Orla de Piúma: 2ª fase autorizada e ainda sem data de início

O Governo do Estado autorizou, na sexta-feira 27 de junho de 2025, o início da segunda fase da revitalização da orla de Piúma, na Praia Central, no Litoral Sul capixaba. Autorizar é o passo que antecede o canteiro: o comunicado oficial do dia trata a nova etapa toda no tempo futuro, sem dizer quando o serviço começa, quanto tempo deve durar e quem vai tocá-lo. Este texto registra o que foi anunciado naquela data, e o valor declarado pelo Estado para a etapa é de R$ 18,8 milhões.

O ato ocorreu na própria cidade, com a presença do governador Renato Casagrande. A justificativa apresentada pelo Estado para a intervenção é conter os efeitos da erosão costeira que, segundo o material, atinge a região desde a década de 1990.

Os dois trechos novos da revitalização da orla de Piúma

A primeira etapa da obra contemplou o trecho entre as ruas Alípio Paulo e Valdoberto Layber. A segunda vai abranger dois pedaços: o que fica entre as vias Itaperuna e Alípio Paulo e o que fica entre as ruas Valdoberto Layber e Augusto da Costa Oliveira.

As duas vias que limitavam a etapa anterior reaparecem como pontos de partida da nova. O que o Estado descreve, portanto, é uma continuação nas duas pontas do que já foi feito, e não um trecho solto em outro ponto da praia. O que falta é a medida disso: o comunicado não dá a extensão em metros ou quilômetros de nenhum dos trechos, nem do que ficou pronto, nem do que foi autorizado.

15,9 mil m² de piso, 184 bancos e 324 unidades de arborização

A lista de serviços vem inteira no tempo do que ainda vai acontecer — o projeto prevê, estão previstas. É o que o Estado divulgou para a etapa autorizada:

  • 15,9 mil metros quadrados de pavimentação em blocos de concreto;
  • ampliação do calçadão e da ciclovia em 13,4 mil metros quadrados;
  • 37 bicicletários;
  • 184 bancos de concreto;
  • 324 unidades para arborização e paisagismo;
  • recuperação de 3,7 mil metros quadrados de área de restinga.

Três observações sobre esses números, e as três saem do próprio texto oficial. Os 13,4 mil metros quadrados somam calçadão e ciclovia numa medida só, sem dizer quanto cabe a cada um. As 324 unidades de arborização e paisagismo são contadas em unidades: quantas viram árvore, de que porte e de que espécie fica sem resposta. E a restinga entra como recuperação de área, sem que o comunicado descreva em que estado essa faixa se encontra.

O texto oficial fecha dizendo que a etapa beneficia diretamente mais de 22 mil moradores do município. O número vem com um mais de na frente, então marca o mínimo da conta e não o resultado dela — e o critério que separa quem é beneficiado diretamente de quem não é não aparece no comunicado.

R$ 18,8 milhões nesta etapa, quase R$ 40 milhões apresentados como já investidos

O comunicado traz duas cifras. A primeira é a da etapa autorizada em 27 de junho: R$ 18,8 milhões do Governo do Estado. A segunda aparece uma linha adiante, quando o texto diz que os trechos somam quase R$ 40 milhões já investidos contra a degradação da Praia Central.

Vale ler a segunda devagar. Ela é apresentada como dinheiro já investido, mas o período em que aparece inclui a etapa que estava sendo autorizada naquele momento — ou seja, recurso que, no dia do anúncio, ainda não tinha virado obra. O material não abre esse total: não diz quanto custou a primeira etapa, em que data ela terminou, nem se há outros gastos dentro dos quase R$ 40 milhões além das duas fases da orla. Também não nomeia programa, fundo, contrato ou convênio, e não informa se a Prefeitura de Piúma entra com contrapartida.

Erosão desde os anos 1990, sem medida do que a primeira etapa conteve

Erosão costeira, em linguagem de praia, é a perda da faixa de areia para o avanço do mar. Restinga é a vegetação baixa que cresce sobre essa areia, entre a praia e a cidade. O Estado diz que a obra busca conter os efeitos da erosão e prevê recuperar 3,7 mil metros quadrados de restinga. Sobre o problema que motiva o investimento, o comunicado não vai além dessas duas linhas.

Não há no comunicado uma causa declarada para a erosão, referência a estudo técnico, nem indicador nenhum do que a primeira etapa alcançou: nada sobre faixa de areia recuperada, monitoramento ou comparação entre antes e depois. O único balanço do trecho pronto está dentro de uma fala, e é de outra natureza — trata de aluguel de casas e movimento do comércio no verão.

O que disseram o governador e o secretário Marcos Soares

Casagrande falou ao autorizar a obra, na própria Piúma:

Nós estamos dando mais um passo importantíssimo. Quem viu o verão de Piúma já percebeu como o dinheiro publico bem aplicado faz mudar a vida das pessoas. Não tinha mais casa vazia para alugar, o comércio potencializado e as famílias aumentaram sua renda. Na administração pública precisamos fazer a diferença e nós estamos fazendo em todo o Estado. Ao lado do vice-governador Ricardo Ferraço estamos levando investimentos para todos os 78 municípios. Essa orla de Piúma é outra e hoje vamos dar mais um passo para que possamos deixar essa cidade ainda mais bonita

A fala carrega afirmações econômicas sobre o verão da cidade — casas alugadas, comércio potencializado, renda das famílias em alta — que o comunicado não acompanha de dado nenhum: não há taxa de ocupação, faturamento, pesquisa ou fonte de medição em lugar algum do material. São avaliações de quem governa, e é nessa condição que aparecem aqui. A grafia da palavra publico, sem acento, está assim no texto divulgado pelo Estado e foi mantida.

O secretário de Estado de Saneamento, Habitação e Desenvolvimento Urbano, Marcos Soares, tratou do que a intervenção deve significar para a cidade:

Queremos continuar transformando a realidade de Piúma. Esta obra é um compromisso com o futuro, é a garantia de mais segurança e qualidade de vida para a população. Nosso objetivo é gerar maiores oportunidades para o desenvolvimento sustentável da cidade

Sem prazo, sem empresa e sem projeto publicado

O que o Estado divulgou em 27 de junho não responde a nada disto:

  • quando a segunda etapa começa e em quanto tempo deve ficar pronta;
  • qual empresa ou órgão executa o serviço, e se licitação e contrato já estavam resolvidos;
  • quanto custou a primeira etapa e em que data ela foi concluída;
  • a extensão, em metros, de cada trecho da orla;
  • quantas das 324 unidades de arborização são árvores;
  • como foram contados os mais de 22 mil moradores beneficiados diretamente;
  • se a orla da Praia Central fica inteira contemplada ao fim desta etapa ou se haverá uma terceira;
  • o que muda para quem mora e trabalha na orla enquanto a obra corre: interdição, desvio, calendário de verão;
  • onde o cidadão consulta o projeto, e quem acompanha a recuperação da restinga.

O material também não indica canal nenhum — site, telefone ou setor responsável — para quem quiser acompanhar o andamento da obra.

Quem não aparece: prefeitura, comércio da orla e moradores

As duas vozes do comunicado estão do mesmo lado: o governador e um secretário do próprio Estado. Não há uma linha da Prefeitura de Piúma, de morador da Praia Central, de comerciante da orla, de pescador ou de técnico que estude a costa capixaba — nem para concordar, nem para divergir. Material de assessoria de governo é escrito assim, e quem lê precisa saber que a única versão disponível neste caso é a de quem assina o investimento.

Piúma no calendário do governo estadual: três atos em seis meses

A orla não foi o único anúncio do Governo do Estado em Piúma no primeiro semestre de 2025. Em janeiro, o mesmo governador esteve na cidade para a entrega, já concluída, das obras de infraestrutura do Polo Industrial de Piúma. Em abril, voltou para o início das consultas oftalmológicas no Litoral Sul, visita em que também assinou a ordem de serviço de outra obra de urbanização — obra que, naquele dia, ainda não tinha começado.

São intervenções diferentes, em pontos diferentes da cidade, e nenhuma delas é a orla da Praia Central. Postas em fila, mostram o que a segunda fase da revitalização da orla de Piúma tem em comum com boa parte do que se anuncia em obra pública: o ato marca a autorização, e o serviço no chão ainda depende de acontecer depois dele.

Sobre Redação

Portal Direto Noticias - Imparcial, Transparente e Direto | https://diretonoticias.com.br | Notícias de Guarapari, ES e Brasil. Ative as notificações ao entrar e torne-se um seguidor. Caso prefira receber notícias por email, inscreva-se em nossa Newsletter, ou em nossas redes:

Veja Também

voto pelo correio nos EUA

Voto pelo correio nos EUA: Trump leva disputa à Suprema Corte

Trump recorre à Suprema Corte para suspender liminar que bloqueia novas regras para o voto pelo correio nos EUA.