Obras em Rio Novo do Sul: o que foi entregue e o que falta — Direto Notícias

Obras em Rio Novo do Sul: o que foi entregue e o que falta

O governador Renato Casagrande cumpriu agenda em Rio Novo do Sul na sexta-feira, 1º de agosto de 2025, acompanhado do vice-governador Ricardo Ferraço e do prefeito Nei Castelari. O que saiu daquela tarde, porém, não é um pacote único: as obras em Rio Novo do Sul apresentadas na solenidade estão em quatro estágios diferentes. Uma parte foi inaugurada e já pode ser usada. Uma quadra teve apenas a ordem de serviço assinada — ou seja, ainda não existe. Um repasse para a assistência social foi oficializado, mas nada foi construído com ele. E o bloco escolar, que deu nome à editoria em que este texto ficou arquivado por anos, é o que menos avançou: nenhuma escola foi entregue nesta agenda.

Essa distinção não é detalhe de redação. Quem lê “entregas” e vai bater na porta de um equipamento que ainda está na fase de papel volta para casa sem o serviço. Abaixo, item por item, o que já vale hoje, o que foi apenas autorizado e o que segue sendo intenção.

Entregue, assinado ou só apresentado: o estágio de cada obra em Rio Novo do Sul

Pronto e em uso a partir de 1º de agosto de 2025:

  • calçamento rural em 11 comunidades — R$ 727 mil;
  • quadra poliesportiva coberta no bairro Recanto do Sol — R$ 1,8 milhão;
  • campo Bom de Bola da comunidade de Santa Rita — R$ 886 mil;
  • revitalização do campo Bom de Bola do Centro Poliesportivo Antônio Luiz da Silva — R$ 329 mil;
  • recapeamento asfáltico da Estrada Quarteirão de Santana – Cachoeirinha, ao longo de 1,2 km;
  • ponto de apoio à Unidade Básica de Saúde na Comunidade de São Vicente, com cerca de 131,21 m²;
  • melhorias no Centro Poliesportivo Municipal Antônio Luiz da Silva, no Centro da cidade;
  • ampliação do Cras do município — R$ 300 mil.

Os três últimos itens de rua, saúde e esporte dessa lista saíram de um repasse único de R$ 2,62 milhões do Fundo Cidades. O material não abre quanto coube a cada um deles.

Ainda não existe — só houve assinatura ou anúncio:

  • Ordem de Serviço assinada para a quadra poliesportiva do distrito de Princesa, orçada em R$ 871 mil. Assinar a ordem é autorizar o começo; a obra não estava pronta no dia e o material não divulga prazo de conclusão;
  • repasse oficializado de R$ 1,4 milhão para erguer o Creas e a Brinquedopraça. O dinheiro foi formalizado, os equipamentos não foram construídos;
  • projeto apresentado da EMEIEF Vital Lucas, que abriria 400 vagas. É projeto: não há valor, prazo nem obra em campo;
  • reformas em andamento na EMEF Bodart Júnior e na EMEIEF Quarteirão. Estão acontecendo, não terminaram, e o material não diz quando terminam nem quanto custam.

Há ainda um item que a solenidade relembrou, mas que não é entrega do dia: o novo prédio do CEI Joaquina Nogueira, que já estava funcionando. O texto oficial usa a expressão “já foi contemplada” e não informa a data em que a unidade foi inaugurada.

Não tem nenhum governo que faça tanto investimento nos municípios como nós fazemos. Se a gente faz, a gente cria esperança de que podemos fazer mais.

A frase é do governador Renato Casagrande, no discurso da solenidade. É uma comparação com outras gestões, e o material divulgado não traz nenhum dado comparativo — série histórica, ranking, volume por município — que permita ao leitor conferir a afirmação.

Calçamento rural: 11 comunidades, e a lista bate com o total

Foi a intervenção de maior alcance geográfico do dia. O Estado comprou e entregou 11.122 metros quadrados de blocos de concreto e 4.133 metros de meios-fios, num investimento de R$ 727 mil. A divisão de tarefas está declarada e importa para quem vai cobrar depois: pelo Programa Calçamento Rural, coordenado pela Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), quem paga e entrega o material é o Governo do Estado; quem executa a obra é a Prefeitura Municipal. Reclamação sobre acabamento, portanto, tem dois endereços possíveis, e o material não define qual deles responde por defeito.

As comunidades atendidas são estas:

  • Mundo Novo
  • Virgínia Nova
  • Virgínia Velha
  • Itataíba I
  • Itataíba II
  • São Caetano
  • Capim Angola
  • Princesa
  • Couro dos Monos
  • Pau D’Alho
  • Monte Alegre

Conferida uma a uma, a relação traz 11 nomes distintos e fecha com as 11 comunidades declaradas — o que nem sempre acontece em release de pacote de obras. Vale registrar que Princesa aparece três vezes na mesma agenda: recebeu calçamento, é onde funciona a unidade de saúde citada mais adiante e é o distrito da quadra que teve apenas a ordem de serviço assinada.

Melhora a mobilidade, facilita o escoamento da produção agrícola e traz dignidade para os moradores. São obras que resultam da parceria entre Estado e municípios, com foco em gerar oportunidades e promover infraestrutura nas comunidades rurais

A avaliação é do secretário de Estado da Agricultura, Enio Bergoli. O material não informa quantos moradores ou quantas propriedades são atendidos pelos trechos calçados, nem qual a extensão total em quilômetros — os números divulgados são de área de bloco e de metragem de meio-fio, que não se convertem em extensão de via sem a largura, que também não foi informada.

Quadras e campos: duas entregas, uma revitalização e uma obra que ainda não começou

O bloco esportivo é o que mais mistura estágios, e é onde o leitor apressado erra. Foram três estruturas entregues e uma apenas autorizada.

A quadra poliesportiva coberta do bairro Recanto do Sol, de R$ 1,8 milhão, saiu de uma parceria entre o Governo do Estado e a Prefeitura Municipal, com a Secretaria de Esportes e Lazer (Sesport) e o Departamento de Edificações e de Rodovias (DER-ES). Essa está pronta.

O campo Bom de Bola da comunidade de Santa Rita, com aporte de R$ 886 mil em recursos estaduais, foi entregue com a seguinte ficha técnica:

  • gramado sintético;
  • sistema de drenagem;
  • piso cimentado para aquecimento;
  • bancos de reservas;
  • alambrado de cinco metros de altura sobre base de alvenaria rebocada e pintada;
  • iluminação com seis postes de concreto, cada um com três refletores.

A iluminação é o item que decide se a comunidade joga à noite ou não, e é a diferença prática mais concreta desse tipo de obra para quem trabalha durante o dia. O material não informa, porém, quem fica responsável pela conta de energia e pela manutenção do gramado depois da entrega — a pergunta que costuma aparecer dois anos depois.

Já o campo Bom de Bola do Centro Poliesportivo Antônio Luiz da Silva não é obra nova: foi revitalizado, por R$ 329 mil, com troca do gramado sintético, preparação do solo, instalação de base, sistema de drenagem, caixa de campo e substituição das traves.

E aqui entra o item que o título original escondia. O governador assinou a Ordem de Serviço para uma nova quadra poliesportiva no distrito de Princesa, com investimento previsto de R$ 871 mil. Assinatura de ordem de serviço é o ato que libera o início dos trabalhos — não é inauguração, não é obra pronta e não garante data. O projeto prevê 728,77 metros quadrados de área construída, com banheiros, vestiários feminino e masculino, cozinha, cantina e cinco lances de arquibancada. Nada disso existia no dia da solenidade.

Fundo Cidades: R$ 2,62 milhões para três obras, sem quanto foi cada uma

Três das entregas saíram de repasse direto do Fundo Cidades ao município, num total de R$ 2,62 milhões. O material não abre o valor de cada obra separadamente, e não explica o critério pelo qual o município foi contemplado nem como outra prefeitura pode pleitear o mesmo. São elas:

1. Recapeamento asfáltico da Estrada Quarteirão de Santana – Cachoeirinha. Foram 1,2 km recapeados com Concreto Betuminoso Usinado a Quente (CBUQ) — a massa asfáltica aplicada aquecida, usada em pista de rolamento. O trecho ganhou meio-fio, sinalização horizontal e vertical e 210 tachões refletivos em plástico injetado bidirecional, os refletores que marcam a pista à noite nos dois sentidos.

2. Ponto de apoio à Unidade Básica de Saúde, na Comunidade de São Vicente. Este é o item de serviço mais relevante do pacote e o que vem pior explicado no material oficial. A unidade de referência — a ESF 01, batizada de Milton Sangiorgio — fica na Comunidade de Princesa, a 25 km de São Vicente. Ou seja: o que foi entregue leva atendimento para perto de quem antes precisava vencer essa distância. A estrutura tem aproximadamente 131,21 m² e conta com:

  • três salas de atendimento médico;
  • um consultório odontológico;
  • uma sala de procedimento;
  • uma sala de Enfermagem;
  • uma sala de curativo;
  • ventiladores em todas as salas.

O que falta é justamente o que o morador precisa saber para usar: o material não divulga dias e horários de funcionamento, quais profissionais atendem em cada dia, se há agendamento e por qual canal. Também não expande a sigla ESF nem informa quantas pessoas passam a ser cobertas pelo ponto de apoio.

3. Melhorias no Centro Poliesportivo Municipal Antônio Luiz da Silva, no Centro da cidade. O equipamento recebeu construção de vestiário, esquadrias em alumínio anodizado, porta de abrir tipo veneziana no mesmo material, portão de ferro em barra chata e cobertura com telhas onduladas de fibrocimento sobre estrutura de madeira de lei. Foram feitas ainda pavimentação em blocos pré-moldados de concreto tipo Pavi-S, piso cerâmico esmaltado PEI 5, pintura com tinta látex PVA em paredes e forros, instalações hidrossanitária e elétrica, colocação de vidros, espelhos, bancada e divisória de granito.

Uma observação de leitura: o texto oficial menciona a reforma do Centro Poliesportivo com recursos do Fundo Cidades duas vezes, em trechos diferentes — uma no bloco de esporte, sem valor algum, e outra dentro do conjunto de R$ 2,62 milhões. O material não diz se são a mesma intervenção contada duas vezes ou duas frentes distintas no mesmo equipamento. Como não há como decidir pelo texto, ficam registradas as duas menções, sem escolher lado.

Assistência social: uma ampliação pronta e R$ 1,4 milhão que ainda é papel

Foi inaugurada a ampliação do Centro de Referência em Assistência Social (Cras) do município, com R$ 300 mil de investimento estadual. O Cras é a porta de entrada da assistência social no município — é onde a família procura acompanhamento e é encaminhada para os benefícios e serviços da rede.

Na mesma solenidade, o Estado oficializou o repasse de R$ 1,4 milhão para construir o Centro de Referência Especializado em Assistência Social (Creas) e a Brinquedopraça. Atenção ao verbo: oficializar repasse não é entregar equipamento. Nenhum dos dois existia no dia, e o material não informa prazo de obra, data de início nem previsão de inauguração. O Creas atende situações que já envolvem violação de direitos, um degrau acima do Cras. A Brinquedopraça é apresentada como espaço público voltado a crianças de 0 a seis anos e suas famílias, dentro dos objetivos do Plano Estadual Pela Primeira Infância (Pepi).

O material acrescenta uma meta estadual, que não é de Rio Novo do Sul: até 2026, 145 unidades socioassistenciais devem ser construídas, ampliadas ou reformadas em todo o Espírito Santo, somando mais de R$ 118 milhões. Não há informação sobre quantas dessas 145 já ficaram prontas até aqui, nem quantas cabem a este município.

Escolas: o bloco que deu nome à editoria e não teve nenhuma entrega

É a parte que mais exige atenção, porque é a que menos avançou. Pelo Fundo Estadual de Apoio à Ampliação e Melhoria das Condições de Oferta da Educação Infantil e do Ensino Fundamental no Espírito Santo (Funpaes), o Estado aporta recursos na infraestrutura escolar do município. As unidades citadas são todas da rede municipal — o Estado entra com o financiamento, não com a gestão das escolas.

O estágio de cada uma:

  • EMEIEF Vital Lucas — apenas projeto apresentado. A construção “possibilitará a criação de 400 vagas”, distribuídas entre creche, pré-escola e Ensino Fundamental I. Nenhuma dessas vagas existe hoje, e o material não traz valor da obra nem prazo;
  • EMEF Bodart Júniorreforma em andamento, com ampliação de 50 vagas. A escola “passará a beneficiar 400 crianças”. O ganho declarado é de 50 vagas: os 400 são o total previsto depois da obra, e não um atendimento novo de 400 crianças;
  • EMEIEF Quarteirãoreforma e ampliação em andamento, com manutenção de 150 vagas e criação de 50 novas vagas. Aqui o próprio texto oficial separa o que já existia do que é acréscimo: o ganho é de 50;
  • CEI Joaquina Nogueira — prédio novo já entregue antes desta agenda, em data que o material não informa. Substituiu a estrutura interditada por causa das enchentes de 2018 e foi construído em cota elevada. Atende hoje 323 crianças de 0 a 5 anos — que em boa parte já eram atendidas na estrutura anterior, e não são, portanto, atendimento criado agora.

Estamos garantindo que as escolas tenham a infraestrutura adequada para atender bem aos nossos estudantes. Esses investimentos representam mais conforto, segurança e oportunidades de aprendizagem para as crianças de Rio Novo do Sul.

A declaração é do secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo, durante a cerimônia. Em nenhum momento o material informa quando as reformas terminam nem quanto custa cada uma — as duas perguntas que a família com criança na fila de matrícula faz primeiro.

Por que não existe um valor total do pacote

Somar as cifras divulgadas produziria um número falso, e por cinco motivos simultâneos:

  • os estágios são diferentes. R$ 871 mil de ordem de serviço assinada e R$ 1,4 milhão de repasse oficializado não são dinheiro aplicado em obra pronta; juntá-los ao que foi inaugurado transforma promessa em entrega;
  • há itens sem valor nenhum. As quatro frentes escolares não têm cifra divulgada, e a menção avulsa à reforma do Centro Poliesportivo também não;
  • os R$ 2,62 milhões são um bloco. Cobrem três obras sem discriminação, então não dá para separar nem para conferir;
  • parte do dinheiro pode estar contada duas vezes, por causa da dupla menção à reforma do Centro Poliesportivo;
  • os R$ 118 milhões não são deste município. São a meta estadual até 2026 para 145 unidades socioassistenciais. Entram na conta local só por descuido de leitura.

O que existe é uma lista de valores, cada um com seu dono e sua condição. É assim que ela deve ser lida.

O que o material oficial não informa

  • prazo de conclusão da quadra de Princesa, autorizada pela ordem de serviço;
  • data de início e de entrega do Creas e da Brinquedopraça;
  • valor e prazo das reformas da EMEF Bodart Júnior e da EMEIEF Quarteirão;
  • valor, prazo e data de início da construção da EMEIEF Vital Lucas;
  • quanto dos R$ 2,62 milhões coube a cada uma das três obras do Fundo Cidades;
  • dias, horários, especialidades e forma de agendamento no ponto de apoio de São Vicente;
  • quantos moradores são atendidos pelos trechos de calçamento rural e qual a extensão em quilômetros;
  • quem responde pela manutenção dos campos e quadras depois da entrega;
  • a data em que o CEI Joaquina Nogueira foi entregue e quantas crianças eram atendidas antes da interdição;
  • o critério de distribuição do Fundo Cidades e como um município se habilita a ele;
  • o significado da sigla ESF, usada sem explicação.

Um lado só: o que a leitura pede de cautela

Todo o material que sustenta este texto vem do próprio Governo do Estado, órgão que executa e paga as obras — e que, portanto, é parte interessada na avaliação delas. Não há no material ouvido nenhum morador das 11 comunidades calçadas, nenhum usuário da unidade de saúde, nenhum profissional das escolas em reforma, nenhuma voz de oposição local e nenhuma avaliação técnica independente sobre qualidade de execução ou adequação de preço.

Ausência de crítica no material não é sinal de consenso. Significa apenas que o documento de origem não foi feito para trazer crítica. As cinco falas de autoridades que acompanham o release são declarações de gestores sobre a própria gestão, e é assim que devem ser lidas — inclusive as reproduzidas aqui.

As siglas do release, em português claro

  • Fundo Cidades — mecanismo pelo qual o Estado repassa dinheiro direto ao município para obras. O material não explica o critério de escolha dos contemplados;
  • Funpaes — fundo estadual voltado a ampliar e melhorar a oferta de educação infantil e ensino fundamental no Espírito Santo, usado aqui para financiar obras em escolas municipais;
  • Cras e Creas — o primeiro é a porta de entrada da assistência social; o segundo atende casos que já envolvem violação de direitos;
  • Pepi — plano estadual voltado à primeira infância, que ampara a Brinquedopraça;
  • CBUQ — a massa asfáltica aplicada quente, padrão de recapeamento de pista;
  • Seag, Sesport e DER-ES — respectivamente a pasta da agricultura, que coordena o Calçamento Rural; a de esportes e lazer; e o departamento responsável pela execução de edificações e rodovias;
  • Ordem de Serviço — documento que autoriza o começo da obra. É o oposto de inauguração: marca o início, não o fim.
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