Os estudantes do Atendimento Educacional Especializado (AEE) do Centro Estadual de Ensino Médio em Tempo Integral (CEEMTI) Baixo Guandu passaram as últimas semanas em um projeto que terminou com um supermercado montado dentro da própria escola. No Supermercado do AEE, divulgado em 11 de julho de 2025, a turma escreveu a própria lista de compras, foi ao comércio pesquisar preço, etiquetou os produtos com os valores que havia levantado e, no dia da abertura, revezou-se no caixa, no empacotamento e no atendimento a colegas, professores e funcionários.
A atividade já aconteceu — não é anúncio de projeto futuro. Ela integra o Arraiá do Sistema Monetário do AEE e foi organizada pelas professoras do serviço, Simone da Penha Pedrosa Palcich e Geovanna Ramos Machado Raymundi, com apoio do Supermercado São José, do próprio município.
O que os estudantes de fato fizeram no Supermercado do AEE
A diferença entre participar de uma atividade e executá-la costuma sumir na divulgação escolar. Aqui ela dá para ser recuperada, porque o material descreve tarefas com verbo próprio, uma a uma:
- Escreveram. O ponto de partida foi o estudo do gênero textual lista, e cada estudante montou a sua relação de compras.
- Pesquisaram preço fora da escola. A turma foi até o Supermercado São José e levantou valores em diferentes setores da loja.
- Etiquetaram a mercadoria. Os preços que eles próprios haviam anotado viraram as etiquetas dos produtos da simulação — tarefa que o material atribui expressamente aos estudantes do AEE.
- Atenderam. Na abertura, revezaram-se como operadores de caixa, embaladores e atendentes, enquanto estudantes, professores e funcionários circulavam fazendo compras.
É por isso que a palavra que descreve o dia não é passeio nem apresentação: eles ficaram do lado de dentro do balcão. O supermercado da cidade cedeu itens, carrinhos e até a caixa registradora para viabilizar a montagem; o trabalho de dar preço à prateleira e de operar o atendimento coube à turma.
O aplicativo existe — mas o texto não diz quem o programou
A simulação teve leitura de código de barras. Segundo o material, um aplicativo para cadastro dos produtos e leitura dos códigos foi desenvolvido com a parceria da professora Melissa do Carmo Schreder, do curso técnico em Informática, e criado dentro da escola.
Quem escreveu esse aplicativo, o texto não informa. Ele registra a parceria da professora do curso técnico e diz que a ferramenta nasceu na escola — não que os estudantes do AEE a tenham programado. A distinção muda o que se pode afirmar: no que toca ao aplicativo, o papel documentado da turma do AEE é o de quem usa a ferramenta no caixa. Usar não é desenvolver, e o crédito de desenvolvimento é justamente o dado que a divulgação deixou em branco.
O que o projeto se propôs a ensinar, e o que ficou sem medida
O material lista com clareza a intenção pedagógica: habilidades matemáticas ligadas ao uso do dinheiro, noções de valor, cálculo de preços e troco; competências linguísticas, pela produção das listas de compras; e competências tecnológicas, pelo uso do aplicativo feito na escola.
Isso é o objetivo declarado, não o resultado apurado. Nenhum indicador acompanha o anúncio: não há avaliação antes e depois, não há registro de quantos estudantes participaram, não há qualquer verificação de que as habilidades previstas tenham sido alcançadas. O efeito aparece descrito por adjetivo — concreta, lúdica, funcional, significativa —, e adjetivo não mede aprendizagem. Também não se diz se o caixa movimentou dinheiro de verdade, cédula simulada ou apenas o registro na tela do aplicativo, informação que faria diferença justamente para a habilidade de calcular troco.
O Supermercado do AEE se torna ainda mais significativo por ser construído junto com os estudantes. Eles participam de cada etapa, se sentem parte do processo e aprendem com mais sentido. Outro ponto importante é a participação de toda a escola, o que fortalece a inclusão de forma efetiva
Quem assina essa leitura é Simone da Penha Pedrosa Palcich, professora do Atendimento Educacional Especializado, que organizou o projeto junto com Geovanna Ramos Machado Raymundi.
Gostei muito de participar do supermercado e de ficar no caixa, achei que não ia dar conta, mas no final fiquei muito feliz, pois percebi que além de dar conta eu aprendi muito.
Quem fala é uma das estudantes do AEE que assumiram o caixa no dia da abertura. Esta matéria não a identifica pelo nome, e o bloco seguinte explica por quê.
Por que esta matéria não traz o nome da estudante
A divulgação oficial publica o nome completo dela. Aqui ele sai, por decisão da redação, e dois motivos se somam — o segundo é o que pesa mais.
O primeiro é a natureza da fala. Ela conta que gostou, que temeu não dar conta e que se saiu bem: é relato de experiência, não ato público. Um depoimento assim continua inteiro sem a etiqueta do nome, porque quem o lê quer saber como foi a atividade, não quem a viveu.
O segundo é o vínculo. Publicar o nome ao lado da sigla do serviço, da escola e do município equivale a publicar, por dedução, o motivo pelo qual essa pessoa é atendida pelo AEE. Esse motivo é dado de saúde, e dado de saúde não vai ao ar — nem quando o órgão que divulgou não vê problema nisso, nem quando o contexto é elogioso. Num município do porte de Baixo Guandu, a dedução é imediata para qualquer pessoa que abra a página, hoje ou daqui a dez anos. A fala foi preservada palavra por palavra, sem corte por dentro; o que saiu foi só a identificação.
Os nomes das professoras permanecem. Elas conduzem o projeto no exercício da profissão e respondem publicamente por ele. A reserva existe para quem é atendido, não para quem atende.
A sigla está aberta, o serviço não está explicado
O texto oficial escreve Atendimento Educacional Especializado por extenso e para por aí. Não diz a quem o serviço se destina, em que turno funciona, quantos estudantes atende no CEEMTI Baixo Guandu, se ocorre em sala própria ou dentro da turma comum, nem como uma família faz para pleiteá-lo. Para quem lê querendo saber se um filho, um sobrinho ou um vizinho pode ser atendido, uma sigla aberta não resolve nada: continua um rótulo administrativo atravessado numa notícia sobre supermercado.
Esta matéria também não completa a definição por fora. Descrever aqui o público-alvo do serviço, num texto que já nomeia a escola e a cidade, devolveria pela porta dos fundos exatamente o dado que o bloco anterior tratou de proteger. Quem precisa dessa informação a obtém na própria unidade escolar, que é onde a matrícula e o encaminhamento acontecem.
Iniciativa da escola, e é na escola que se pergunta
Vale ao leitor saber onde bater. Tudo o que o material aponta como responsável cabe dentro do município: as professoras do AEE da própria escola, a professora do curso técnico em Informática da mesma unidade e um supermercado local, que emprestou os itens e os equipamentos. Não aparecem verba, meta, material padronizado, coordenação externa nem calendário comum a outras escolas — os sinais que costumam indicar uma política desenhada para a rede inteira.
Pelo que está escrito, portanto, quem quiser conhecer o projeto de perto, replicá-lo em outra unidade ou saber se um estudante pode participar procura a escola, e não uma instância acima dela.
O que ainda falta saber sobre o Supermercado do AEE
- Quantos estudantes. O total de participantes não é informado, e tampouco o tamanho da turma que o AEE atende na escola.
- Quanto tempo. O material fala em últimas semanas, sem data de início, sem quantidade de semanas e sem a data da abertura do supermercado.
- Quais produtos. Os itens cedidos pelo supermercado não são listados, contados nem descritos por faixa de preço.
- Quantos setores. A pesquisa de preços passou por diferentes setores da loja, expressão que não fecha número nem nomeia nenhum deles.
- Se houve dinheiro real. O texto não distingue entre cédula verdadeira, dinheiro simulado e registro apenas digital.
- O destino do aplicativo. Não se informa quem o programou, se ele segue em uso na escola nem se pode ser reaproveitado por outra unidade.
- O evento maior. O projeto é apresentado como parte do Arraiá do Sistema Monetário do AEE, mas o que mais esse evento reúne, quando ocorre e quem participa não é descrito.
- A avaliação. Não se diz se a aprendizagem foi verificada de alguma forma, nem por qual instrumento.
Quem escreveu a divulgação foi a própria instituição que realizou a atividade, e é esperado que o texto celebre o que fez. Não há nele a palavra de uma família, de um conselho escolar ou de qualquer pessoa de fora avaliando o projeto. Isso não indica que a avaliação externa seja desfavorável: indica que ela não foi procurada.
Não há anúncio de uma segunda edição
O material não informa se o Supermercado do AEE volta a abrir, se entra no calendário fixo da escola ou se foi montado uma única vez para o Arraiá do Sistema Monetário do AEE. Tampouco diz o que aconteceu com os itens e os equipamentos emprestados depois do encerramento. Nada disso está negado no texto: está ausente dele. A divulgação simplesmente não trata do depois.
Outras atividades práticas registradas na cidade
Dois dias antes desta divulgação, em 9 de julho de 2025, o mesmo colégio apareceu em outro registro: uma turma do CEEMTI Baixo Guandu percorreu a Câmara Municipal — outro dia, outra turma e outro assunto, e ali os estudantes observaram como funciona o Legislativo, sem operar coisa alguma.
No eixo da inclusão, e fora de Baixo Guandu, junho de 2025 registrou uma escola estadual capixaba levando inclusão e acessibilidade para dentro do ensino de Ciências, em atividade sem nenhuma relação com o projeto de Baixo Guandu. E vale a ressalva de calendário para quem chegar por esta página: a palestra sobre projeto de vida em uma escola de Baixo Guandu é de novembro de 2025 e, portanto, aconteceu meses depois de o supermercado da escola fechar as portas.
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