidades e CBUQ
O release usa quatro siglas sem explicar nenhuma. Em linguagem direta:
- FUNPAES — Fundo Estadual de Apoio à Ampliação e Melhoria das Condições de Oferta da Educação Infantil. É a fonte estadual do dinheiro que construiu a escola de Barra Seca.
- PROETI — Programa Capixaba de Fomento à Implementação de Escolas Municipais de Ensino Fundamental em Tempo Integral. É o programa estadual que banca obras em escolas municipais que ampliam a jornada do aluno.
- Fundo Cidades – Adaptação às Mudanças Climáticas — é um dos eixos do Programa Capixaba de Mudanças Climáticas. Banca obra que reduz risco de desastre, que evita estrago de chuva forte e que recupera rio, córrego e nascente. Foi de onde saíram os R$ 3,74 milhões da drenagem.
- CBUQ — Concreto Betuminoso Usinado a Quente. É o asfalto usinado aplicado sobre a base da via, a camada final do pavimento.
Vale registrar também a diferença de rede que o release não destaca: EMEF e ECORM são unidades municipais; EEEFM é unidade estadual. Das escolas citadas na agenda, apenas uma é da rede estadual. As demais são municipais atendidas com dinheiro e programas do Estado, o que significa que a manutenção do dia a dia dessas unidades segue com a Prefeitura Municipal.
O que o material oficial não informa
A ausência também é informação, e neste caso ela é extensa:
- Prazo. Nenhum item tem data. A quadra do Boa Vista II não tem prazo de conclusão nem data de início; as obras do PROETI não têm previsão de entrega.
- Quem executa. Nenhuma empresa ou responsável pela execução é nomeado em item algum.
- O valor da reforma da EEEFM Irmã Tereza Altoé e o que ela incluiu.
- A divisão dos recursos do PROETI entre ECORM Japira, ECORM Giral e EMEF Orélio, e se as 640 crianças se referem apenas a essas três unidades.
- Matrícula. Quantas das 150 novas vagas da EMEF Benedita dos Santos Silva estão efetivamente abertas, em que séries e a partir de quando.
- A divisão do convênio do Estádio Conilon entre Governo do Estado e Prefeitura Municipal.
- A metragem pavimentada das vias. O único comprimento divulgado é o da rede de drenagem.
- A conferência da lista de ruas contra o total de 13 declarado.
Um registro final sobre a natureza do material: trata-se de divulgação oficial de agenda de governo, e nele aparece um lado só. Nenhum morador dos bairros Irmã Tereza Altoé e Seac, nenhuma família de Barra Seca, nenhum profissional das escolas e nenhuma voz de fora do poder público é ouvida. A ausência de crítica no material não significa que não exista.
Quem participou da agenda
A lista de presenças do release nomeia prefeitos de dez municípios: Marcos Guerra (Jaguaré), Davi Ramos (Vila Valério), Lubiana Barrigueira (Nova Venécia), Edilson Monteiro (Pinheiros), João Trancoso (Vila Pavão), Erivan Tavares (Conceição da Barra), Marcos Batista (São Mateus), Fernando Camiletti (Sooretama), Gutim Astori (Marilândia) e Claudio Rodrigues (Boa Esperança). Estiveram presentes ainda o deputado federal Gilson Daniel; os deputados estaduais Marcelo Santos, Hudson Leal, Raquel Lessa, Denninho Silva e Toninho da Emater; e os secretários de Estado Vitor de Angelo (Educação), Guerino Balestrassi (Recuperação do Rio Doce) e Felipe Rigoni (Meio Ambiente e Recursos Hídricos).
Sobre o eixo educacional da visita, o governador ligou a agenda ao crescimento econômico da região:
Vemos o quanto essa região tem crescido na área industrial, com portos e precisaremos de mão de obra especializada e somente através da educação chegaremos lá
A afirmação é do governador Renato Casagrande. O material não apresenta dado, estudo ou projeção que sustente a relação entre as obras entregues e a demanda industrial citada.
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