Escola de Vila Velha encerra projeto sobre saberes indígenas

A EEEFM Luiz Manoel Vellozo, escola estadual de Vila Velha, fechou na quarta-feira, dia 23 de abril de 2025, o projeto interdisciplinar Saberes da Terra, que colocou saberes indígenas na escola como matéria-prima de aulas de química, biologia, física e matemática. O projeto está encerrado: o material oficial descreve o dia da conclusão e não anuncia nova edição, continuidade no calendário escolar nem repetição em outras unidades da rede estadual.

As quatro oficinas que juntaram conteúdo de prova e saberes indígenas na escola

O trabalho foi repartido em quatro frentes, e cada estudante escolheu de qual participaria. São elas, com o nome que o material oficial dá a cada uma:

  • Produção de tintas naturais;
  • Grafismo indígena em sólidos geométricos;
  • Etnobotânica;
  • Estudo do calendário astronômico indígena.

Nenhuma delas é detalhada. O material não diz de que plantas ou pigmentos saíram as tintas, que grafismos foram reproduzidos e de onde vieram, o que os estudantes examinaram na oficina de etnobotânica nem que marcações de tempo o calendário estudado organiza. Também não explica os dois termos técnicos que usa. Quem procura o roteiro pedagógico para repetir a experiência em outra escola não o encontra na nota. No fim, cada grupo apresentou o que havia produzido aos demais, em exposições.

A visita a Piraqueaçu e quem o material não nomeia

Depois das oficinas vieram duas etapas de fechamento: um quiz on-line de revisão dos conteúdos e uma ida à aldeia indígena de Piraqueaçu, em Aracruz.

A nota registra a viagem, mas não identifica ninguém do outro lado. Não informa a que povo pertence a aldeia, não nomeia moradores, lideranças ou professores indígenas que tenham recebido a turma, não diz quem conduziu a visita no local e não esclarece se pessoas da aldeia participaram da preparação das oficinas feitas antes, dentro da escola. Os cinco nomes próprios que o material apresenta são todos de professores da própria unidade. Dito de outro modo: o saber aparece no texto como conteúdo de aula, e quem o detém não aparece como autor de nada — nem como voz.

A única fala do material é de uma professora

“O projeto foi um sucesso total, com envolvimento dos alunos desde o início. Eles puderam escolher as oficinas com base em suas curiosidades e habilidades. As exposições ao final permitiram uma troca entre os grupos, em que cada um apresentou o que desenvolveu”

A avaliação é da professora de Química Jessika Lima Cruz, que orientou o trabalho ao lado de outros quatro docentes. É a única declaração do material: nenhum estudante e nenhuma pessoa da aldeia é ouvida.

Cinco professores, e nenhum da área de humanas na lista

A orientação é atribuída a Jessika Lima Cruz (Química), Débora Machado Ferreira (Biologia), Silvia Maria Passifico de Miranda (Matemática), Adiel Rodrigues de Souza (Física) e Joel Veronez Almeida (Matemática). A lista bate com as duas áreas que a nota aponta como responsáveis pelo projeto: Ciências da Natureza e Matemática. Nenhum professor de humanas — história, geografia ou arte — aparece entre os orientadores citados, o que não quer dizer que não tenham entrado no projeto, e sim que o material não os menciona.

O trabalho é apresentado como alinhado ao ProERER, sigla que o próprio material abre como Programa de Educação para Relações Étnico-Raciais, e a pautas de diversidade e inclusão. O texto para aí: não diz o que o programa determina às escolas, se a adesão é obrigatória, quantas unidades da rede o seguem nem se o Saberes da Terra foi inscrito nele formalmente.

O que a nota oficial não informa

  • quantos estudantes participaram, de que séries e de quantas turmas;
  • quanto tempo o projeto durou, do começo ao dia do encerramento;
  • quem recebeu a turma na aldeia e a que povo ela pertence;
  • como a visita foi custeada e transportada, e quem autorizou a saída;
  • o que aconteceu com o que os estudantes produziram — se ficou exposto, se foi publicado, se virou acervo da escola;
  • se há nova edição prevista, na mesma escola ou em outras.

Vale o registro de que se trata de texto de divulgação oficial, que apresenta o resultado pelo lado de quem promoveu a iniciativa. Não há avaliação externa, nem qualquer voz que discorde — e ausência de crítica em material desse tipo não equivale a consenso.

O tema voltou à rede estadual nas semanas seguintes

Este texto trata do encerramento de abril de 2025. Depois dele, em 1º de junho, uma escola da Serra realizou projeto interdisciplinar sobre povos indígenas com foco na identidade capixaba, em outro município e com outra equipe; e, em 5 de junho, foi a vez de estudantes de Vila Velha visitarem uma aldeia guarani em Aracruz. Os dois registros são posteriores a este, e o material desta matéria não permite dizer se envolvem a mesma escola, a mesma turma ou a mesma aldeia.

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