Lançar objetos leves, acertar um alvo e depois somar os pontos: foi essa a rotina de uma turma de 6º ano da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Marinete de Souza Lira, na Serra, que teve aulas de Matemática com jogos de precisão nas primeiras semanas de junho de 2025. O projeto se chama Na Mira da Matemática e foi conduzido pela professora Camila Lima Lomba Marins. O que existe sobre ele é o registro de uma atividade já encerrada, divulgado em junho de 2025 — e esse registro não diz em que semana as aulas aconteceram nem se o projeto teve repetição depois daquele mês.
Os alunos participaram; o texto oficial não diz que calcularam
Vale ler os verbos do material de origem antes de aceitar a ideia de que a quadra virou sala de aula. Com os estudantes como sujeito, ele usa duas vezes o mesmo verbo: participaram — do projeto e dos jogos. A frase que descreve o conteúdo matemático muda de construção e apaga quem age: foram aplicadas noções matemáticas. Voz passiva, sem agente. Não dá para saber, pelo texto, se os alunos mediram as distâncias, anotaram os acertos e calcularam as médias, ou se assistiram a alguém fazer isso e depois jogaram.
A distinção muda o que se pode afirmar sobre a aula: ela decide se a Matemática esteve nas mãos dos estudantes ou apenas na descrição do que eles fizeram. E o material também não descreve nenhum produto: não menciona tabela, planilha, cartaz, gráfico, relatório nem apresentação em que as contagens de pontos tenham virado registro. A pergunta tem peso maior porque esta mesma escola já apareceu do outro lado da linha: em novembro de 2024, estudantes desta mesma unidade ouviram moradores do bairro e desenvolveram um aplicativo que reunia o comércio da região e um canal para denunciar descarte irregular de lixo. Ali havia uma coisa pronta, que dava para abrir e usar. Em junho de 2025, o que a divulgação apresenta é a atividade em si.
Matemática com jogos de precisão: os conteúdos que o material nomeia
Neste ponto o texto de origem é específico, e isso merece registro. Ele nomeia quatro conteúdos trabalhados durante as práticas:
- estimativa de distâncias e lançamento — calcular de longe quanto vale um espaço antes de conferir com a medição;
- contagem de pontos — a aritmética simples de somar acertos;
- médias — dividir o total de pontos pelo número de tentativas, o que permite comparar quem jogou mais vezes com quem jogou menos;
- porcentagens de acertos — quantos, em cada cem tentativas, foram no alvo.
O que não aparece é tão informativo quanto: nenhuma menção a ângulo, trajetória, proporção, escala, geometria ou tratamento estatístico dos resultados. São conteúdos que a expressão esportes de precisão costuma sugerir, e o material não os reivindica. Também não é a primeira vez que a rede divulga Matemática fora do caderno: em maio de 2025, quatro escolas estaduais marcaram o dia dedicado à disciplina com gincana, feira, quiz e jogos — e naquele material o número de participantes também não foi divulgado.
Jogos improvisados, não modalidade esportiva
A expressão esportes de precisão sugere arco, dardo ou tiro. Não é o caso. O que o material descreve são arremessos de objetos leves, circuitos montados para a pontaria e marcações feitas na quadra — atividades montadas com o que a escola tem. Nenhuma modalidade esportiva é nomeada; nenhum equipamento é descrito; nenhum fornecedor, parceiro ou responsável técnico é citado. A única pessoa apontada como responsável pela condução é a professora.
A escola tem histórico de tirar conteúdo da sala: em março de 2025, alunos da unidade extraíram DNA de morango numa atividade prática de investigação científica. Naquele caso, o material de divulgação nomeava o experimento e o que ele mostrava. Neste, o que se sabe do que foi feito com os números cabe em uma frase de aluno.
Quantos alunos jogaram, o material não conta
O único número do texto de origem é a série: 6º ano. Nem o total de estudantes, nem o de turmas, nem o de aulas. A lista do que ficou de fora:
- quantos estudantes e quantas turmas do 6º ano passaram pelo projeto;
- quantas aulas ele ocupou, e em quais semanas de junho;
- qual é a outra disciplina da proposta chamada de interdisciplinar — o texto fala em conexão entre movimento corporal e Matemática, mas não nomeia um segundo componente curricular nem um segundo professor;
- que objetos foram lançados, quem os forneceu e quem supervisionou as práticas além da professora;
- se as contagens de pontos foram anotadas em algum lugar;
- se houve avaliação, nota, prova ou comparação com o desempenho anterior da turma;
- se o projeto foi repetido em outras turmas, em outras escolas, ou se terminou em junho.
Iniciativa da escola, e não programa da rede
A Matemática com jogos de precisão, aqui, foi decisão tomada dentro da escola. Nada no material aponta para uma política estadual: não há verba destinada, meta, coordenação, calendário comum nem adesão de outras unidades. O que existe é uma professora, uma turma e uma proposta de sala de aula que a rede resolveu divulgar. Chamar isso de programa seria promover a iniciativa a um patamar que o próprio texto não pede.
Vale notar de onde vem a avaliação do resultado. As frases que dizem que a atividade reforçou o pensamento estratégico e ampliou o significado da aprendizagem estão no material de divulgação escrito pela própria rede que administra a escola. Nenhum indicador acompanha essas frases, e ninguém de fora da unidade foi ouvido para confirmá-las ou contestá-las.
Essa proposta interdisciplinar foi uma maneira criativa de aproximar os alunos da Matemática por meio do movimento. Os jogos de precisão despertaram o interesse dos estudantes e mostraram que é possível aprender conteúdos matemáticos de forma prática e divertida
Camila Lima Lomba Marins conduziu as aulas e assinou essa avaliação no mesmo texto de divulgação que apresenta o projeto ao público.
A aluna que falou não é nomeada; a professora, sim
O material de origem traz o nome completo de uma aluna e o código da turma dela. Os dois saíram desta reportagem. Um depoimento elogioso sobre uma aula não é razão suficiente para deixar uma estudante do 6º ano indexada, com nome, escola e município no mesmo lugar, num resultado de busca que ninguém procurou e que ela não escolheu. A regra do portal vale igual quando a menção é boa. O nome da professora permanece: ela responde pelo projeto no exercício da profissão, como responderia por qualquer outra decisão pedagógica.
A fala fica inteira. É o único trecho em que um estudante conta, em primeira pessoa, o que fez com os números:
Achei diferente e muito legal! Eu nunca tinha pensado que dava pra usar Matemática nos jogos. Aprendi sobre média e pontuação enquanto jogava com meus colegas. Foi uma aula divertida e ao mesmo tempo aprendi muito.
A frase saiu de uma estudante do 6º ano, ouvida pelo próprio texto que a rede publicou sobre o projeto.
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