A EEEFM Germano André Lube, escola estadual do município da Serra, realizou na quinta-feira, 29 de maio de 2025, a atividade de conclusão do projeto Povos Indígenas do Espírito Santo: Cultura, Território e Equidade – Cultura indígena não é passado: é presença, resistência e saber, dedicado aos povos indígenas capixabas e, em especial, aos Tupiniquim e Guarani. O que o texto oficial descreve é o dia do fechamento — a exposição final, com maquetes, argila, cartazes e a presença de representantes dos dois povos. Ele não diz quando o trabalho começou, quanto tempo durou nem se haverá nova edição.
Argila, maquete e carta: o que os estudantes produziram
A parte mais concreta do material é a lista do que saiu das mãos dos estudantes. Eles se organizaram em equipes com funções divididas — produção textual, pesquisa, modelagem e organização do evento final — e levaram à exposição maquetes do território capixaba, cartas de homenagem que escreveram, cartazes informativos e objetos simbólicos em argila. Fora das mesas, montaram um mural com personalidades indígenas da literatura brasileira, gravaram um episódio especial do podcast escolar Podgal e fizeram a curadoria e a montagem das mesas expositivas temáticas. Estudantes do Atendimento Educacional Especializado (AEE) participaram da confecção das peças de argila.
São verbos de ato: pesquisaram, escreveram, modelaram, montaram, gravaram. É o que separa este material de tantos textos escolares que apenas informam que alguém vivenciou ou refletiu. Mas o detalhe para no nome do produto. O texto não diz quais personalidades entraram no mural, que porção do território as maquetes representam, a quem as cartas de homenagem foram endereçadas, se chegaram a ser entregues, nem onde o episódio do Podgal pode ser ouvido por quem não estava na escola naquele dia.
Tupiniquim e Guarani na escola: música, dança e artesanato
O material registra que representantes dos povos Guarani e Tupiniquim estiveram na conclusão do projeto e apresentaram música, dança e artesanato à comunidade escolar — o que o texto resume como o compartilhamento de elementos de suas culturas. O texto chama o encontro de intercâmbio direto e significativo, mas o único ato que descreve é o da apresentação: não há menção a roda de conversa, oficina conduzida por eles, entrevista feita pelos estudantes ou produção feita em conjunto. Quem apresentou foram os visitantes; quem assistiu foi a escola.
E há um segundo silêncio, maior. Nenhum dos representantes é nomeado. O material não informa quantos foram, de que aldeia ou território vieram, quem os convidou, se receberam por isso e se participaram do planejamento das semanas anteriores — quando o que se pesquisou e se modelou já era a cultura deles. Não há uma linha de fala de nenhum. Os dois povos aparecem no texto como assunto de aula e como atração do dia final, não como autores de nada que esteja descrito.
O próprio texto trata Tupiniquim e Guarani como povos distintos, e é assim que devem ser lidos: são histórias e territórios diferentes, e nada no material explica o que separa um do outro. A palavra idiomas aparece na relação de temas expostos, no plural, sem que nenhuma língua seja nomeada. Para quem quiser o retrato de fundo, o portal já publicou um levantamento oficial de abril de 2025 sobre quantas pessoas indígenas vivem no Espírito Santo e em que municípios estão, que é dado de população e não tem relação com esta atividade escolar.
Uma declaração no material inteiro, e ela é de quem coordenou
“O envolvimento dos estudantes e o contato com os povos originários fortaleceram o compromisso com uma educação inclusiva e antirracista”
Assina a avaliação a professora Beatriz Xavier Domingues, da área de Geografia, a quem o material atribui a coordenação do projeto, com colaboração de outras áreas do conhecimento. A interdisciplinaridade citada reuniu História, Geografia, Língua Portuguesa, Matemática e Artes. É a única declaração do texto inteiro: nenhum estudante e nenhum dos visitantes indígenas é ouvido.
Três listas que o texto oficial deixa abertas
Quem for usar este material como referência precisa notar que ele não fecha nenhuma das três relações que apresenta. As funções das equipes vêm com um como na frente; os temas das mesas expositivas — alimentação tradicional, arte e simbologia, saberes da natureza, idiomas, oralidades e espiritualidades indígenas — também; e os ganhos pedagógicos são apresentados com um entre os resultados observados, destacam-se, que é recorte por definição.
Consequência prática: nenhum desses três totais existe no material. Contar os itens que aparecem e apresentar a soma como o número de funções, de temas ou de resultados produziria um dado que a escola não declarou.
Os resultados vêm sem instrumento que os meça
O texto relaciona como ganhos o trabalho em equipe fortalecido, a oralidade e a escuta ativa valorizadas, a criatividade e a empatia desenvolvidas e o conhecimento histórico, geográfico, linguístico e artístico ampliado a respeito dos povos indígenas do Estado. Nenhum deles vem com medida. O material não diz quem observou, com que instrumento, em que momento, sobre quantos estudantes, nem se houve comparação com alguma situação anterior. Projeto realizado é atividade, não é resultado — e o que existe aqui é o registro da atividade.
Vale ainda uma observação sobre os rótulos. Valorização cultural e identidade capixaba são as expressões que dão nome ao trabalho na divulgação, mas o corpo do texto fala em identidade cultural dos povos indígenas capixabas e, ao final, em uma visão mais crítica e plural da identidade brasileira. São três recortes diferentes, e o material não explica em qual deles a atividade se encaixa.
Da escola ou da rede? O material aponta uma professora, não um programa
A distinção interessa a qualquer família que queira pedir o mesmo na escola do filho. Não há, no texto, nome de programa, número de edital, verba, meta, material comum ou data de calendário que amarrem o projeto a uma política da rede estadual: a única coordenação nomeada é a de uma professora da própria unidade, e as áreas envolvidas são as da própria escola. Pelo que está escrito, a iniciativa é da unidade.
Material comum sobre o assunto existe na rede — em janeiro de 2025, a secretaria estadual de Educação colocou à disposição das escolas um calendário de datas indígenas e afro-brasileiras para o ano letivo —, mas o texto desta atividade não menciona esse nem qualquer outro apoio. Trabalhos parecidos também apareceram em outras unidades nas semanas anteriores: em abril, uma escola de Vila Velha encerrou um projeto que levou saberes indígenas para aulas de ciências da natureza e de matemática, com ida a uma aldeia; em maio, outra escola da Serra juntou jogos tradicionais indígenas a atividades de programação digital. Cada um é trabalho de uma equipe diferente, e nada no material desta matéria os liga entre si.
Um projeto sem número: nem quantos alunos, nem quantos dias
Listado o que o texto traz, sobra a relação do que ele não traz — e ela é longa para uma atividade que mobilizou a escola:
- o número de estudantes envolvidos e as turmas de que vieram;
- quando o projeto começou e por quantas semanas ou meses se estendeu;
- quantos representantes indígenas estiveram na escola e de que aldeia ou território;
- o que aconteceu com as maquetes, as peças de argila, as cartas e o mural depois do dia 29;
- onde o episódio do podcast escolar ficou disponível;
- quantos estudantes do AEE participaram e que adaptações o trabalho com argila exigiu.
A continuidade não chega a ser tratada: o material não anuncia nova edição e tampouco afirma que o projeto se encerrou de vez. Uma coisa é a escola dizer que não repetirá; outra é o texto simplesmente não tratar do assunto — e é o segundo caso.
Por fim, o registro do gênero do documento: trata-se de divulgação oficial, escrita do ponto de vista de quem promoveu a atividade. A única voz é a da professora que a coordenou. Não há avaliação de fora da escola nem manifestação das comunidades cujas culturas foram o tema do trabalho.
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