Obras em Brejetuba: o que foi entregue e o que só foi assinado

As obras em Brejetuba anunciadas pelo governo estadual na sexta-feira (05) chegaram ao município em estágios bem diferentes, embora o anúncio as apresente como um pacote só. Duas creches municipais foram efetivamente entregues; o Centro de Eventos Cafezão teve apenas a primeira etapa concluída; a reforma da Praça Xista Badaró não saiu do papel — o que houve foi a assinatura do convênio; e os recursos para ampliar uma escola, comprar equipamentos e reformar postos de saúde são repasses anunciados, sem obra iniciada nem prazo declarado. O material distribuído pela secretaria estadual de Educação trata o conjunto como um bloco de entregas. Não é.

Obras em Brejetuba: o que ficou pronto e o que só foi autorizado

Separar item por item é o primeiro serviço que este texto presta, porque quem lê uma matéria assim costuma ir cobrar o que leu. A lista abaixo segue o estágio que o próprio material declara, com o verbo que ele usa:

  • ENTREGUE — EMEI Marilza Charpinel de Sousa. O texto diz que a unidade foi entregue na agenda.
  • ENTREGUE — EMEI Pierina Côco Belizário. Mesma condição.
  • PARCIALMENTE ENTREGUE — Centro de Eventos Cafezão, pavimentação e adequação da área externa, primeira etapa. Quantas etapas o projeto tem, quando saem as seguintes e quanto custam, o material não diz.
  • APENAS AUTORIZADO — reforma da Praça Xista Badaró, na Rua Nestor Dutra da Rosa, no Centro de Brejetuba, no valor de R$ 6,8 milhões. O que ocorreu foi a assinatura do convênio; o verbo do próprio release é futuro, a praça vai se transformar em ponto de encontro. Sem data de início e sem prazo de conclusão.
  • APENAS ANUNCIADO — cerca de R$ 1,8 milhão para a ampliação da EMEI Jaqueline Dela Costa de Freitas. É repasse, não obra em andamento.
  • APENAS ANUNCIADO — R$ 1,2 milhão para a aquisição de equipamentos das EMEIs São Sebastião e Pierina Côco Belizário. Dinheiro destinado à compra: os equipamentos ainda não foram comprados.
  • APENAS ANUNCIADO — R$ 500 mil, primeira parcela, para reforma e ampliação de UBS no município. A obra não começou e a data da segunda parcela não aparece.
  • SEM ESTÁGIO DECLARADO — as ruas novas e as outras duas obras de escolas municipais que o governador menciona na fala. Nada disso é descrito no corpo do material: não há nome de rua, valor, extensão nem prazo.

Nas próprias palavras do governador, o pacote mistura tempo presente e tempo futuro:

Estamos inaugurando duas novas unidades de ensino e temos duas outras obras de escolas municipais com recursos do Governo do Estado.

A frase é do governador Renato Casagrande. O detalhe está no temos duas outras obras: são escolas que ainda não existem para o aluno. E aqui aparece a primeira divergência interna do material — o corpo do texto nomeia uma obra de escola pendente, a ampliação da EMEI Jaqueline Dela Costa de Freitas. As outras duas EMEIs citadas, São Sebastião e Pierina Côco Belizário, aparecem para receber equipamento, que não é obra. A fala diz duas; a lista nominal sustenta uma. Ficam registradas as duas versões, sem escolher lado.

Por que não existe um total de investimento do dia

É tentador somar as cifras e anunciar um número redondo. Seria um número falso, e por três motivos somados. Antes deles, um dado que a soma esconderia: as duas maiores cifras do dia não correspondem a obra concluída — os R$ 7,2 milhões cobrem apenas a primeira etapa do Cafezão, e os R$ 6,8 milhões da praça estão num convênio recém-assinado.

Primeiro, os estágios são incompatíveis: dinheiro já gasto em prédio pronto não se soma a convênio recém-assinado nem a parcela de repasse. Segundo, há item sem valor próprio: as duas escolas entregues aparecem sob um investimento conjunto superior a R$ 6 milhões, e o material não diz quanto custou cada uma; as ruas prometidas na fala não têm cifra alguma. Terceiro, nem toda cifra citada é de Brejetuba — os R$ 68 milhões do 2º ciclo do Plano Decenal APS +10 são o orçamento estadual do programa inteiro, com R$ 1 milhão previsto por município contemplado, dos quais o município recebeu metade agora.

Vale ainda anotar o arredondamento: o texto fala em quase R$ 3 milhões de novos repasses e detalha cerca de R$ 1,8 milhão mais R$ 1,2 milhão. Os valores exatos não são informados, e o próprio release sinaliza a imprecisão ao escrever cerca de.

250 vagas: capacidade não é o mesmo que vaga nova

O número mais repetido em anúncio de creche é o de vagas, e é o que mais engana. O material afirma que as intervenções permitiram a criação e manutenção de mais de 250 vagas na Educação Infantil. As duas palavras não são sinônimas: manter vaga é continuar atendendo criança que já era atendida, provavelmente em outro prédio; criar vaga é abrir lugar para quem estava de fora.

Quantas das 250 são novas, o material não separa. Também não informa quantas estão ocupadas hoje, quantas crianças seguem na fila e qual o tamanho da demanda no município. O ganho líquido de atendimento — que é o número que interessa a quem procura creche — não está publicado.

Cafezão: as parcelas de área não fecham com o total

A primeira etapa do Cafezão recebeu R$ 7,2 milhões. O material declara área total de intervenção de 21.800 metros quadrados e, em seguida, tenta detalhar a distribuição citando o pavilhão, 3.569,11 metros quadrados, 279 metros quadrados e 71 metros quadrados entre lojas e banheiros.

Duas ressalvas honestas ao leitor. A primeira: o trecho está incompleto na origem, sem dizer a que se referem os 279 e os 71 metros quadrados. A segunda: as parcelas descritas ficam muito abaixo do total declarado de 21.800 metros quadrados. Os números vão aqui como o material os apresenta, sem refazer conta e sem publicar um total alternativo — quem responde pela discrepância é quem divulgou. O espaço, diz o texto, beneficia diretamente os 12.838 habitantes do município.

Uma escola inaugurada e equipada no mesmo dia

Há um detalhe que o release entrega sem querer e que ajuda a entender o que significa entregar uma obra. A EMEI Pierina Côco Belizário aparece duas vezes no mesmo material: entre as unidades inauguradas e entre as beneficiárias do R$ 1,2 milhão para compra de equipamentos. Ou seja, a escola foi entregue e, no mesmo dia, o Estado anunciou o dinheiro para equipá-la. Inauguração e pleno funcionamento não são a mesma data — e o material não diz quando os equipamentos chegam.

O secretário de Estado de Saneamento, Habitação e Desenvolvimento Urbano faz a mesma separação, com todas as letras:

As obras que entregamos e as que estamos iniciando hoje são um marco para a cidade.

A frase é de Marcos Soares. Sobre o centro de eventos, o próprio governador usa o gerúndio e o futuro:

Também estamos fazendo o Cafezão, um centro de eventos que vai impulsionar as festas da cidade.

O glossário que o material não dá

Três termos aparecem no texto oficial sem tradução, e sem eles o leitor não entende de onde vem o dinheiro.

  • Funpaes — Fundo Estadual de Apoio à Ampliação e Melhoria das Condições de Oferta da Educação Infantil e do Ensino Fundamental. É o fundo do Estado que banca prédio de creche e de escola da rede municipal. Foi com esse recurso que as duas EMEIs entregues foram construídas.
  • Convênio — o acordo que autoriza o repasse e define a obra. Assinar convênio é o passo que permite contratar a execução; não é obra começada. É esse o estágio da Praça Xista Badaró.
  • APS +10 — o material chama de 2º ciclo do Plano Decenal APS +10 o programa que banca reforma de posto de saúde. O release não explica o que a sigla significa, não diz quantos municípios estão contemplados e não informa quais UBS de Brejetuba serão reformadas.

O que o material não informa, e o lado que não foi ouvido

A lista de ausências é longa e vale mais que o anúncio: valor individual de cada escola entregue; quantas das 250 vagas são novas; número de etapas, prazo e custo restante do Cafezão; data de início e de conclusão da praça; cronograma da segunda parcela da saúde; quais UBS entram na reforma; nome e extensão das ruas prometidas na fala; e quem executa cada uma das obras.

Um registro final, de método. Este é um material oficial produzido pelo governo estadual, que é parte interessada nas obras que anuncia. Nele não há morador de Brejetuba, professor da rede municipal, mãe ou pai na fila da creche, vereador ou voz de oposição. Ausência de crítica em release não é consenso — é apenas o formato do documento, que existe para divulgar, e não para submeter a obra a contraditório.

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